Higurashi no Naku Koro Ni e a força popular

Japão, Vila de Hinamizawa, 1983

Maebara Keichii é um jovem que mudou recentemente para a vila após uma turbulenta fase vivendo na cidade e agora vive dias felizes com seu grupo de amigas composto por Ryuguu Rena, uma jovem que ama coisas fofas, Sonozaki Mion, a próxima líder de de Hinamizawa e que age como líder e se denomina como “Tiozão”, Houjou Satoko e Furude Rika, duas jovens que moram juntas sendo Rika a líder religiosa da vila e reencarnação do deus guardião Oyashiro-Sama e Satoko uma moleca que adora pregar peças com suas armadilhas. Os dias felizes começam a ver um fim quando Keichii descobre sobre a história local de um passado não tão distante e uma série de mortes que ocorrem todos os anos na mesma data. Esse é o início de um turbilhão de loucura, mortes e mistérios.

Hoje eu vou dedicar meu texto a uma de minhas obras favoritas, estou falando de Higurashi no Naku Koro Ni. Criado como uma Visual Novel, um tipo de jogo em que você lê e alguns casos pode fazer escolhas, não demorou para a obra ganhar um anime no ano de 2006. Dividido em duas temporadas, com alguns OVAS, a obra fez sucesso o suficiente para ganhar uma continuação asquerosa e nojenta intitulada de Higurashi no Naku Koro Ni Gou, essa não existe, por isso não assista. Hahahahahaha

Higurashi tem uma estrutura singular para contar sua história. Ela se divide em capítulos que conta basicamente a mesma história, mas com grandes diferenças em como ela decorre. Nos primeiros quatro arcos temos o que chamamos de capítulos “Questão”. Não existe o que entender aqui, essa é a entrada e tudo o que vai restar são as perguntas sobre tudo o que aconteceu em cada um deles. Os outros quatro capítulos, os capítulos “Resposta” irão complementar os outros e trarão o desfecho da história. É uma história com muitas reviravoltas e mistérios, mas que fecha boa parte das pontas de seu roteiro.

O prazer que tive ao ver o anime, mesmo com uma animação pavorosa, foi tão grande que até hoje eu o tenho como uma obra muito estimada e que considero muito bem-feita. Revisitei o verão de 1983 em Hinamizawa mais uma vez nos últimos tempos via o mangá e qual foi a minha surpresa ao ver como a história continua excelente mesmo depois de tantos anos. É uma obra que sem dúvida alguma eu vou levar para sempre comigo com a mais alta estima. Eu geralmente tento não inserir review nos meus textos, mas com essa obra eu simplesmente não consigo, eu adoro demais e recomendo muito mesmo. Vou tentar evitar usar spoilers muito grandes, mas ainda assim terão alguns, então deixo o aviso aqui.

Essa revisita a Hinamizawa foi um prazer ainda maior porque algumas interpretações muito importantes passaram batido e hoje eu pude ver que Higurashi faz parte da pessoa que me tornei hoje. Sendo direto e reto, Higurashi tem um comentário muito bom sobre revolução popular. Em vários momentos da história vemos uma classe desfavorecida pressionando as classes acima até obter o poder de quebrar o status quo e quando essa mesma classe tenta fazer por si só acaba não só fracassando como levando muitos outros da mesma classe a morte por conta disso.

Em meio a história entendemos que uma força maior cria um looping e por isso o verão de 1983 se repete eternamente. A figura central desses loopings, Furude Rika, já não sabe mais o que fazer para sair dessa situação de maneira feliz, ou seja, com ela e seus amigos vivos. É em um dos capítulos respostas que pela primeira vez Keichii quebra a lógica e mostra para Rika que a única forma de sair daquela situação é com a união de TODOS. Juntos eles serão capazes de tudo, inclusive de vencer o destino pela primeira vez, quando Keichii consegue deter a tragédia desse looping ao devolver a sanidade para Ryuguu Rena. Ainda que a tragédia tenha sido vencida, o destino volta e novamente reiniciamos e é aqui que Higurashi vai brilhar reluzente em sua mensagem. Rika dessa vez consegue reverter praticamente todas as tragédias que acontecem com seus amigos, mas a pior delas, a que a solução é simplesmente inimaginável sem que alguém enlouqueça aparece diante dela, o arco de Houjou Satoko.

Houjou Satoko perdeu seus pais quando morreram em meio a série de assassinatos misteriosos de Hinamizawa. Após isso ela e seu irmão Satoshi passaram a morar com seus tios que os maltratavam, principalmente a tia com relação a jovem. No ano após a morte de seus pais, dessa vez a morta na série de mortes da vila foi sua tia, mas não só isso, seu irmão também desaparece. O tio foge para a cidade vizinha, mas então ele volta e Satoko volta a morar com ele. Acreditando que se aguentar os maus tratos de seu tio o seu irmão voltará, Satoko se recusa a aceitar ajuda do conselho tutelar e a tragédia será a consequência disso.

É então que Keichii Maebara decide se unir primeiramente ao seu grupo de amigos para pressionar o conselho tutelar. Um grupo de apenas 5 crianças pedindo para o conselho tutelar intervir com mais afinco, pois a garota está definhando mental e fisicamente não adianta de nada, mas Keichii não desiste, ele volta com um grupo maior de crianças da pequena escola que eles estudam, no outro dia volta com grupos de pessoas conhecidas dele e de seus amigos e então decide que para vencer isso somente se o lema de Hinamizawa for posto em prática:

“Se um cidadão de Hinamizawa é atacado, dois irão defendê-lo, se são 4 atacando, 8 irão ajuda-los”

Ou seja, união popular, Hinamizawa é um vilarejo unido e sempre defenderá uns aos outros. O problema é que os pais de Satoko foram a favor de um projeto de uma represa que afundaria a cidade, isso a coloca como uma marginalizada dentro do vilarejo e os líderes da vila não se mostram disposto em ajudar na empreitada de salvar a filha de inimigos da vila. Keichii então relembra do passado, em que a vila INTEIRA (Incluindo crianças que foram presas por baderna nos protestos inclusive) lutou e venceu e que agora um deles estava em perigo e todos precisavam ajudar. A situação parecia perdida, mas Keichii foi resilente e conseguiu convencer e agora TODA a cidade estava lá para pressionar o conselho tutelar. E assim, da união popular, o destino de Satoko foi transformado.

Mas a vida é uma caixa de surpresas e Rika finalmente descobre seu verdadeiro antagonista, que massacra ela e seus amigos e os jogando em um novo ciclo. Mas antes de ele iniciar, descobrimos que uma entidade que acompanha Rika ainda não acreditava na vitória e nesse momento antes do loop voltar é que Keichii e Rena dizem as palavras que mostram que a falta de fé dela na força popular os levou a derrota e que ela, como parte da população do vilarejo, também tem que lutar e acreditar na força da vila, de que unidos eles jamais serão derrotados.

Confesso que lendo no mangá eu até arrepiei com essa fala. Imagina ver uma obra tão interessante que ainda mostra a força do poder popular como o caminho para a vitória de um inimigo muito maior? Acho que ficou ainda mais evidente do motivo de eu gostar tanto dessa obra a ponto de ser uma das favoritas da vida.

Juro que não dei spoiler do final, afinal depois dessa parte temos o último capítulo resposta e a finalização, fora que ocultei muita coisa para manter a experiência de quem um dia quiser ver, tenha essa experiência com o mistério no seu máximo. Acho que a melhor frase para essa review que não é exatamente review é:

Viva o poder popular!

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