Uma Noite Feliz para Otávio

Qualquer um que olhasse Otávio diria que ele era um cara muito normal, até meio sem graça inclusive. Havia muito pouco que chamasse atenção sobre ele a ponto de ser memorável.

Ele vivia uma vidinha normal de CLT. Acordava cedo, pegava o transporte público lotado, executava suas funções no trabalho e voltava para casa à noite. Raramente ele quebrava essa rotina.

Só havia duas coisas que talvez o salvassem de ser só mais um cara completamente entediante  na multidão de pessoas comuns. A primeira era o fato de ele ser um homem gay, que era algo que quase ninguém notava de cara. E a segunda era a paixão quase obsessiva que ele tinha por coisas natalinas, algo que acompanhava a trajetória dele há quase 40 anos.

Essa paixão era tamanha que os colegas de escritório viam, quase que magicamente, a transformação dele quando o período natalino chegava. Logo que o dia 1° de novembro chegava, quando todo mundo ouvia a cantora Simone perguntar insistentemente “O que você fez”, e se tornava socialmente aceitável colocar decorações natalinas, aquele colega de trabalho quieto e sisudo ganhava um brilho diferente no olhar.

A mesa de Otávio, de um dia pro outro, explodia de enfeites vermelhos e verdes. Ele ficava mais alegre e motivado, como se o espírito natalino tivesse baixado nele, tal qual uma entidade baixa num médium que entra num terreiro.

Era raro ver alguém com mais de 10 anos de idade que tivesse com o Natal, toda aquela animação e expectativa que ele tinha. Parecia um homem renovado, cuja energia ia se intensificando exponencialmente quanto mais próximo o dia 25 ia chegando.

Porém, na mesma intensidade que ele se animava até a véspera de Natal, ele ficava ranzinza na manhã seguinte, se mostrando ríspido e amargo como se o espírito natalino tivesse dado lugar ao próprio Grinch. E isso  era um choque para quem tivesse o conhecido apenas no período natalino. Não fazia sentido um homem tão alegre e amável, literalmente do dia para a noite, virar alguém que parecia prestes a rosnar para quem quer que chegasse perto o bastante para que ele notasse a presença.

Quando esse período rabugento chegava, os colegas preferiam deixá-lo quieto até que ele voltasse a ser o mesmo cara de sempre: ordinário, sisudo, corriqueiro, morno e meio sem sal. Mas também era alguém que, pelo menos, não estaria emanando ondas de ódio no olhar quando alguém fosse tirar alguma dúvida sobre papelada.

O motivo, para tanta animação antes, e tanto mau humor depois do Natal, parecia tão absurdo que ninguém sequer cogitava. E ainda havia o risco de soltarem uma sonora gargalhada caso descobrissem:

Otávio acreditava no Papai Noel.

Talvez acreditar não fosse a palavra mais correta, já que a crença exigiria uma certa falta de provas para ser verdadeiramente uma crença. Um cego poderia afirmar honestamente que acredita que o céu existe acima de sua cabeça. Já uma pessoa que enxerga apenas olharia para o alto e veria o céu lá, sem precisar acreditar naquilo para saber que está lá.

Otávio era justamente o segundo tipo de pessoa: ele não só acreditava em Papai Noel, ele sabia, com plena certeza, que o Papai Noel era real.

Essa certeza havia se consolidado bem cedo em sua vida, logo no primeiro Natal que tinha na memória. Ele havia ficado maravilhado com as histórias que seus pais e as professoras da creche contavam sobre um bom velhinho que, na noite de Natal, viajava o mundo todo para presentear quem tinha sido bom naquele ano.

Aquilo marcou tão profundamente o coraçãozinho miúdo do pequeno Otávio que, no Natal daquele ano, que seria comemorado com um belo e gordo churrasco com todos os parentes no sítio de um dos tios,   o menino fez o que pôde e o que não pôde para convencer a mãe a deixá-lo dormir na sala, junto à árvore de Natal. A mãe inicialmente barrou, mas acabou cedendo depois, tanto pela insistência do pequeno quanto por um pequeno empurrãozinho do pai, que insistiu que não faria mal para o filhinho dormir apenas um dia fora do quarto, já que era um dia de festa.

O pai só não contava que essa noite marcaria o resto da vida de Otávio.

Na madrugada, depois de todos soltarem muitos fogos e acabarem capotando de sono devido ao tanto que beberam e comeram, o Pequeno Otávio despertou com uma estranha movimentação na sala. Primeiro ele achou que era alguém passando para ir à cozinha ou algo assim, mas foi surpreendido pela visão de um senhor corpulento e barbudo, com um saco nas costas, vestindo uma pesada roupa de frio da cor…

Verde!

