Voto e Veto #6 Estarei Contigo nas Trincheiras da Revolução: A Mulher como Protagonista Revolucionária

A frase, dita em tom de despedida, ecoou por semanas em minha mente até se materializar neste texto. Proveniente de uma militante de cerca de um metro e meio de altura, mas de uma coragem e combatividade gigantescas, o conceito que poderia passar batido em outros momentos soou especialmente impactante para mim. “Estarei contigo nas trincheiras da revolução” significa muito mais do que uma prece comum, uma frase pronta ou, ainda, mera camaradagem entre membros da esquerda. Significa comprometimento além das relações comuns.

Com base nesse acontecimento, passei a refletir sobre as diferenças na militância entre homens e mulheres, e por que este segundo público é, e sempre foi, a vanguarda dos movimentos revolucionários.

A mulher, destituída de tudo, inclusive do direito de ser ela mesma, nasce em guerra constante. Objetificada, sexualizada, reduzida e inferiorizada, não lhe resta alternativa a não ser a luta incessante pela própria vida. Luta contra as expectativas impositivas da maternidade, do casamento, do comportamento socialmente esperado, da vestimenta, da estética… o manual do que “a mulher deve ser” é um calhamaço cruel escrito com sangue e por mãos masculinas.

Quando cada centímetro de conquista é arduamente ameaçado a todo instante, não existe outra possibilidade além do posicionamento firme e da resposta à altura. Relembrarei aqui diversos casos recentes de enfrentamento, muitas vezes físico, realizado por mulheres corajosas. No dia 25 de julho de 2025, mulheres do Movimento Olga Benário expulsaram mais de dez homens, todos membros do MBL, que tentaram invadir a Ocupação Maria Lúcia Petit Vive, enquanto as militantes preparavam o coletivo para receber mulheres vítimas de violência. Os vídeos, disponíveis com facilidade na internet, mostram as militantes apresentando, com muita destreza, a importância de um chute antifascista muito bem colocado entre as nádegas dos covardes. No dia 26 de janeiro de 2026, mais membros do MBL e da sua nova roupagem partidária, o União Brasil, cortaram os cadeados e invadiram a Ocupação Palestina Livre, em Diadema, região do ABC Paulista, em São Paulo. Nos vídeos, é possível ouvir os fascistas procurando por homens dentro da ocupação, talvez para “legitimar” o desejo pela violência. Como só havia mulheres e crianças, as agressões foram destinadas a elas. O episódio absurdo só cessou com a chegada da Guarda Civil Metropolitana, quando os porcos fascistas negaram envolvimento com qualquer movimento político. O acontecimento explicita os meios obscenos de que o inimigo se vale para enriquecer sua narrativa preparada para cortes de trinta segundos. Novamente, as mulheres tiveram um papel decisivo em combater e expulsar os invasores, protegendo suas crianças e famílias. Em momento algum se intimidaram pela quantidade ou pelos atributos físicos dos criminosos.

Os ataques à mulher não são uma prática contemporânea. Os exemplos históricos de resistência são numerosos. Durante a ditadura militar, as mulheres eram descritas com “espírito lutador e tenacidade sem limites”. Resistiram bravamente a longas sessões de abuso e tortura, tornando-se exemplos que jamais devemos esquecer. Para o leitor, fica o convite para conhecer alguns dos muitos nomes que marcaram a história: Dinalva Oliveira Teixeira, uma das melhores guerrilheiras do Araguaia; Dilma Rousseff, dona de uma coragem exemplar e eleita recentemente para um novo mandato de cinco anos à frente do Banco do Brics; Lélia Gonzalez, uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU), em 1978, e também do Partido dos Trabalhadores (PT), que fazia oposição ao regime militar; e Maria Amélia de Almeida Teles, diretora da União de Mulheres de São Paulo e integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.

Aqueles que desejam cerrar fileiras no front da revolução precisam destituir-se das “duas gramas de privilégio” que recebem, como homens de esquerda, e aprender que o inimigo pode, e deve, ser derrubado, não importando suas forças. Busquem inspiração não apenas nos revolucionários cubanos, mas também nas camaradas corajosas que vão às ruas e não hesitam em defender os seus.

Nota: Esse texto foi desenvolvido junto de algumas mulheres incríveis com as quais tenho o prazer de dividir as fileiras do curso de Psicologia.

Foto de capa por Foto de Michelle Guimarães

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