Uni, duni, tê… vou escrever você!

Caro leitor, antes de lançar-me definitivamente na empreitada de escrever enfrentei duas dificuldades.

A primeira foi a insegurança de reconhecer-me como uma pessoa capaz de produzir um texto literário, ou seja, tornar-me escritor. Chamarei esta dificuldade de existencial.

A segunda foi descobrir sobre o que escrever e até onde eu conseguiria desenvolver uma ideia. Chamarei esta de dificuldade prática.

Na época, eu acreditava que eram problemas distintos. Hoje percebi que uma influenciava diretamente a outra. Ainda assim, neste artigo quero conversar com você principalmente sobre a dimensão prática da escrita, pois foi através dela que acabei compreendendo algo muito maior.

Confesso que, em diferentes ocasiões e em épocas distintas da minha vida, tentei produzir um texto literário. Em todas elas fracassei.

Escrever parecia quase uma brincadeira de infância: uni, duni, tê… escolhe um tema e começa. Descobri, porém, que não era tão simples.

Minha primeira tentativa aconteceu ainda na adolescência. Sempre fui um leitor ávido. Esperava ansiosamente pelas férias escolares — na minha época elas aconteciam em dezembro, janeiro e julho — para deixar de lado os livros exigidos pela escola e dedicar-me às leituras que realmente despertavam minha imaginação.

Não que a escola não proporcionasse boas escolhas. Muito pelo contrário. Foi durante o ensino médio que conheci a Coleção Vaga-Lume. Mergulhei em livros como O Menino de Asas, Spharion e O Mistério do Cinco Estrelas. Meu primeiro romance policial foi justamente Spharion.

Mas eu gostava mesmo era das histórias de Sherlock Holmes e, principalmente, de Agatha Christie. O primeiro livro dela que li foi Assassinato no Expresso do Oriente, obra que mais tarde ganharia diversas adaptações para o cinema.

Lembro-me como se fosse hoje de segurá-lo nas mãos durante as tardes silenciosas das férias de julho, folheando suas páginas, tropeçando na pronúncia daqueles nomes ingleses complicados e consultando a todo instante o mapa dos vagões impresso logo no início do livro.

Enquanto lia, fazia sempre a mesma pergunta: como alguém pode possuir uma mente tão criativa? Quantas ideias cabem na cabeça de uma pessoa? Quantas maneiras diferentes de construir uma história, surpreender o leitor e escapar das situações mais improváveis? Será que essas ideias nunca se esgotam?

Depois de tantas leituras da Rainha do Crime, achei que também seria capaz de escrever uma história policial.

Pobre de mim.

Não consegui passar da primeira página.

Naquela época eu escrevia em uma máquina de datilografar Hamilton portátil, pois os computadores domésticos ainda não faziam parte da nossa realidade. Não desisti facilmente. Tentava recomeçar, insistia, rabiscava novas ideias. Mas elas simplesmente não surgiam. E, quando finalmente conseguia escrever alguma coisa, logo abandonava o texto.

Hoje compreendo que, naquela fase, faltava-me bagagem pessoal.

Mais tarde descobri a literatura de terror. Até então meu contato com o gênero limitava-se ao cinema. Stephen King tornou-se rapidamente meu autor favorito. Depois vieram Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, Shirley Jackson e tantos outros.

Naturalmente sentei-me novamente diante da máquina de datilografar.

E, mais uma vez, fracassei.

As ideias não surgiam e tampouco conseguiam organizar-se de maneira coerente. Eu não sabia desenvolver personagens nem lhes dar profundidade psicológica. Concluí, então, que me faltava paciência para construir uma narrativa.

Descrente das minhas aptidões para a escrita, resolvi dedicar-me apenas à leitura. Confesso que essa decisão carregava uma boa dose de frustração. O que ainda me faltava? Minha bagagem havia aumentado consideravelmente e a paciência eu exercitava diariamente por meio da terapia e da meditação. Mesmo assim, nada fluía.

Vieram novas tentativas, agora diante da tela de um computador. Imaginei que a facilidade de apagar erros, reorganizar frases e escrever mais rapidamente resolveria o problema. Nem mesmo a tecnologia, porém, foi capaz de mudar aquele cenário.

E assim, entre tentativas e fracassos, cheguei aos meus cinquenta e quatro anos. Com mais experiência de vida, mais leitura, mais paciência e toda a tecnologia à disposição.

Então por que eu ainda não conseguia escrever?

Principalmente quando tantas pessoas insistiam em dizer que eu deveria escrever.

O que elas enxergavam em mim que eu era incapaz de ver?

Hoje a resposta me parece clara, mas precisei de um pequeno empurrão para percebê-la.

Eu não estava apenas procurando um jeito de escrever. Antes disso, precisava aprender a respeitar meu próprio jeito de ser, minha forma de imaginar histórias e de me expressar. Enquanto insistia em escrever como eu acreditava que um escritor deveria escrever, permanecia paralisado pelo medo de não corresponder às expectativas e de não ser aceito.

Foi então que uma pessoa muito querida, Dani, sugeriu algo aparentemente simples: por que eu não começava a escrever contos?

Histórias menores. Poucos personagens. Um conflito central. Um começo, um meio e um fim mais objetivos.

Além disso, eu poderia escrever exatamente sobre aquilo que sempre amei ler: terror, fantasia e realismo fantástico.

Percebi, então, que a solução prática escondia uma descoberta muito mais profunda. Não era apenas uma questão de começar por textos menores. Era encontrar um formato que respeitasse meu ritmo e minha maneira de criar.

A partir dali escrever tornou-se um exercício prazeroso.

Escrever, revisar, reescrever. Deixar o texto repousar, como a areia que lentamente se acomoda no fundo de um aquário. Compreender que um texto raramente — ou quase nunca — nasce pronto. Que é preciso afastar-se dele por algum tempo para depois voltar com um olhar mais generoso e mais atento. Perguntar por que determinada personagem agiu daquela maneira, por que escolheu aquelas palavras, por que aquela cena precisava existir.

Enfim, aceitar que escrever não é um ato de inspiração repentina, mas uma construção lenta, progressiva e profundamente prazerosa.

Escrever um conto. Depois dois. Depois três.

Vê-los lidos, apreciados e, sobretudo, perceber que cada novo texto era melhor que o anterior foi o incentivo que eu precisava.

Esses pequenos contos transformaram-se nos primeiros degraus de uma escada que, mais tarde, me conduziria ao romance.

Romance…

Ah, isso já é outra história.

Fica para um próximo Chá das Cinco.

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