O homem ficou o mais imóvel que pôde quando percebeu o menino levantar lentamente a cabeça, encará-lo com aqueles grandes olhos redondos e, confuso, perguntar:

— Porque você tá parado nessa pose estranha?

Ouvir aquilo pareceu roubar todo o sangue das bochechas vermelhas do velhinho, que arregalou os olhos, incrédulo:

— V-você está me vendo?

— Tô, ué. Você não é transparente.

Aquilo pareceu assombrar ainda mais o senhor, que não sabia se o assombro era maior por estar sendo visto ou pela resposta malcriada. Ele parecia agitado:

— Volte a dormir, pequeno. Não seja um menino danado.

— Você é o Papai Noel?

— É como me chamam.

— Mas a roupa do Papai Noel não era vermelha?

— Longa história, garoto. Agora fique quieto se ainda quer ganhar presente.

O pequeno Otávio arregalou os olhos ao ouvir aquilo. Olhou a cara do senhor, o saco enorme nas costas, e não teve dúvida do que fazer.

— Ô, MÃÃÃÂE! TEM UM LADRÃO DENTRO DE CASA! CORRE AQUI!

O senhor barbudo fechou a cara imediatamente e, ao ouvir o som de pés descalços vindo batucando pelo chão de taco, disse rispidamente:

— Menino malvado!

E em seguida estalou os dedos e sumiu tal qual uma bolha de sabão some quando estoura. O menino viu, com espanto, aquilo acontecer segundos antes de sua mãe aparecer feroz, carregando uma vassoura.

— SEU INFELIZ! NÃO VAI MEXER COM MEU FILHO, NÃO! CADÊ ELE? CADÊ?

O pequeno Otávio olhou para ela muito confuso sobre o que deveria falar. Ergueu o dedo, apontando para onde o homem havia estado, mas já não havia nada lá.

A mãe correu na direção, achando que o homem tinha saído por ali e começou a procurar com fúria e agitação, parecendo aqueles cães perdigueiros buscando rastros e cheiros numa investigação. O pai apareceu em seguida na porta da sala, sonolento e confuso.

— O que está acontecendo aqui?

A mãe checou as portas e viu que estavam trancadas. Tentou achar algum rastro de alguém ter estado ali momentos antes e, depois de ter certeza que não teria mais nem onde nem o quê procurar, parou e encarou o pequeno Otávio, confusa e frustrada.

O barulho da criança chamando aos gritos e da mãe revirando tudo acordou alguns dos parentes que estavam de visita. Eles levantaram para ver o que estava acontecendo e, um a um, todos olharam para Otávio.

O pequeno se encolheu vendo os pais e os outros adultos o encarando daquele jeito, esperando respostas, mas falou a verdade:

— T-tinha um homem aqui! Ele estava com um saco nas costas, achei que ele queria levar as coisas de casa!

Os adultos se entreolharam sem entender. O pai tomou a frente para ver se conseguia alguma informação extra:

— E como era esse homem, Tavinho?

— Era grande e gordo, tinha uma barbona branca, e uma cara muito vermelha!

Aline, uma prima de mãe, deu uma risadinha abafada:

— Barba branca, saco nas costas… Só falta ele dizer que tava usando uma roupa vermelha para dizer que era o Papai Noel!

— Ei! Não era vermelha, era verde! – Otávio se defendeu, os adultos soltaram sons de desaprovação. A tal prima debochou:

— Aham, sei…

— Mas eu não tô mentindo!

Um tio que tinha um forte sotaque italiano (e que Otávio não gostava muito) falou por cima dos outros:

— Ô Carla, seu moleque acordou a casa inteira porque sonhou com o Papai Noel, mulher! Que saco! Desce o chinelo nesse moleque e bota o pirralho para dormir, caceta!

A mãe ficou constrangida com a fala e saiu pedindo desculpas a quem tinha acordado. Ela deu uma olhada para marido que não só dizia “eu avisei”, mas também passava uma descrição detalhada do que ele deveria fazer a seguir com o filho. O marido engoliu em seco ao detectar alguns xingamentos sendo transmitidos por esse olhar também.

Otávio foi pego no colo pelo pai, que o repreendeu brevemente enquanto o levava para ir dormir no quarto.

— Você deu um susto na mamãe e no papai, Tavinho. Não faz isso de novo.

— Mas pai, eu não tô mentindo!

— Eu acredito que você não tá mentindo, filho! Mas também acredito que você ficou tão empolgado com o Papai Noel que acabou sonhando.

