Esses dias eu estava navegando em uma rede social e ela estava me ofertando diversas coisas, uma delas algo que sempre tive muita vontade de fazer, mas que não foi possível realizar. Olhando um pouco mais nos envolvidos com a atividade eu pude ver suas vidas cheias de coisas que só em alguns muitos anos trabalhando sem parar eu conseguiria uma delas. Nesse momento uma frustração que sempre está aqui me acertou como o coice de um cavalo arredio e me jogou na lona com um sentimento de derrota. Foi então que decidi revisitar Solanin, uma obra que teve um impacto tão forte quanto essa recordação em uma tentativa de conseguir jogar esse sentimento para fora, ou ao menos uma grande parte dele.
Solanin é o um mangá publicado em 2006 por Inio Asano. No Brasil ganhou duas edições diferentes, uma em duas partes e um volume único alguns anos depois pela editora LPM. A história é sobre Meiko Inoue, uma jovem em seus 20 e poucos anos formada não tem muito tempo em uma faculdade que mora com seu namorado Naruo Taneda, na mesma situação que ela. Ambos trabalham em locais que odeiam, mas ambos têm relações diferentes com seus trabalhos. Meiko odeia tudo e todos, o comportamento conformista dos adultos e suas pequenas corrupções, já Taneda tenta a qualquer custo se adaptar e gostar dessa vida, afinal ele poderia estar ainda pior que isso. Taneda porém sempre teve um sonho, apostar em sua banda e quando Meiko decide largar o emprego para saber o que realmente quer, apesar das muitas dúvidas, ele decide apostar tudo em uma gravação de Cd.
Vou tentar não contar muito da história, então vou mesclar minha história com a dos personagens, já que essa pode ser a história de muitas outras pessoas. Você já pensou o momento em que você passou pelo processo de “amadurecer e se tornar adulto”? Eu acredito que isso rolou comigo quando eu ainda era um pré-adolescente, lá pelos meus 11/12 anos, quando percebi o limite de até onde eu poderia chegar, nesse caso era terminar o ensino médio e procurar emprego para ajudar na renda. Depois disso eu passei por um número de bicos e empregos e hoje tenho meus quase 40 anos.
Apesar disso eu ainda tinha sonhos, começaram com muitos que iam desde viajar o mundo até ser médico, mas que a medida em que fui crescendo e notando que aquilo era inalcançável, eu ia deixando eles pelo caminho e focando naquilo que eu poderia alcançar. Quando leio Solanin eu me vejo um pouco na Meiko, alguém confuso com o que quer, que na verdade deseja tão pouco que já não sabe como sonhar tão alto, mas minha co-relação com Taneda é muito maior, principalmente nos dias de hoje.
“Será que eu tenho condições de fazer isso? Será que sou capaz? Não posso me focar nesse tipo de atividade, ela exige tempo e dinheiro que não tenho, não posso desperdiçar com essas coisas. Melhor seguir no seguro, o que tenho já deveria ser suficiente, eu tô melhor que muita gente.”
Assim como com o Taneda esse tipo de pensamento polui minha mente o tempo todo, e tira completamente a minha vontade de tentar qualquer coisa. Eu já ouvi muitas vezes que tenho talento para coisa X e Y, mas quando vejo no quebrar dos ovos eu não me vejo atingindo voos mais altos, só me vejo caindo do precipício e me quebrando em mil pedaços, então sim, assim como Taneda eu não me sinto seguro para tentar algo, não me sinto capaz de conseguir e menos ainda de merecer uma vitória. Eu vou ser sempre aquilo que muito já me disseram, um talento desperdiçado.
Apesar disso tudo Solanin não é só sobre as tristezas das limitações da vida adulta, é também sobre aproveitar o que tem no máximo que puder. Hoje em dia eu não tenho nenhuma ambição, mas ao menos quero aproveitar tudo o que eu puder ter nessa vida enquanto ainda respiro. Nem sempre funciona, as vezes o peso da derrota é muito maior e eu caio, chorando, invejando, amaldiçoando essa vida que não me deixa voar para os céus como um majestoso pássaro, mas não vou ficar assim para sempre, vou aproveitar cada pequena coisa que me faz feliz e sorrir, vou sofrer e ficar triste quando tiver de ficar e talvez até tentar uma coisinha ou outra como a Meiko no final da história em que ela canta a música escrita por Taneda em um único show e desfrutar do sucesso de ter conseguido fazer algo que eu queria.
