“Nunca se deve brincar com as palavras.”
Esta foi a primeira frase que escrevi com o objetivo claro de produzir um texto literário.
Dela nasceu meu primeiro conto: O Coronel Amâncio e a Desgraça. Mais tarde, essa história se tornaria uma das dez que compõem meu primeiro livro de contos publicado pela Pró-Diversidade.
Sempre fui um grande amante da leitura. Meus pais liam muito. Às vezes eu via meu pai com um livro de Sherlock Holmes nas mãos. Em outras, minha mãe se esforçando para pronunciar os nomes ingleses quase impronunciáveis das obras de Agatha Christie.
Da escola guardo uma lembrança muito especial da Coleção Vaga-Lume: Spharion, O Menino de Asas, O Escaravelho do Diabo, O Mistério do Cinco Estrelas… Esse tipo de leitura prendia completamente minha atenção. O clima de mistério, aventura e sobrenatural que preenchia aquelas páginas me transportava para um mundo muito diferente daquele em que eu vivia: o de uma criança tímida, introspectiva e insegura que somente aos cinquenta e quatro anos descobriria que não era o estranho da turma, mas apenas um autista.
Dos livros indicados pela escola passei para aqueles que eu mesmo escolhia. Lembro-me de ir a pé — sim, porque naquele tempo as crianças andavam sozinhas pela cidade, sem precisar de companhia ou proteção; eram outros tempos — até a biblioteca municipal para retirar livros das estantes empoeiradas. Na ficha preparada pela bibliotecária, eu via, com orgulho, a sequência de datas carimbadas testemunhando minha pequena façanha como leitor.
O tempo passou. A vida seguiu em frente. Vieram os reveses, as descobertas, os encontros e também os desencontros. Mas os livros jamais se afastaram das minhas mãos.
Ao mesmo tempo em que lia Stephen King, Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, André Vianco e tantos outros, entregava-me também a uma experiência quase sensorial: percorrer os olhos pelas palavras, sentir o perfume inconfundível das páginas impressas e deslizar os dedos sobre a aspereza do papel reunido em um único volume.
Ainda me lembro da satisfação que senti ao terminar meu primeiro livro com mais de trezentas páginas. Senti-me grande. Importante. Adulto.
Foi com os livros que construí mundos dentro de mim. Conheci lugares onde jamais pisaria. Experimentei sentimentos que desconhecia. Ouvi fadas conversando, monstros correndo e presenciei tantas outras coisas escondidas em histórias que me permitiam viver outras vidas e, de certa forma, outras versões de mim mesmo.
A cada livro, a cada conto, a cada história, crescia também o desejo de ir além. Eu queria deixar de ser apenas espectador para me tornar autor de cada frase, de cada sentimento, de cada alegria e de cada dor dos personagens que habitavam tantos mundos. Já não bastava virar as páginas de um livro; eu queria preenchê-las com histórias que despertassem medo, suspense, encantamento.
Mas eu me sentia como Davi diante de Golias quando imaginava começar a escrever.
Tentei inúmeras vezes. Lembro-me sentado diante de uma máquina de datilografar e, mais tarde, diante da tela de um computador, tentando encontrar um começo. Descobrir como puxar o fio de uma história, construir personagens, criar cenários e conduzir uma narrativa até um clímax capaz de provocar no leitor um sorriso, espanto, tristeza ou qualquer outro sentimento — os mesmos que eu experimentava lendo meus autores favoritos.
Mas eu sempre desistia. Sentia-me incapaz. Talvez porque, em minha ingenuidade, acreditasse que precisava escrever como os meus ídolos da literatura. Ou talvez porque temesse a opinião alheia. Não sei dizer.
As histórias estavam todas na minha cabeça. Às vezes, até os diálogos. Eu conhecia os problemas que meus personagens enfrentariam e até as maneiras pelas quais conseguiriam escapar deles.
Ao mesmo tempo, porém, eu sabia que, quando começasse, teria de terminar, porque nunca se deve brincar com as palavras. Uma história iniciada exige um fim. Não existe suicídio literário sem consequências. Não se abandona uma história pela metade. Não se suspendem as vidas daqueles que criamos em nossa imaginação.
Foi assim, entre leituras, sonhos e hesitações, que cheguei ao que talvez possa chamar de amadurecimento. E, graças ao incentivo de algumas pessoas e a um empurrãozinho decisivo, encontrei coragem.
Escrevi um conto. Depois outro. Depois mais um. Até chegar a dez histórias reunidas em meu primeiro livro. Depois, porque essa sempre foi minha natureza, veio um romance. Vieram ainda novos contos publicados em antologias de diversas editoras independentes.
Hoje, quando leio aquilo que escrevi, sinto uma empolgação muito parecida com a que experimento ao ler outros autores. Não porque pretenda me comparar a eles — longe disso. Mas porque encontro nessas histórias algo que também me envolve, me emociona e me faz querer continuar escrevendo.
Por isso, nunca se deve brincar com as palavras. Elas transformam não apenas quem as lê, mas também quem lhes dá vida. Em cada frase escrita existe sempre um pouco do autor escondido em seus personagens, assim como existe um pouco de cada personagem escondido em seu autor.
Hoje entendo o que sente um escritor quando alguém comenta sua obra. Não estão falando apenas de personagens fictícios.
Estão, de alguma forma, falando dele também.
“É sobre esse caminho — de leitor a escritor — que pretendo conversar com vocês nesta coluna.”
Foto de capa seymasungr
Respostas de 2
Eu simplesmente amo seus contos! ❤️
Alexandre vc não imagina como é importante este feedback de vcs leitores. Afinal, o que o autor mais deseja e espera é a reação de seus leitores!