Otávio viu o pai falar com tanta convicção que, por alguns momentos, duvidou do que viu.

— Mas pai, eu…

— Quieto, filho. Dorme que amanhã isso já vai ter passado. Senão sua mãe mata nós dois.

O pai o colocou na cama, cobriu e fez um cafuné no filho, que sustentava uma expressão inconformada no rosto.

Quando a mãe apareceu na frente do quarto, andando de um lado para outro, o pai saiu e fechou a porta atrás de si. Mesmo assim Otávio ouviu sussurros rápidos, os pais discutindo alguma coisa, e fechou os olhos. Sentia o pequeno coraçãozinho afundando por ninguém acreditar nele.

No dia seguinte, ele acordou com alguns dos tios zombando da cara dele. Alguns dos primos e primas pequenos foram na mesma onda, imitando os adultos. Ele se sentiu envergonhado e preferiu ficar quieto. A zombaria, no entanto, parou na hora de abrir os presentes. Primeiro porque cada um estava ocupado demais vendo os presentes que  tinham ganhado, mas também por todos ficarem confusos quando os presentes destinados a Otávio – e apenas os destinados a ele – caixa após caixa,revelavam ter um enorme pedaço de carvão em seu interior.

Inicialmente todos pensaram ser alguma brincadeira de algum dos tios após a noite anterior, alguma pegadinha elaborada para o churrasco que eles iriam fazer de novo aquela tarde. Porém, tanto os pais quanto os tios de Otávio tinham plena certeza que várias das caixas ainda estavam intocadas desde o dia anterior, várias delas ainda embrulhadas com todo capricho  das mãos das tias ali presentes. Não havia como alguém ter aberto para pregar uma pegadinha daquelas.

O pequeno Otávio chorou quando viu que era a única criança ali sem brinquedos na manhã de Natal. Seus pais ficaram sem saber onde enfiar a cara para explicar, ao filho, o que tinha acontecido, pois nem eles mesmos estavam entendendo. Tanto os pais quanto os tios passaram o restante da manhã ligando para as lojas onde haviam comprado os presentes de Otávio, exigindo uma explicação para aquilo tudo, exigindo reembolso. Até tiveram sorte com alguns casos, porém as lojas também não eram capazes de dar qualquer explicação.

Mais tarde, um dos primos que estava zombando dele mais cedo, justamente o filho daquele tio chato, resolveu continuar tirando com a cara de Otávio:

– Meu pai disse que você ganhou carvão porque é o que o Papai Noel dá pros meninos malvados. Disse que você mereceu por acordar todo mundo à noite!

O natural seria Otávio se sentir mal ouvindo aquilo, mas a fala fez ele arregalar os olhos e uma luz acender em sua cabeça.

Ele tinha passado o dia inteiro duvidando, pensando se aquilo que tinha visto na noite anterior era um sonho ou realidade. Porém a lembrança do senhor barbudo, antes de sumir, chamando ele de “menino malvado”, era muito clara. Fora que a evidência das caixas de carvão que ele recebeu no dia seguinte era gritante demais para ser só uma coincidência.

A reação seguinte de Otávio foi abrir um enorme sorriso, segurar o primo pelas bochechas, dar um beijo estalado no rosto dele e falar o mais sincero “Obrigado” que ele já tinha dado naquela curta existência.

Otávio contou aos pais o que o priminho lhe disse – o que obviamente rendeu uma briga com o pai dele e uma bronca no priminho – mas depois, após uma longa sequência de anos onde todos os presentes de Otávio viravam carvão na véspera de Natal até nos Natais em que a família passava sozinha em casa, os pais fizeram questão de pedir desculpas aos dois.

Num primeiro momento, o assunto virou tabu na família. Todos sabiam o que tinha acontecido e, naqueles primeiros anos, evitavam falar muito sobre, com medo de magoar o menino. Afinal, o cada vez menos pequeno Otávio ficava muito triste toda vez que recebia as caixas com carvão.

Com o passar do tempo a família se ajustou àquela realidade. Davam os presentes de verdade um ou vários dias antes do Natal, e colocavam presentes falsos para ele debaixo da árvore. Assim os tios e primos que tinham crianças pequenas usavam aquela evidência dos carvões para garantir que seus filhos acreditassem no Papai Noel por mais tempo, o que facilitava chantageá-los para serem bons meninos todo o ano seguinte.

Otávio foi se ajustando àquilo tudo também. Enquanto criança, ficava feliz por ganhar presentes antes de todo mundo e poder se exibir para os priminhos, que ficavam morrendo de inveja. E, no dia do Natal, ele via as caixas de presentes cheias de quinquilharias, que os tios jogariam fora de qualquer jeito, virarem carvão para a família usar nos churrascos.

