Saúde, cuidado e a importância dos preservativos na qualidade de vida da população LGBTQIAPN+

O Dia Mundial de Luta contra a AIDS, celebrado em 1º de dezembro, tem sua origem em um contexto histórico marcado pelo avanço acelerado da epidemia de HIV nos anos 1980. Em 1987, a crise sanitária já se configurava como um dos maiores desafios globais da saúde pública, afetando milhões de pessoas e revelando desigualdades profundas no acesso a diagnóstico, prevenção e tratamento. Nesse cenário, dois profissionais de comunicação, James Bunn e Thomas Netter, consultores do Programa Global de AIDS da Organização Mundial da Saúde, propuseram a criação de uma data internacional dedicada à conscientização, ao enfrentamento do estigma e à mobilização social.

A proposta foi acolhida pela OMS, que instituiu oficialmente o primeiro Dia Mundial de Luta contra a AIDS em 1988, tornando-se, assim, a primeira campanha internacional de saúde coordenada globalmente. A escolha do dia 1º de dezembro não foi aleatória: ela buscava aproveitar o período de maior interesse da imprensa mundial, logo após as eleições norte-americanas e antes das festas de fim de ano, garantindo ampla visibilidade à pauta.

Desde então, a data se consolidou como um marco simbólico e político. Seu objetivo central é promover informação qualificada, estimular políticas públicas efetivas, homenagear as vidas perdidas e reafirmar a luta contra o preconceito que, historicamente, acompanha o HIV/AIDS. Ao longo das décadas, o 1º de dezembro transformou-se em um espaço de reflexão crítica, mobilização comunitária e defesa dos direitos humanos, lembrando que a resposta à epidemia exige não apenas avanços biomédicos, mas principalmente compromisso social, inclusão e justiça.

Essa data nos ajuda a lembrar de duros e importantes dados. Nos últimos anos, o Brasil vem registrando um crescimento preocupante no número de casos de sífilis e sinais de que a infecção por HIV está se expandindo de modo silencioso em algumas regiões. Segundo o mais recente Boletim Epidemiológico de 2025, a sífilis adquirida continua com taxas elevadas: em 2024 foram notificados 256.830 casos, correspondendo a uma taxa de detecção de cerca de 120,8 por 100 mil habitantes. 

Além disso, há indícios de que a prevalência de HIV esteja subestimada. Um estudo divulgado em 2025 na Região Metropolitana de Porto Alegre apontou prevalência de HIV de 1,64% entre a população testada, acima do limite de 1% considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para considerar a epidemia sob controle. Esses dados sugerem que muitos casos seguem não diagnosticados, o que dificulta a resposta efetiva em nível nacional.

A recuperação de circulação social, após os picos da pandemia de COVID-19, contribui para uma retomada das interações sexuais e, possivelmente, de práticas sem proteção adequada. A diminuição da vigilância contínua, o cansaço em relação ao discurso preventivo, e lacunas no acesso à prevenção e testagem agravam o problema. Alguns segmentos da população permanecem mais vulneráveis, tais como jovens, populações LGBTQIA+, mulheres grávidas, relações extraconjugais desprotegidas, entre outras, exigindo atenção diferenciada.

A recusa ou negligência no diagnóstico, a desinformação, o sub uso de métodos preventivos e as desigualdades regionais e sociais reforçam a disseminação dessas infecções. Como consequência, cresce a carga sobre o sistema de saúde pública, aumentam os riscos de complicações (no caso da sífilis, inclusive de transmissão para gestantes), e acentua-se o estigma contra pessoas que vivem com HIV.

Do ponto de vista histórico e sociopolítico, o contexto atual revela paradoxos: mesmo com avanços no controle vertical da transmissão (de mãe para filho), e com campanhas públicas de testagem e tratamento gratuito, persistem lacunas estruturais, seja no acesso, na cobertura, ou em práticas educativas, os quais impedem a contenção efetiva. Isso nos mostra que a epidemia não é apenas biomédica, mas profundamente marcada por desigualdades sociais, culturais e por falhas políticas.

O aumento recente de sífilis e o cenário de HIV/AIDS exigem revisão urgente das estratégias de saúde pública, com ampliação do diagnóstico, educação sexual contínua, distribuição de preservativos, testagem acessível, e políticas de redução de desigualdades, para evitar retrocessos e garantir direitos à saúde para toda a população.

Ou seja, a introdução da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) representou um marco importante na história das políticas de prevenção ao HIV. No entanto, mesmo com sua eficácia comprovada na redução do risco de infecção, o uso de preservativos continua sendo fundamental para uma proteção integral. Historicamente, cada inovação biomédica no campo da sexualidade (da penicilina ao advento dos antirretrovirais) levou parte da população a adotar comportamentos mais arriscados, acreditando que a tecnologia elimina todos os perigos. 

No caso da PrEP, esse fenômeno reaparece: muitos imaginam que ela substitui o preservativo, quando, na verdade, atua apenas contra um agente específico, o HIV.

Os preservativos continuam essenciais porque oferecem uma barreira física que previne uma ampla gama de infecções sexualmente transmissíveis, como sífilis, gonorreia, clamídia, hepatites virais e HPV, todas ainda prevalentes no Brasil. A história recente demonstra que, quando o uso do preservativo diminui, há aumento direto dessas infecções, inclusive em populações jovens. Além disso, o preservativo protege contra gestações não planejadas, ampliando seu papel para além da prevenção das ISTs.

Outro ponto central é a dimensão sociocultural da sexualidade. A PrEP exige adesão diária ou sob demanda, acompanhamento médico periódico e testagem regular, condições que, em contextos de desigualdade social, nem sempre são plenamente garantidas. O preservativo, ao contrário, oferece acesso mais simples, sendo distribuído gratuitamente pelo sistema público de saúde desde a década de 1990. Assim, a combinação de estratégias, PrEP e preservativo, constitui uma abordagem mais robusta, alinhada às lições históricas de que a saúde sexual depende não apenas de tecnologias isoladas, mas de práticas contínuas de cuidado, educação e responsabilidade compartilhada.

Foto de cottonbro studio

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *