Da comunidade ursa até o body positive – A pseudo militância gorda

Alguns muitos anos atrás a internet ficou extremamente popular e acessível. Com isso algumas pessoas passaram a usá-la com intuito de falar não só sobre experiências comuns e banais, como também sobre problemas sociais que enfrentavam por serem quem são. Fosse pessoas LGBTQIA+, fossem pessoas negras, fossem mulheres, as minorias começaram a ocupar o espaço virtual cobrando por suas demandas e informando outros sobre coisas que precisam mudar dentro do seio da sociedade.

Dentro desses movimentos passam a surgir o que eu chamo de “engajados”. O que são essas pessoas? São pessoas que tem um discurso que parece militar, mas na verdade são falas bem senso comum, sem qualquer reivindicação ou busca pela solução. Elas só querem engajamento, o like, a lacrada, a problematização, mas não querem o debate para solução, elas precisam do problema, para sempre engajarem em cima. Essa é uma informação importante, segurem porque vai voltar.

Agora falemos da conhecida, não tão celebre e hoje em dia nem tão fora do padrão assim, comunidade ursa. Aqui eu diria que é o começo do body positive. Para quem não sabe, um pequeno resumo do que é a chamada comunidade ursina. A comunidade ursina nasce de um grupo de homens gays que destoantes dos padrões gays como o corpo mais magro/atlético e poucos ou nenhum pelo, decidem fundar esse movimento que tem como foco homens peludos e gordos ou parrudos (Isso a princípio). Explicado isso, vamos seguir com os motivos pelo qual eu considero, ao menos em nível Brasil, a comunidade ursina e o body positive são pega trouxa (E eu cai, não minto).

Aqui quando falamos tanto de Ursos quanto de BP, o que passam pela cabeça de vocês? Fotos de pessoas gordas descoladas? Roupas para pessoas grandes bonitas? Pessoas gordas em balés da Anitta, ou modelando para grandes marcas? Homens grandes, peludos com estética de lenhador e carinha de europeu? Pois é, já perceberam que não existe nada que tenha impacto social em nível de grupo, mas são todas coisas que meia dúzia de gato pingado vai obter?

Agora para e analisa quando falamos de ditos “militantes” dessas duas causas, quem são as pessoas que vem a sua cabeça? Não é uma galera que faz festa, modelos, produz conteúdo na internet e afins? Ou influencer que escrevem livros e dão pseudo suporte para pessoas gordas? Ou melhor, que enquanto podiam surfar em grana e notabilidade aderiram ao movimento, mas foi só as vacas ficarem magras e a moda passar já são outras pessoas fisicamente? Pois então, isso porque o que recebemos desses movimentos são apenas isso, um espaço não tão seguro para ir e que muitas vezes focam suas fotos e propagada em pessoas de estética europeia e chuta o resto para o canto. Ou lojas que cobram 300/400 reais por um PIJAMA para supostamente sair na rua?

Não acho que isso não tenha seu impacto, veja bem, terão pessoas que vão se beneficiar disso, mas como chamar isso de militância ou de algo positivo se isso é restrito a um pequeno grupo de pessoas dentro do grupo de pessoas gordas? Enquanto isso você vai tentar passar por um hospital e os médicos com uma preguiça enorme dirão que o problema que gera sua dor de ouvido insuportável é porque está gordo e ao passar por um segundo que com dois dedos de boa vontade lhe diz que você tem água no ouvido? Ou quando você quer até fazer um programa de alimentação saudável, mas para isso precisa passar por exames e aparelhos que não lhe atendem por conta do seu peso ou proporções?

Acredito que ser gordo é muito mais do que ser aceito em ambiente de padrão e ter alguém me chamando de lindo, isso meu amor você consegue com dois dedos de esforço na internet mesmo sendo gordo. O problema mesmo é acesso em locais com cadeiras confortáveis, é poder se consultar e receber um tratamento digno e responsável e no caso de buscar emagrecimento ter alternativas que sejam saudáveis não só nas verduras e frutas, mas também na parte de saúde mental. É poder levar uma vida decente sem precisar se humilhar todos os dias, ou ter que consultar vários médicos para só então achar um que faça ao menos o mínimo, e bom, você já viu Ursos ou Body Positive falando disso que não fosse para farmar likes e views? Pois é né.

Foto de Jametlene Reskp na Unsplash

Respostas de 2

  1. Eu achei o texto do Marcos muito interessante por levantar vários pontos que eu também tenho pensado sobre os papéis dos grupos.
    Há no texto uma crítica de como a comunidade ursa e o Body Positive foram “esvaziados” de política real para virar um balcão de negócios e busca por likes
    . Vi nele que uma suposta “militância” se perdeu no “fetiche da imagem” muito ligada a concepções dos países centrais da economia global, ignorando as barreiras materiais que pessoas gordas enfrentam, como o descaso médico e a falta de acessibilidade básica.
    Eu vinha refletindo muito sobre a captura estética e o uso de medicamentos para “afirmar saúde”, mas o seu ponto sobre a negligência hospitalar e a falta de infraestrutura (como exames e cadeiras adequadas) trouxe uma camada de realidade material que eu não tinha explorado tanto. Isso me lembrou muito um discurso que muitas vezes foca no “Eu” individual e esquece das condições reais e históricas que marcam os corpos.
    Essa “pseudo-militância” que você descreve me lembrou um conceito satriano que parte dos estudiosos de grupos chamariam de “serialidade”: uma somatória de indivíduos isolados que, embora tenham objetivos comuns (como likes ou consumo), não formam um grupo real que transforma a sociedade. Para sairmos dessa armadilha do capitalismo, precisaríamos deixar de ser um “grupo-objeto” (que apenas reproduz padrões e consome pijamas caros) para nos tornarmos um “grupo-sujeito”, que percebe as instituições e age politicamente de forma coletiva e consciente.
    Mais uma vez eu parabenizo o texto por provocar essas reflexões em meio a tanto discurso vazio das redes.

    1. Obrigado Didi. Eu gostei de um ponto que você levantou que eu acho que ocorre muito até quando se tenta entender e explicar as causas de minorias que é a coisa focar no “Eu”. A gente tenta explicar que homens são figuras perigosas para as mulheres por conta da violência que elas sofrem, e ai o cara manda um “Mas EU não faço nada disso” ou “Não generaliza” quando estamos falando de homens como grupo social e não uma pessoa isolada. Para quem tem o acesso financeiro, todos os problemas são mais simples de serem sanados, no nosso caso, a classe do proletariado, senão pensarmos as coisas de maneira coletiva, vamos continuar caindo nesses contos do vigários de que vitórias para pessoas gordas são likes e algum padrão achar a gente bonito. E mais uma vez obrigado pelo comentário.

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