Acabou que até alguns dos adultos passaram a acreditar em Papai Noel após o ocorrido, e faziam questão de escreverem as próprias cartinhas todo ano. Se ganhariam ou não os presentes, era outra história. O tio desagradável era naturalmente desagradável demais para ter os desejos atendidos. Já o filho dele tinha ficado tão impressionado com o ocorrido que virou um santinho depois, buscando canalizar todas as más tendências que herdou do pai para finalidades positivas. E isso se tornou um problema na casa deles quando a adolescência chegou e ele virou um ativista de meio mundo de causas, a favor do meio ambiente e minorias. Isso era algo que indicava que a mudança não era só performática, o que, particularmente, enfurecia aquele tio conservador.

Aline, a prima debochada, era um caso particularmente engraçado. Depois daquilo, ela sabia que o Papai Noel existia e era particularmente ambiciosa na esperança de ganhar presentes bons no final do ano. Então ela desenvolveu um tique na cara e uma gastrite nervosa, tudo pelo imenso esforço de controlar a língua de chicote durante um ano inteiro. Só libertava o veneno no curto período entre o Natal e o Ano Novo.

Já Otávio passou basicamente pelas fases do luto em relação ao Natal. Primeiro ele ficou em negação, achando que seria só aquele Natal e nada mais, que ele poderia ser um bom menino e voltar a ganhar presentes caso se comportasse bem. Mesmo assim, quando os carvões chegavam, ele sempre tentava, em vão, lembrar o que poderia ter feito de errado naquele ano.

Depois veio a raiva, o que coincidiu com o começo da adolescência, quando a bagunça hormonal o deixava biologicamente programado a odiar todo mundo. Ele se tornou um “mau menino”, usando os carvões como evidência de que ele era “muito causador” e como argumento para não ceder aos pedidos e às chantagens parentais quando citavam o bom velhinho como argumento. Isso acabou logo, quando os pais se revoltaram e falaram que se continuasse daquele jeito não só o Papai Noel, mas a família inteira seria avisada para dar carvões a ele.

Depois veio a barganha. Ele tentou por vários e longos anos ser exemplar, se juntou, nas causas sociais, ao primo que ganhava presentes todos os anos. Tavinho se esforçava para ser até melhor que o primo, mas logo percebeu que havia uma diferença gritante na atuação dos dois: o primo tinha entrado de corpo e alma naquilo, às vezes até pedindo presentes que ele daria mais tarde a outras pessoas em vez de aproveitar para si mesmo. Já Otávio estava fazendo mais por performance, para ter certeza que ganharia um presente para si mesmo no final daquilo tudo. O primo tinha motivações altruístas, já Otávio tinha motivações egoístas. Então, quando processou essa informação, ele se convenceu de que nada de bom que ele fizesse iria adiantar. Ele era alguém corrompido por dentro, portanto jamais iria ganhar presentes do Papai Noel.

Quando essa ideia veio à sua mente, veio junto a depressão, coincidentemente na mesma época em que Otávio tinha estava descobrindo a própria homossexualidade e tendo muita dificuldade para lidar com aquilo. Ele se convenceu que estava quebrado de alguma forma, e que, diferente de quando era adolescente e queria pagar de malzão, ele realmente tinha algum mal intrínseco a ele. Talvez até a própria homossexualidade fosse o motivo dele ser um mau menino. Ele se trancou no quarto por longas semanas, ficava no escuro mexendo na internet e buscando coisas para se distrair, apenas para o tempo passar mais rápido.

Durante essa depressão, e por passar muito tempo na internet buscando como deixar de ser gay, ainda na esperança de virar um “bom menino”, ele acabou cruzando com fóruns que falavam, de maneira ruim, sobre a “cultura gay”. Lá ele descobriu que havia um tipo muito específico de homens que faziam o coração dele bater mais forte: os ursos.

Urso, para quem não sabe, é como a comunidade gay chama uma enorme variedade de homens gordos e peludos.

Isso apitou algo na mente dele e ele foi procurar mais sobre eles na internet. E para seu horror, Otávio descobriu que não eram quaisquer ursos que faziam o tipo dele, mas sim ursos grisalhos. Homens mais velhos, gordos, peludos e geralmente barbudos.

Após muita luta interna e muita terapia, veio a aceitação: Otávio teve que aceitar não apenas que era gay, mas que a sexualidade dele o tinha condenado a se interessar por homens que se pareciam fisicamente com o Papai Noel. Isso era algo com que ele teria de lidar pelo resto da vida.

