Estava escutando músicas da minha época — e sim, minha coluna doeu só de escrever isso —, mas topei com “All the Things She Said”, da dupla t.A.T.u.
Lembrei claramente do meu eu adolescente assistindo ao clipe, achando os uniformes fofos e me sentindo aflito enquanto aquela multidão de umas 20 pessoas observava as garotas, as julgando com o olhar através de uma cerca.
Elas se questionam se são loucas ou se passaram do limite por causa de algo que uma mulher disse para elas. No entanto, não sabemos exatamente o que é. Eu chutaria que a mulher disse que “sente o cheiro de couro de longe”, mas sabemos hoje que as cantoras não são lésbicas, nem irmãs, e que uma ou as duas são, ironicamente, homofóbicas.
O que fiquei pensando enquanto escrevo este texto é que, na época, eu tinha uma visão muito distorcida do que o clipe dizia. Essa distorção vinha da minha própria não aceitação como homem gay.
No clipe, as duas garotas passam um tempo indeterminado presas entre uma grade e um muro que parece não ter fim. Do outro lado da grade, pessoas brancas, usando preto e com expressões austeras as encaram. As atuações das cantoras demonstram insegurança, medo, incerteza se o que sentem uma pela outra está certo, discutem, se desesperam e, no fim, ignorando os olhares e até os desafiando, percebem que só têm uma à outra. Elas se amam, se aquecem, se apoiam e entendem juntas que, além do muro, existia muito mais: um pôr do sol cheio de possibilidades. Até mesmo a chuva e a neve incessantes param e elas caminham para esse futuro.
As pessoas que passaram todo o tempo julgando as garotas eram, na verdade, as que estavam presas atrás da grade. Talvez suas expressões duras e desconfortáveis fossem apenas inveja, porque, do ponto de vista delas, as garotas estavam livres o tempo todo — mesmo quando achavam que não.
E por que eu tinha isso de forma deturpada na cabeça? Cresci como um jovem evangélico e sofri muito com a questão da culpa cristã. Eu SEMPRE lia o clipe como se elas estivessem erradas, porque estavam do lado “errado” de onde a “comunidade” estava. Mesmo quando caminhavam em direção ao pôr do sol no final, eu interpretava aquilo como se estivessem se libertando daquela vida e indo para “o outro lado”.
Logicamente, essa poderia ser uma leitura válida? Não. Não poderia, porque a mensagem do clipe e da música são óbvias. Ainda assim, eu fazia grandes malabarismos mentais para justificar que elas estavam erradas — porque eu me sentia errado também.
Não é à toa que a minha geração está cheia de traumas: depressão, burnout, ansiedade e afins.
Enfim, não tenho uma conclusão “bonitinha” para essa reflexão. Apenas a percepção de que a ferida causada pela religião é, e sempre foi, muito mais profunda. Ela deforma tudo, inclusive o amor próprio e o senso de si, especialmente entre os jovens da comunidade LGBTQIAPN+.
Respostas de 6
Excelente reflexão sobre a culpa e a distorção causada por ela. O que leva a contestação da mesma e da importância que damos para o que outros pensam sobre nossa realidade.
O próprio cenário, com tudo que ele traz, desde as cercas , as grades e os ferros, a chuva, o frio, a solidão de ser quem vc é sem que nonguém mais queira que você seja e que você exista. Tudo na cena mostra de fomra plástica o que vai para além do corpo, do psicológico e o desdém…o nojo, o escárnio; e o olhar, pelos olhos dos filhos de God, apontando…e quebrando, pra sempre a nossa alma.
É doido pensar como essa experiência com a religião durante a infância atrapalha a percepção de tudo e principalmente sobre o seu autoconhecimento como uma criança LGBTQIAPN+, assim como é mais doido ainda pensar que essa vivência não é um caso isolado, que aconteceu muito e ainda se repete, infelizmente.
O bom é que as pessoas conseguem “despertar” desse transe, conseguem se perceber além dessa culpa (que não deve existir) e assim a sua verdade pode ser vivida, elas podem ir pro outro lado como no final do clipe, livres.
SIM! Inclusive o movimento de abandonar a culpa cristã me lembrou um trecho da música Culpa da Bea Duarte:
“Esse medo que tu sente
Eu não sinto
Agora eu sei o que é mesmo
O livre arbítrio
Fazer o bem porque eu quero
Já que eu vou mesmo
Pro “inferno”
Não adianta me falar que eu tô errada
Eu não vejo o que você vê
E nada me faria desistir de ser livre assim”
Apesar das cicatrizes, quando percebemos que passamos por cima dessa culpa, de fato, é libertador.
Tatu foi muito emblematico na minha identificação e inicio do aceitar “gostar de meninas”. Compreendo bem o que refletiu…pois por ser de familia catolica tradicionalissima… tive muita dificuldade dr retirar o preconceito enraizado em mim.
Antes de qualquer ser em contato comigo, eu fui a mais preconceituosa e demorei um ano para aceitar e parar de negar. Hj me sinto tranquila, realizada e plena. Mas o sofrimento foi imenso para isso ocorrer.
É louco demais como costumes ferram nossa cabeça e infelizmente não temos percepção disso até ser tarde. Ainda bem que conseguimos viver apesar disso e mesmo com as consequências <3