Mais de uma vez me perguntaram por que escolhi escrever histórias de terror. Afinal, desde que comecei a escrever, meus contos sempre estiveram ligados a esse universo. E meus romances, embora nem todos pertençam diretamente ao gênero, carregam o terror como uma presença constante em suas narrativas.
Confesso que, em diferentes momentos da minha vida, quando ainda ensaiava minhas primeiras tentativas literárias, cheguei a cogitar escrever sobre outros assuntos. Mas nunca consegui levar essas ideias adiante. As histórias simplesmente não fluíam. Por outro lado, quando finalmente dei vazão à imaginação, percebi que minhas narrativas caminhavam naturalmente para o universo da fantasia, do mistério e do sobrenatural.
Acredito que escrever tem muito a ver com o repertório de informações e experiências que acumulamos ao longo da vida. Seja por meio da leitura, do cinema, da televisão, do teatro ou de tantas outras manifestações culturais, vamos construindo um universo particular de referências que, mais tarde, acaba influenciando nossa maneira de criar.
Como sempre fui um leitor ávido de histórias policiais, ficção científica e terror, esses gêneros tornaram-se a base sobre a qual construo minhas narrativas. É como se todas aquelas histórias que li, assisti e imaginei ao longo dos anos tivessem encontrado, finalmente, uma maneira de se manifestar através da minha própria escrita.
Um exemplo bastante concreto do que estou tentando compartilhar com os leitores desta coluna é minha experiência com a literatura gótica.
Sempre alimentei uma grande paixão pelo gótico, sobretudo por sua vertente vitoriana. Obras clássicas como O Castelo de Otranto, de Horace Walpole, Frankenstein, de Mary Shelley, e Drácula, de Bram Stoker, além de autores mais recentes, como Shirley Jackson, Daphne du Maurier e até mesmo Stephen King, em algumas de suas obras, sempre despertaram meu interesse.
O fascínio pelos ambientes sombrios, pelas construções decadentes, pelos segredos familiares, pela morte e pelo sobrenatural sempre exerceu sobre mim uma atração especial. Mas não apenas pela atmosfera de mistério que esses elementos proporcionam. O que mais me interessa é a maneira como o gótico utiliza esses cenários e situações para explorar as angústias, os desejos e as contradições humanas.
Depois de escrever Contos de Portão, publicado aqui pelo Instituto Pró-Diversidade; Sanctus Ostium – A Porta Santa, publicado pela Editora Crypta Books; O Terceiro Nome, pela Editora Palavra & Verso, em fase de editoração; e A Quinta Chaga, original ainda em busca de uma editora, senti necessidade de experimentar uma narrativa construída especificamente sobre os fundamentos do gótico vitoriano.
Foi assim que nasceu A Ponte das Almas, romance que estou publicando em capítulos em duas plataformas literárias, a Substack e a Wattpad.
Em A Quinta Chaga, eu já havia me aventurado pelo gótico moderno. Agora, porém, desejava experimentar uma ambientação vitoriana, compreender suas particularidades e trabalhar com os elementos que marcaram aquela tradição literária: o fascínio pela morte e pelo luto, os ambientes decadentes, os conflitos entre ciência e sobrenatural, as convenções sociais e suas contradições.
Talvez alguns leitores estranhem quando digo que A Ponte das Almas nasceu como um exercício literário.
Mas escrever também é exercitar-se.
Cada página, cada capítulo, cada personagem é resultado de um processo contínuo de reflexão, pesquisa, escolhas e definições. Não se trata simplesmente de lançar palavras sobre uma página, mas de descobrir quais delas correspondem melhor à atmosfera que pretendemos construir. É preciso considerar o período histórico, os costumes, a maneira de falar, de pensar e de se expressar das personagens. E, sobretudo, compreender como todos esses elementos podem contribuir para que uma história adquira vida própria.
No meu caso, experimentar o gótico vitoriano foi também uma maneira de compreender melhor minha relação com o terror. Percebi que, independentemente da época em que uma narrativa se desenvolve, o que me atrai nesse gênero não são apenas seus elementos sobrenaturais, mas as possibilidades que eles oferecem para investigar o comportamento humano.
E aqui retomo a pergunta que deu origem a este artigo.
Algumas pessoas já me perguntaram se não sinto medo ao escrever histórias de terror. Afinal, estou constantemente lidando com a morte, o sangue, os fantasmas, as criaturas monstruosas e situações que provocam apreensão.
Não nego que, em determinados momentos, fico tão imerso na escrita que aquilo que produzo acaba me impactando tanto quanto poderia impactar um leitor. Já houve ocasiões em que precisei interromper o trabalho, afastar-me da narrativa e permitir que a tensão se dissipasse antes de continuar.
Curiosamente, essas experiências nunca me fizeram pensar em abandonar o gênero. Ao contrário, tornaram-se um estímulo a mais.
Isso porque não utilizo o terror apenas para provocar medo, ansiedade ou sustos. Interessa-me, sobretudo, sua capacidade de despertar reflexões e questionamentos. Por meio de uma história sobrenatural, podemos abordar assuntos que, muitas vezes, seriam difíceis de explorar de maneira tão intensa em uma narrativa convencional.
A morte pode nos levar a refletir sobre a perda e o luto. Um fantasma pode representar uma culpa que insiste em sobreviver ao tempo. Uma criatura monstruosa pode revelar os preconceitos de uma sociedade. Uma casa assombrada pode esconder muito mais do que espíritos: pode guardar os segredos, os traumas e as dores de uma família.
É justamente essa possibilidade de trabalhar com diferentes camadas de significado que torna o terror tão fascinante para mim.
Ao contrário do que alguns imaginam, o terror não precisa limitar-se ao susto ou à violência. Ele pode mergulhar profundamente nas questões que afligem o mundo, a sociedade e as relações humanas. Pode falar de solidão, intolerância, fanatismo, culpa, desejo, medo da morte e, principalmente, do desconhecido.
Talvez seja por isso que me apaixonei tanto por esse gênero literário. Porque descobri que, através dele, posso construir histórias que provocam inquietação, mas também convidam à reflexão.
No fundo, acredito que escrevo terror porque ele me permite falar daquilo que existe de mais profundamente humano.
Afinal, nem todos os monstros habitam castelos abandonados, cemitérios esquecidos ou casas assombradas.
Alguns vivem dentro de nós.
À Meia-Noite Levarei Sua Alma é um filme brasileiro de 1964 protagonizado e dirigido por José Mojica Marins, o Zé do Caixão.
Imagem: Zecarlos Artsider/Pinterest