A terapia também teve outro efeito. Ele descobriu que estava tudo bem ser um pouco egoísta, porque todo mundo era um pouco. Afinal é de querer algo para si que surge a motivação dos desejos. Mesmo que fosse querer para si a felicidade de ver o sorriso de outra pessoa, como seu primo fazia.

Otávio enfim pôde se perdoar, e voltou a viver. Teve sua cota de relacionamentos, voltou a agir como uma pessoa comum e ordinária agiria. Começou a errar e acertar por vontade própria e não para agradar ou desagradar uma entidade mitológica misturada com tradição cristã.

Vira e mexe algum de seus namorados se fantasiava de Papai Noel nos Natais da família, para agradar as crianças e criar boas lembranças. Algo que às vezes deixava primos e tios de cabelo em pé, com medo de isso influenciar as crianças mais tarde, já que elas facilmente associariam que o Papai Noel daquelas noites era o mesmo homem com que o titio andava de mãos dadas e beijava nas outras festas da família. E não adiantava nem mesmo o próprio Otávio avisar que aquele não era o Papai Noel de verdade.

Ainda assim, mesmo depois das coisas ficarem em ordem, Otávio ainda recebia carvões todo ano. E isso deixava ele vagamente inconformado, no fundo de sua mente, se perguntando o que ainda estava errado.

O tio desagradável, em determinado Natal, zombou dele:

— Olha, acho que a culpa é sua! Papai Noel é baseado num santo cristão, e você é bicha, o que é pecado. E ainda por cima, parece que só procura namorado no mesmo lugar que as agências de modelos procuram Papais Noéis de shopping. Não sei ele, mas eu ficaria muito ofendido com isso!

A prima da língua de chicote estava próxima, abrindo a própria caixa de presentes. Quando ouviu aquilo, a cara dela se torceu num tique pelo esforço de controlar a língua, mas ela logo lembrou que os presentes dela já estavam abertos, então o veneno se libertou com a energia acumulada de um ano inteiro:

— Só é engraçado, tio Jorge, que seu filho, que vive num trisal com uma moça trans e um “todes”, tá ali no canto, pleníssimo com os presentes dele e dos amores dele. Já você tem que disfarçar seu carvão no meio dos do Otávio, para ninguém reparar que você também ganhou um, não é mesmo? Porque será que você ganha um todo ano? Será que é porque não aceita o seu filho? Ou será que é porque você é um baita escroto desde sempre? Ou é porque você mete chifre direto na tia Eulália, com as travestis lá do Centro, e depois fica falando mal da coitada da Tyfanny e do Olyve, quando seu filho traz eles para conhecer a família? 

Conforme a prima ia falando o rosto do tio passou de vermelho de raiva, para branco de pavor, depois roxo, azul, vermelho de novo, verde…

— Os dois são tão amorzinhos que nem eu, com essa minha língua ferina, tenho alguma coisa para falar mal deles! Mas você enche a boca para falar mal deles sempre que pode, só porque eles são trans. Tudo para fingir que não contrata direto as travas do centro para elas comerem esse seu…

Nesse ponto Otávio interviu:

— Prima! Obrigado! Valeu! Já provou seu ponto!

O tio ficou tão sem rumo que saiu bufando, absurdamente contrariado, meio para não agredir, meio para deixar de receber tantas porradas verbais.

— Véio escroto do caramba! É todo errado e se acha no direito de ficar julgando os outros! MEUS VIADOS NÃO, SUA MARICONA!

Otávio abriu outra caixa de presente, de forma quase mecânica, para retirar outro carvão pro churrasco, e soltou um suspiro leve de quem já estava conformado:

— Eu só queria entender por que eu ainda recebo isso.

— É porque você é um menino malvado também, Otávio. Óbvio! – A prima respondeu, mas ficou claro que era só deboche. Ela reparou que ele estava perguntando aquilo de verdade e ficou séria. – Ah, vai saber.

— E olha que eu já tentei de tudo, Aline. Já fui bom, já fui neutro, já fui mal… Já comecei a fazer as coisas sem o desejo de querer algo por trás das minhas ações… Ainda assim esses carvões não param.

— Otávio, se você parar para pensar, naquela noite você quase expôs ele para toda a família. Às vezes você está sendo punido não porque você é um “menino malvado” por ações que você fez nesse ano, mas sim porque você ofendeu o Noel de um jeito muito particular.

— Oxe, e o que eu faço em relação a isso? Eu tinha acho que cinco anos quando aconteceu.

— Sim, mas ele é tipo… Um ser imortal! Às vezes o tempo passa diferente para ele. Você disse que já tentou de tudo, mas você já tentou se desculpar?

