Quando decidi me aventurar por outro estilo literário além dos contos, enfrentei um novo dilema.
Já experimentara os contos e descobrira que era capaz. Mas escrever uma novela ou até mesmo um romance já seria outra história.
E ponha história nisso!
Para quem não sabe, o conto é uma narrativa curta e objetiva. Em geral, tem poucos personagens, um conflito principal e concentra-se em um único episódio ou situação. Ou seja, fica bem mais fácil planejar o começo, o meio e o fim da história.
Já a novela — e aqui não tem nada a ver com os folhetins do horário nobre da tevê brasileira — é um texto de extensão média. Geralmente maior que o conto e menor que o romance, possui uma dinâmica mais ágil e um enredo mais desenvolvido, mas sem necessariamente alcançar a complexidade e a amplitude de um romance. Aqui já se exige uma elaboração mais complexa e um domínio da narrativa sob outra perspectiva.
Quando falamos em romance, temos que ter em mente uma forma narrativa que permite maior extensão e complexidade. Nele cabem vários núcleos de personagens, tramas paralelas ou subtramas e um mergulho profundo na psicologia dos protagonistas, cujas personalidades podem ser construídas em camadas e aprofundadas à medida que a narrativa avança. Ouso dizer, então, que, com ele, cria-se todo um mundo novo.
Tendo isso em mente, resolvi que trilharia o arriscado caminho de um romance.
Demorou um pouco para eu escolher um tema. Sobre o que escrever, afinal?
O primeiro rascunho foi sobre uma história que envolveria um grupo de amigos que sairia para passar um fim de semana isolado do mundo exterior. Durante aqueles dias, que a princípio deveriam ser de descanso e curtição, fatos sobrenaturais mudariam toda a dinâmica de convivência entre eles.
Cheguei a me sentar diante do computador e rascunhar algumas páginas. Ainda as tenho guardadas no drive. Eu estava realmente disposto a levar aquele argumento adiante, mesmo ele me parecendo um tanto “lugar-comum”. Afinal, quantas histórias já não foram escritas sobre esse mesmo enredo?
Eu ainda estava relutante e um tanto preso ao desenvolvimento da história quando, sem mais nem menos, sem aviso prévio, me vi diante da tevê assistindo a um jornal da tarde repleto de notícias sobre enchentes, terremotos e guerras. Intercalada com aquelas notícias catastróficas, uma jornalista, direto de Roma, falava sobre o estado de saúde do papa na época.
Lembro-me de comentar com minha irmã, que estava sentada ao meu lado:
— Isto é o fim do mundo! O Final dos Tempos previsto no livro do Apocalipse.
Rimos um pouco da ideia, levantamos algumas possibilidades e então, num piscar de olhos, ela surgiu: escrever uma história sobre o Final dos Tempos.
Eu teria uma protagonista. Seria uma mulher valente. E ela teria que impedir que aquele dia fatídico, que já se aproximava, de fato viesse a acontecer.
Levantei-me do sofá e corri para o computador.
Pronto, eu tinha minha história!
Mas será que, de fato, eu tinha uma história?
Eu estava certo e seguro de que havia pisado nos primeiros tijolos da minha estrada amarela. Aquilo era tudo o que eu tinha.
Precisaria dar outros passos naquela estrada, mesmo sem saber ao certo para onde ela iria me levar.
Revendo hoje esse meu período criativo, que durou vários meses, surpreendo-me com o quanto tudo foi fluido.
Não disse que foi fácil. Disse que foi fluido.
Eu tinha certeza de que não seria capaz de prever uma história completa, do início ao fim, antes de pôr mãos à obra. Também não sabia quantos personagens fariam parte do meu universo, qual seria o papel de cada um na história, como se chamariam ou como terminariam suas aventuras.
O que eu tinha, então, afinal?
Os primeiros tijolos amarelos.
E, à minha frente, a possibilidade de trilhar muitos outros. Infinitas possibilidades.
Então me pus a pensar.
Uma mulher. Uma corrida contra o tempo para evitar o Fim dos Tempos.
Uma mulher. Uma corrida contra o tempo para evitar o Fim dos Tempos graças a um manuscrito antigo que revelava como impedir que ele acontecesse.
Uma mulher. Uma corrida contra o tempo para evitar o Fim dos Tempos graças a um manuscrito antigo que revelava como impedir que ele acontecesse… e esse pergaminho fora encontrado por um monge na Europa…
Bora escrever?
Bora dar mais alguns passos na minha estrada de tijolos amarelos.
Sei que alguns autores, quando planejam um romance, já têm em mente como pretendem desenvolvê-lo e aonde querem chegar. Outros constroem primeiro os personagens e, a partir deles, vão dando vida à história. Cada um encontra seu próprio jeito de construir uma narrativa.
Eu descobri que trabalho sem conhecer bem toda a estrada.
É mais ou menos como acontece na própria vida. Acordamos, tomamos atitudes, fazemos escolhas e lidamos com as consequências delas. Não sabemos exatamente o que encontraremos alguns quilômetros adiante.
Na escrita, também sou assim.
Foi assim com Sanctus Ostium – A Porta Santa, que publiquei no ano passado pela Editora Crypta Books. Está sendo assim com o segundo, O Terceiro Nome, que sairá este ano — assim espero — pela Palavra & Verso Editora. E espero que, num futuro não muito distante, aconteça também com A Quinta Chaga, que por enquanto não passa de um arquivo no meu drive.
Inegavelmente, é uma caminhada difícil.
Afinal, quantas inseguranças enfrentamos quando trilhamos um caminho que não conhecemos completamente?
Mas é justamente essa aventura que me estimula.
Gosto de colocar meus personagens — e, consequentemente, a mim mesmo — em situações das quais ainda não sei como escapar. Gosto de chegar a uma encruzilhada sem saber qual caminho tomarei.
E então surge mais um tijolo amarelo. Depois outro. E mais outro.
Talvez eu nunca consiga enxergar a estrada inteira antes de começar a percorrê-la. Hoje, porém, sei que não preciso.
Preciso apenas enxergar o próximo tijolo.
Foi assim que descobri a minha forma de criar e desenvolver uma história.
E, pelo menos até aqui, ela tem funcionado para mim.
Imagem: Sweetheart