Você tem alguma religião? Se sim, qual sua relação com ela? Estava escutando o podcast LendaCast episódio 201- Padres Gays e os Abusos da Igreja com Brendo Silva e Barbara Miranda, ele um ex-seminarista e ela uma ex-freira. Neste episódio, uma das coisas que eles contam ao Dan Pires, o apresentador do programa, como o sofrimento era glorificado principalmente dentro do convento. Sempre falando como os santos se entregaram a eles para provar sua fé em Deus e isso mostrava sua submissão à sua força maior. A Barbara enfatizou muito como isso influenciou muito em sua mentalidade e a mentalidade das outras freiras que viviam com ela, que não dava coragem de reagir a abusos que passavam dentro do convento e como isso molda todas as fés cristãs (mesmo as que não tem santos).
Arrumando as coisas aqui em casa e escutando esses relatos assustadores, mas zero surpreendentes, me veio um pensamento, nada novo e já muito debatido, mas pouco registrado: como esse Sagrado Sofrimento vem para as religiões pagãs.
Podemos viver em um país laico, mas é laico desde de 1891, passou quase 400 anos sendo Católico (considerando desde a invasão) tentando dizimar as religiões que já tinham aqui. Até parte de nossos Encantandos foram colocados como “maldições” para quem não seguisse o catolicismo. Então somos um país Laico de cultura cristianizada e a glorificação do sofrimento é intrínseco para nós.
Como alguém que estuda e frequenta, mesmo que on-line, os meios pagãos desde 2015 o que mais vejo são pessoas que postando aos deuses das outras culturas da mesma forma, sempre se humilhando perante eles, se rebaixando. Vou reduzir agora para relatos que já li e ouvi em relação aos deuses que trabalho, que são guerreiros. Alguns interpretam que para ser um bom guerreiro você tem que sofrer e se põe nessa posição, enquanto nos próprios mitos dizem que bons guerreiros tem que ter equilíbrio, saber pelo que está lutando e para isso, você tem que VIVER ter paixões e não abaixar a cabeça e seguir cegamente o que lhe foi mandado. Claro, não falo isso como um ser que nunca fez isso (e ainda faço), eu estou inserida nesse sistema e minha educação foi formada por ele. Sendo consciente disso eu tento mudar, mas não é fácil e é tentador cair nessa relação, pois é visto como bonito sofrer para alcançar sua “elevação” ou aquilo que almeja.
Mesmo no meu trabalho tendo muito forte a parte da guerra, tem a parte da vida, da dança, sentir o movimento da terra e seus ciclos, perceber o quanto nós não estamos desconectados com a natureza como acreditamos que estamos. Até tem sofrimento, mas tem alegrias também, tem equilíbrio e momentos.
Também tem aquelas pessoas que acham que romperam com isso e acham que deuses são cartinhas de Magic que você tira quando precisa e eles vão trabalhar exatamente como a pessoa quer. Para mim, se trata assim um deus, não quero nem ver como trata outras pessoas.
Esse sagrado sofrimento não se aplica somente no circulo religioso, no trabalho, romântico e artístico. Tanto que existe o mito de que artista cria melhor quando está triste e em profundo sofrimento, que sabemos que é mentira e aqueles que usam como exemplo para justificar o argumento morreram cedo e só conseguiram criar realmente nos poucos momentos que estavam bem. Então realmente vale a pena dedicar sua vida ao se autopunir e sofrer para talvez alcançar uma “iluminação”, para talvez estar agradando algo ou alguém superior?
Daí fica o questionamento, qual sua relação com sua religiosidade, deuses, entidades, sua vida?
Foto de Blue Arauz