— Não…

— Pois então. – ela disse, dando de ombros.

E realmente, Otávio tinha tentado muita coisa, mas isso não.

No ano seguinte ele voltou a se apaixonar pelo Natal, agora não na expectativa de ganhar presentes, mas sim de enfim conseguir se desculpar com o Papai Noel. Se a “maldição dos carvões” parasse ou se ele começasse a ganhar presentes seria um bônus, mas não era o foco dele.

E assim ele tentou. E por um longo tempo, nada tinha dado certo.


Naquele último ano, ele tinha se conformado de talvez nunca conseguir. Mesmo assim ele ainda mantinha viva a esperança de se desculpar com o “bom velhinho”, que já tinha sido tão malvado com ele. O homem que era a razão dos maus humores dele, no trabalho, após o Natal de cada ano. Ele estava para lá de frustrado por não conseguir de novo, após uma vida inteira de tentativas.

Após o fim de um relacionamento complicado, Otávio tinha ficado solteiro aquele ano todo.  Ele acabou por direcionar para o trabalho, e quem precisasse dele, toda a energia que antes gastava tentando caber nas restrições do antigo namorado.

No dia 1º de dezembro ele decidiu fazer uma última tentativa. Escreveu uma cartinha onde relatou tudo que tinha passado até ali, que não guardava rancor do Papai Noel, mas que queria passar uma noite com ele. Contou o quanto queria que se encontrarem novamente, para conseguir se explicar direito e se desculpar adequadamente. Afinal, sabia que o bom velhinho ainda visitava ele todos os anos para transformar os presentes em carvão. Não custaria nada parar para conversar como havia feito, mesmo a contragosto, da primeira vez.

No final, deixou um pouquinho de amargor escapar e escreveu. “Por favor faça isso, passe uma noite comigo para podermos acertar as coisas. Ou pelo menos me dê carvão o suficiente para eu vender e compensar o tanto que já gastei em terapia com tudo isso.”

Otávio decidiu postar a cartinha no caminho de volta do trabalho e, antes de botar numa caixa de correio que achou no centro da cidade, ele percebeu que não conseguia se lembrar para qual endereço tinha enviado as cartinhas nos anos anteriores. Se perguntou, pela primeira vez em anos, para onde mandaria, mas nada veio à sua mente. Então decidiu colocar, no envelope, apenas “Para Papai Noel”. No pior dos casos algum funcionário dos correios acharia que ele era louco e ficaria por isso mesmo.

Na véspera de Natal, ele não conseguiu se juntar à família. Tinha tido um problema na empresa e não teria o feriado liberado. Chegou tarde em casa, absurdamente cansado e, num último ato de esperança, dormiu no pé da árvore, que nem quando era criança, olhando o único e solitário presente que ele mesmo havia colocado ali, quase que apenas para enfeite. Se desse errado, a família ainda teria os carvões no churrasco do dia seguinte, como havia sido nas vezes que ele não pôde participar do Natal no sítio por qualquer motivo.

O sono veio quase de imediato e Otávio teve um sonho meio doido.

Começou no escritório, com ele na mesa terminando a tarefa. Porque trabalhar demais às vezes dá isso: sua mente continua trabalhando mesmo depois que você parou. Depois, num piscar de olhos, ele estava numa rua escura do centro da cidade. O tio desagradável dele estava lá, vestindo uma camisa branca, uma peruca loira e uma saia minúscula. Otávio perguntou o que o tio estava fazendo e o tio apenas respondeu “uma investigação!”, antes de ser lambido logo em seguida por uma língua, que estalou como um chicote no ar. Era a prima dele, vestida como Indiana Jones e montando Rudolf, a rena do nariz vermelho, girando no ar uma versão enorme da própria língua, como se fosse uma corda de vaqueiro:

— MEUS VIADOS NÃO, SUA MARICONA! – ela disse, fazendo a rena perseguir o tio, que fugiu num salto 15 vermelho, babadeiríssimo. – AQUI É POLICIAL MONTADA, QUIRIDA! – E sumiram rua afora, com a língua dela estalando no ar.

Ali Otávio soube que estava num sonho lúcido, então decidiu sonhar com o Papai Noel que ele tanto esperou.

Quando ele piscou de novo, estava deitado no chão do apartamento. O Papai Noel verde de sua infância estava ali, de pé, com uma mão em seu ombro, olhando com olhos atentos. Não tinha envelhecido nem um segundo a mais em relação à vez que o viu na infância. Por um longo intervalo, Otávio encarou aquele rosto, então soltou a primeira coisa que lhe veio em mente:

— Até hoje eu não entendi porque essa sua roupa era verde.

