Abandono heteronormativo e acolhimento de casais LGBTQIAPN+

A história dos direitos LGBTQIAPN+ no Brasil também é a história da ampliação do conceito de família. Durante grande parte do século XX, o reconhecimento jurídico da família esteve restrito ao modelo heterossexual. Entretanto, decisões judiciais e mudanças sociais ocorridas nas últimas décadas permitiram que milhares de pessoas LGBTQIAPN+ conquistassem direitos fundamentais relacionados ao casamento, à união estável, à adoção e à constituição de famílias baseadas no afeto e na igualdade.

A constituição familiar representa um importante fator de proteção emocional, fortalecimento dos vínculos afetivos e promoção do bem-estar individual e coletivo. Nesse sentido, o reconhecimento das famílias LGBTQIAPN+ contribui para a redução da exclusão social e para a garantia dos direitos humanos fundamentais.

A relevância desse debate torna-se ainda maior quando observamos a situação de crianças e adolescentes em acolhimento institucional. Dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, administrado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), indicam que dezenas de milhares de crianças e adolescentes vivem em instituições de acolhimento no Brasil, aguardando reintegração familiar ou adoção. A ampliação do direito à adoção por casais homoafetivos representa, portanto, uma importante oportunidade de garantir o direito à convivência familiar para muitas dessas crianças.

Rompendo com preconceitos históricos, as adoções por casais homoafetivos registraram um crescimento expressivo superior a duzentos e quarenta por cento em um intervalo recente de cinco anos, passando de setenta e sete registros anuais para mais de duzentas e sessenta crianças acolhidas nesse formato familiar. 

A possibilidade de casamento e união estável trouxe aos casais LGBTQIAPN+ direitos patrimoniais, sucessórios, previdenciários e familiares anteriormente negados. Atualmente, cônjuges do mesmo sexo possuem direito à herança, pensão por morte, inclusão em planos de saúde, declaração conjunta de imposto de renda, licença parental e adoção conjunta, garantias reconhecidas por decisões do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho Nacional de Justiça.

Apesar dos avanços, a constituição e a manutenção das famílias LGBTQIAPN+ ainda enfrentam desafios importantes. A LGBTfobia, a discriminação institucional, os discursos de ódio e a insegurança jurídica provocada por propostas legislativas que buscam restringir direitos conquistados geram preocupações constantes para esses grupos familiares. Além disso, muitos casais continuam enfrentando preconceitos em escolas, serviços de saúde e espaços religiosos.

Logo, a conquista do direito à constituição de famílias por casais LGBTQIAPN+ redesenha o cenário social do país, desafiando a lógica heteronormativa secular. 
 
De acordo com as Estatísticas do Registro Civil divulgadas pelo IBGE, o número de casamentos entre pessoas do mesmo sexo atingiu um recorde histórico no Brasil recente, registrando cerca de 12,2 mil celebrações civis em um único ano, impulsionado majoritariamente pelas uniões femininas e lésbicas, que corresponderam a mais de sessenta por cento desse total. Esse avanço quantitativo reflete uma gradual, embora complexa, validação psicossocial dessas parcerias no espaço público. 
 
No entanto, os desafios na manutenção e no reconhecimento dessas famílias persistem na esfera da convivência comunitária, onde o estigma e a violência sutil operam barreiras psicológicas diárias, exigindo resiliência dos cônjuges na preservação de seus laços afetivos, além do constantes e repetitivos usos dos dispositivos jurídicos para terem acesso a direitos ainda não totalmente garantidos.
 
A psicologia social demonstra que casais LGBTQIAPN+ frequentemente se mostram mais abertos a perfis de adoção preteridos pelos casais heteronormativos, como grupos de irmãos ou crianças mais velhas, desempenhando um papel crucial na desinstitucionalização de jovens. 
 
Juridicamente, o Brasil avançou significativamente por vias pretorianas, fundamentado na histórica decisão do Supremo Tribunal Federal de 2011 e na Resolução número 175 do Conselho Nacional de Justiça, que asseguram o direito ao casamento civil, à comunhão de bens, à previdência social e à herança de forma equânime. 
 
Contudo, a fragilidade desse arcabouço reside no fato de que tais garantias dependem de entendimentos judiciais e resoluções administrativas, e não de leis federais consolidadas pelo Poder Legislativo. 
 
Para garantir a segurança jurídica definitiva e a estabilidade psicossocial dessas famílias, urge a aprovação de projetos de lei no Congresso Nacional que positivados no Código Civil o casamento igualitário, além do Estatuto das Famílias do Século XXI, blindando esses direitos conquistados contra retrocessos políticos e salvaguardando o futuro das próximas gerações.  
 
A experiência brasileira demonstra que a ampliação dos direitos familiares LGBTQIAPN+ não representa apenas uma conquista de um grupo específico, mas um avanço democrático que fortalece os princípios constitucionais da dignidade humana, da igualdade e da proteção integral da família em suas múltiplas formas de existência.
 
Foto de Capa por Kampus Production

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