Será que um dia eu posso me tornar um escritor? Sinto muito decepcionar, mas escrever como profissão seria estressante demais. Eu escrevo mais quando sinto vir a inspiração, sem ela eu entraria em parafuso tentando e me afundaria em vícios, remédios para ansiedade e depressão e afins, creio que não quero essa vida, mas posso dizer que apesar da sensação de tristeza desse texto, acho que conseguir colocar parte das frustrações para fora aqui, talvez essa seja minha apresentação musical no final de Solanin né?
Ou uma das muitas que poderão vir.
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Outro dia, li que o Freud disse ou escreveu em algum lugar que a infância termina, mas o infantil não. Aos meus 61 anos, continuo enfrentando questões que vêm da infância e, às vezes, me julgando por não ser maduro e “adulto” o suficiente. Mas outras vezes também percebo que são essas “infantilidades” que me fazem ser quem sou e, honestamente, não queria ser outra pessoa. Então procuro aceitar o pacote inteiro, com suas vantagens e desvantagens.
Acho que a gente se vê confrontado o tempo inteiro com um modelo de sucesso que nem sempre (quase nunca, na verdade) é realista. Então o problema normalmente não está na gente, e sim no mundo que nos cerca e sobretudo na falta de igualdade de oportunidades de acesso a muita coisa. Mas acho também que dá pra, sem se resignar passivamente, construir a nossa bolha de conforto e felicidade com as oportunidades que temos.
Não sei se fez sentido, mas espero que sim.
O sistema sempre impõe um modelo completamente irrealista e por mais que a gente queira escapar disso, por vezes acaba se pegando pensando sobre isso e obviamente vai deprimir porque nunca vai alcançar. Acho que a medida que o tempo passa, eu tenho filtrado melhor isso, mas tem dia que me pega muito forte porque me pego pensando em como seria bom ter tudo aquilo que vejo nas telas, mas depois eu coloco meu pé no chão e sigo o baile.
Sobre a parte do infantil, tem uma parte no mangá que descreve bem isso acredito. É um momento em que eles estão estourando fogos de artíficio, lá no Japão costuma ter uns bem pequenos e de pouco risco e que geralmente são usados muito por crianças para se divertir, e nesse momento a pessoa que está lendo capta bem que não é algo completamente fora da realidade deles e ainda assim é extremamente prazeroso e divertido. Acho que essa nossa parte “não adulta” ajuda muito nas dificuldades da vida.
Interessante como essa “chegada da maioridade” vem em diferentes momentos da vida para as pessoas. A princípio, eu achava que teria aos meus 19 anos com o segundo evento cataclismo da minha vida. Mas, depois percebi que foi há três anos com mais um evento devastador. Hoje entendo que amadurecer é um processo baseado em um conceito subjetivo. Eu ja tenho mais de 40 e sou bastante imaturo para n coisas, ainda assim com uma vasta experiência de vida que me surpreende de vez em quando. Ainda assim sei que nada sei e que a vida está aí para nos ensinar.
Existiram alguns outros eventos que na época tiveram seus impactos devastadores, mas que eu acabei ainda assim lidando e mantendo uma parte mais fora da realidade, mas acho que acabaram sendo esses eventos porque percebi que não tinha como fugir desses. Eu acho que a imaturidade também tem sua importância, deixa que eu leve a vida com um pouco mais de leveza, então tento sempre preservar essa parte para ainda poder desfrutar de tudo que tem de positivo. Como a vida não é a mesma para todos nós, realmente cada um vai ter um amadurecimento em diferentes ocasiões, para uns menos complicadas, para outros, bem…
Eu gosto de dizer uma frase de uma personagem que gosto muito quando se trata de sabedoria. “Eu não sei de tudo, eu só sei o que sei.” hahahahaha