— Ela sempre foi verde, às vezes um verde meio alaranjado até. Só ficou vermelha depois da campanha da Coca Cola.

— Acho que se fosse vermelha eu não teria chamado minha mãe naquela noite. Assim eu não teria passado por tudo isso. Me desculpe pela dor de cabeça que eu te causei, mas você pegou meio pesado no castigo para algo que eu fiz quando tinha uns 5 anos.

— É, você tinha entrado na minha lista negra. A última vez que me deixaram tão bravo assim foi no Concílio de Nicéia.

— O que você fez, tacou carvão na cabeça de alguém?

— Não, meti um tapa na cara de um bispo que blasfemou contra Cristo.

— Que agressivo, vindo do “bom velhinho”!

— É porque você não viu o que ele ganhou de Natal depois disso.

— Acho que faço ideia…

Otávio então decidiu aproveitar o sonho lúcido para perguntar tudo o que vinha à sua mente sobre o Papai Noel. Descobriu que o nome dele era Nicolau, mas que tinha tanta gente que o chamava de tantos jeitos que ele nem se importava mais. Descobriu o segredo para entregar tantos presentes numa noite: magia, tecnologia, o advento dos fusos horários e a condicionalidade de que só pessoas que acreditassem nele receberiam. Confirmou que o endereço correto era a Lapônia e não o Polo Norte e, no final, perguntou das roupas pesadas, pois o Papai Noel – ou melhor, Nicolau – deveria estar derretendo no calor do Brasil vestido daquele jeito.

— Na verdade, estou sim, obrigado por se importar. – ele respondeu com as bochechas vermelhas, tirando a blusa grossa, revelando uma camisa branca começando a ficar com pizzas de suor e, em seguida, o gorro e mostrando a cabeça calva com apenas um tufinho de cabelo no topo. Otávio soltou uma risadinha quando viu.

— Minha imaginação é tão clichê, você parece aquelas versões do Papai Noel de ilustrações antigas da Coca Cola.

— Sua imaginação?

— Sim, eu poderia estar te imaginando musculoso, com uma roupa diferente, vestido com um harness que nem aqueles Gogo Bears da Ursound… mas você, no final, parece aqueles Papais Noéis tradicionais, de olhos claros e barba com cachinhos. Só faltou eu sentar no seu colo e sussurrar o que eu quero no seu ouvido, pra ganhar um mimo depois, aí seria o clichê completo.

— Bem… Você pode. Se quiser.

Otávio virou a cabeça e decidiu que ia fazer mesmo: o sonho era dele, oras! Se levantou do chão e sentou no colo do Papai Noel de sua infância, perguntando com empolgação:

— Posso pedir qualquer coisa?

— Qualquer coisa! – O Papai Noel assegurou, com um sorriso bondoso.

— Bem, não é sempre que eu tenho um sonho lúcido, e você é literalmente meu tipo, então… vou aproveitar que minha carta falava para passar uma noite… e vou pedir para você passar uma noite comigo, no sentido bíblico da coisa.

Otávio falou com uma tranquilidade que só alguém que sabe que está sonhando poderia ter. O velhinho perguntou confuso.

— No sentido bíblico?

— Sim, carnalmente, sabe? Isso se não for dar problema com a Mamãe Noel ou coisa do tipo.

— Bem, não daria. Eu nunca me casei. Até teve outro São Nicolau que casou e teve filhos, mas não era eu.

Otávio se lembrou das palavras homofóbicas do tio e decidiu perguntar:

— É pecado eu estar te querendo? Tipo, sendo um homem?

— Não… Pelo menos na minha época não era. Isso é coisa que meteram na Bíblia bem depois do meu tempo. Nem faz sentido perguntar isso para mim que rodo o mundo com um monte de veadinho todos ano.

— E fazer amor com um santo? É pecado?

Otávio perguntou já se aproximando. Nicolau respondeu com um sorrisinho maroto:

— Na verdade não. Dizem até que pode ser algo divino para quem tem essa sorte.

Otávio riu:

— Então eu quero! Aceito os termos e condições.

— Ora, não é como se eu não estivesse te devendo uma vida inteira de presentes…

Otávio não estava acostumado a ter sonhos eróticos, mas aquele acabou sendo bem vívido e intenso. Ele deixou sua mente viajar e explorar em detalhes tudo que faria e deixaria de fazer com um coroa bonitão como aquele. A última coisa que ele ainda teve lembrança, antes da lucidez do sonho se esvair, foi de sua mente ficando vagarosa e branca, e depois ele acordando com um raio de sol entrando pela janela, direto em sua cara. Ele sorriu ao se lembrar do sonho que teve e lamentou profundamente aquilo não ser verdade. Ficou aproveitando a preguiça naquele colchãozinho, no chão, até que ficou consciente o bastante para notar, ao seu lado, o celular vibrando como louco. Ele achou que era o despertador, mas quando desbloqueou reparou que era uma quantidade enorme de mensagens, vindas tanto individualmente quanto no grupo de família.

