“Sorria” e “Sorria 2” conta a história de uma entidade maligna que muda de forma e persegue suas vítimas, revivendo seus traumas. Outro colunista, o Marcos Vinícios, já retratou esse filme com sua perspectiva sobre o filme aqui. Recomendo muito ler ele para começar a refletir sobre o filme. Eu vou complementar a percepção dele agora, pensando em como o filme pode nos ajudar a entender como vivemos nossos traumas e como na verdade eles podem ser “transmissíveis” dentro da sociedade. Antes de tudo, os alertas: Vai ter spoilers, então recomendo que assista antes de ler. Outro alerta é que o texto vai envolver alguns gatilhos, principalmente relacionados a suicídio e abuso de drogas.
Antes de tudo, vamos relembrar alguns pontos sobre os filmes. Em ambos, temos duas protagonistas muito diferentes uma da outra. No primeiro, temos a psiquiatra Rose, uma mulher reservada que, em um de seus atendimentos, vivencia o trauma de ter uma paciente se matando na sua frente. Já no segundo, temos a pop star Skye, que está retornando para sua carreira após anos afastada por causa de um acidente que ela passou e vivencia o trauma de ver seu traficante se matando na sua frente. E é neste ponto que as duas têm em comum: passam por traumas que as perseguem, personalizado pela entidade do filme.
Durante a história, ambas passam a acreditar que estão perdendo a sanidade, já que acontecimentos estranhos passam a acontecer, que inclui lapsos de memória, confusões nos acontecimentos e pessoas sorrindo para elas de forma assustadora, o que dá o nome do filme. Esses acontecimentos cada vez mais se ligam aos traumas antigos das protagonistas. Rose passa a encarar seus relacionamentos conturbados com sua família e com sua culpa por não ter ajudado sua mãe na infância, já que queria que seu sofrimento acabasse. Skye passa a enfrentar a sua culpa em relação ao acidente que ela sofreu junto com seu parceiro, no qual ambos estavam drogados e ele morreu, assim como sua relação difícil com a sua carreira e, principalmente, com a mãe, que a pressionavam para ser perfeita.
A partir desses pontos, podemos traçar um padrão. Alguma situação externa na histórias das personagens geraram traumas nelas, que levaram elas a tomarem atitudes destrutivas, gerando culpa em ambas. Esse processo voltou à tona ao experienciar um novo trauma e que piorou até resultar em suas mortes, que foram traumáticas para outras pessoas.
Infelizmente, esse ciclo é vivido por muitas pessoas em nossa sociedade. Uma criança que sofreu violência física e psicológica na infância e passa a sofrer mais pressão em seu ambiente de trabalho, acaba se tornando um pai tão violento quanto o ambiente que viveu. Uma pessoa que foi deixada de lado desde o nascimento, acaba se tornando um adulto com medo de abandono, sobrecarregando todos em volta. E essas pessoas passam de vítimas para causadoras de traumas, às vezes sem nem perceber o que ela está fazendo
A gente, muitas vezes sem perceber, acaba repetindo de alguma forma aqueles traumas que vivemos. Às vezes, essa reprodução é uma tentativa inconsciente de conseguir um resultado diferente, uma forma de tentar ter certeza se aquela situação sempre vai ser ruim – como quem acaba se relacionando com pessoas parecidas, apesar de sempre ter um final ruim. Outras vezes, é uma tentativa de fugir do lugar de vítima, estando no papel do agressor – geralmente com um discurso que “justifica” a violência. E agora chegamos no ponto que está no título, uma pessoa traumatizada, nesse mecanismo, pode transmitir seus traumas a quem ela tem convivência. Isso se torna um ciclo de violência e sofrimento, assim como os filmes apresentam em suas tramas.
Para finalizar, trarei uma última questão: Se o trauma é algo transmissível, como fica a responsabilidade de quem agride outra pessoa? Estar repetindo um trauma que ele viveu isenta ele de culpa pelo que ele faz? Essa pergunta é inevitável a partir do que foi discutido. Mas entender o mecanismo por trás de violências não retira a culpa do responsável. Nós não controlamos o que ocorre no mundo, é difícil até controlar nossos sentimentos e ações, mas nós precisamos nos responsabilizar por aquilo que temos controle. Cada um precisa encontrar formas de lidar com seus traumas. Não é uma tarefa fácil e, muitas vezes, precisamos de ajuda, mas é um processo que devemos fazer. Então nada de aceitar gente que justifique suas ações com seus traumas, mesmo que de fato esses traumas tenham relação.