As mais antigas, enviadas à meia noite, eram gifs e outras imagens de Natal, das tias, tios e primos, com muitas variações de “Feliz Natal”.

Conforme ele ia subindo, a primeira mensagem diferente que ele viu foi da prima Aline, a de língua afiada.

“VIADO DO CÉU! Jura que deu certo pedir desculpas? O que você fez? A gente acordou hoje e o único carvão que tinha era o do tio Jorge! Tá geral aqui em polvorosa, estava todo mundo contando com os seus carvões pra usar no churrasco, mas agora não tem nenhum lugar aberto que vende carvão porque é feriado!”

As outras mensagens dos familiares eram perguntando do carvão em tons que passavam entre a piada, à confusão e a contrariedade. Depois perguntavam se ele conhecia algum lugar para comprar, se tinha como dar uma passada em algum mercado ou posto de gasolina e levar para eles. Depois vinha a mensagem do tio escroto culpando Otávio por atrapalhar o churrasco da família, xingando ele porque, sem o carvão do sobrinho para camuflar o dele, ele que virou o alvo da vez.

Otávio começou a ler tudo aquilo desacreditando, mas depois veio a quantidade enorme de evidências: os vídeos no grupo de família com os pais sem ter como explicar pros filhos pequenos que não tinha carvão aquele ano, a mudança súbita de tom das mensagens da família, da noite para o dia, os próprios pais perguntando o que fazer com as coisas velhas das caixas de presentes. Então ele começou a aceitar que aquela parte do sonho não tinha sido um sonho. O que significava que o Papai Noel, o VERDADEIRO Papai Noel tinha passado a noite com ele.

Pior: se era verdade, então o verdadeiro Papai Noel tinha, biblicamente, passado a noite com ele.

O rosto de Otávio ardeu quando essa compreensão caiu na sua cabeça como uma bigorna. Ele enfiou a cara no travesseiro dando gritinhos e esperneando que nem uma garota adolescente tendo faniquitos.

Quando se recuperou disso tudo, ele começou a se levantar e aí reparou a caixa de presentes que ele havia deixado debaixo da própria árvore de Natal. O coração deu uma acelerada conforme a mão dele se aproximava para pegá-la.

Quando pegou a caixa ele decidiu dar uma balançada e parecia ter algo lá dentro, mas com o exato mesmo peso da coisa que ele havia colocado anteriormente.

Por um momento, ele desanimou. Talvez o Papai Noel só não tinha levado carvões no sítio por ele não estar lá. Ou a parte do “encontro bíblico” tinha sido o sonho e o resto – o pedido de desculpas, os dois se acertando – tinha sido verdade.

Então ele abriu a caixa.

Quando olhou para dentro havia um pequeno diamante, ali ao lado de uma cartinha:

“Aqui está uma quantidade de carvão suficiente para te compensar pelos anos de terapia. E um lembrete para você saber que  não estava sonhando.
Se comporte direito ano que vem, se quiser receber mais presentes. Se bem que quem recebeu o presente fui eu esta noite. Foi divino!
Um Feliz Natal!
Do seu querido,
Nicolau”

Quando Otávio enfim chegou no escritório, os colegas de trabalho estavam preparados para o bom e velho Otávio carrancudo de todo final de ano. Ficaram espantados quando quem entrou foi uma nova versão do Otávio, que parecia aérea ao ponto de estar desatento e quase flutuar, emanando felicidade por onde andava.

Nunca mais aquela versão carrancuda de Otávio se manifestou em lugar nenhum. Muito pelo contrário! E a família dele, pela primeira vez em décadas, teve que descobrir onde que se vende carvão para as festas de fim de ano.

A única que ficou sabendo de tudo que aconteceu naquela noite foi Aline. Sim, a prima da língua afiada! Só que agora, em vez de tiques na cara, ela sempre manifesta um sorrisinho maroto quando Otávio diz que vai passar o Natal sozinho, para ganhar presentes direto do saco do Papai Noel.

Nessas ocasiões ela não segura a língua afiada e sempre conclui, sem ninguém da família notar o deboche:

— Não se preocupem, não, gente! É certeza que o Otávio vai ter uma baita de uma noite feliz!

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