Parada LGBT: corpos em marcha, desejo em fúria

Quando se vê a multidão passando, quase homogênea em sua própria diversidade, não se imagina as muitas dimensões que a compõem.
As Paradas do Orgulho LGBTQIAPN+ não são apenas atos de reivindicações sociais e políticas, nem podem ser lidas tão somente como lugares de visibilidade. Para além do “ei, nós estamos aqui!”, é também um “ei, eu estou aqui!”. É um espaço que se rasga no tecido social heterocisnormativo e ocupa as ruas.
Tendemos facilmente a recorrer à crítica e ao moralismo para apontar diversas “queixas” sobre as Paradas, seja aquelas que falam sobre constructos religiosos que carregamos, sejam aquelas que aludem para o fato de que os gays pobres estão no final da parada catando latinha.
Caímos no discurso raso de que ali muitos estão pela festa, de que ali muitos estão despindo seus corpos “despudorados”, de que ali estão exigindo um respeito que não conseguem oferecer quando simulam ou expressam algo de sua própria sexualidade, de que ali é um lugar insalubre para as crianças, de que ali é uma bagunça.
Todos esses discursos — emitidos, algumas vezes, de dentro das próprias vozes que compõem a Parada — são, na verdade, falas ditas aos próprios sujeitos que as emitem, quase como um delírio de defesa sobre o próprio desejo. Uma espécie de eco com alto-falante. O discurso só revela o que conseguem ver, a dimensão que os atinge, não a dimensão do que aquilo realmente é.
Como tudo isso se articula, se interpõe e estabelece, por um breve momento, um novo pacto social — um que considera lançar luz ao que sobrevive, por 364 dias do ano, em completa escuridão marginal.
Aquilo que é colocado à margem é funcional para aquilo que se coloca no centro. O centro usa a margem para se valorar. O centro ocupa o lugar de destaque, mas a margem ocupa o privilégio de olhar para o centro e dizer: “Ei, seu limite acaba aqui!”
Somente os olhos atentos podem estar inteiros diante das múltiplas dimensões que acontecem em uma Parada.
A multidão que está ali — despida ou vestida, colorida ou monocromática, travestida ou simplesmente comum — articula em seu próprio corpo a experiência coletiva de denunciar as hipocrisias que somos obrigados a engolir diariamente, e que, muitas vezes, vão sufocando o nosso existir.
Portanto, a Parada é uma catarse coletiva de denúncia, de extravasamento dos becos, do underground, dos submundos — de tudo aquilo que se esconde na noite, não por escolha, mas por opressão. E, como uma panela de pressão organizada, aquilo explode.
Na Parada, o individual torna-se coletivo, o indivíduo torna-se sujeito, o pessoal torna-se político, o privado torna-se público — e todos revestem o próprio corpo de uma coragem que costura as ruas como um rio caudaloso e forte, que não pede passagem, apenas passa.
A multidão que assiste de longe se assusta.
Os olhares curiosos, ressentidos, covardes, tímidos e intimidados se espantam frente à força coletiva, lembrando-se de que a estatística é só um número — um conceito laico que não revela sua grandeza. A quantificação não vale de nada. Talvez sejamos muito mais do que os índices do IBGE. Talvez seus vizinhos também sejam. Talvez algum parente seja. Talvez, pasme: seu filho também possa ser!
Há então um encontro com aquilo que se nega ver.
Ali embaixo, na multidão, os sujeitos negados em suas expressões extravasam tudo o que precisa sair: todos os monstros, Medeias, gárgulas, criaturas, unicórnios que ficaram guardados nos armários do ódio e da autodepreciação.
O Olimpo se assusta e se esconde, e deixa o desfile de Dionísio lembrar que somos feitos desse caldo inquietante de desejo e loucura.
Os corpos se beijam, se abraçam, se engalfinham em um desfile de euforia por existir.
Ali, na Parada, lembramos que existimos.
Lembramos que a rua também é nossa. Que o microfone, o palanque, a praça, a calçada, o direito, o imposto — são também nossos.
A festa é nosso ato de resistência — é o nosso maior ato de resistência! — e isso incomoda.
Pois a mão do flagelo sobre nós se pergunta: como podem ainda esses miseráveis celebrarem? Como podem ainda esses marginais sorrirem? Como podem ainda desfilar orgulhosos? Como podem ainda resistir?
E isso ofende.
Nossa alegria ofende.
A alegria é a maior ofensa ao opressor.
Sorrir, gargalhar, celebrar, ir ao centro da floresta à noite e dançar na fogueira do Grande Sabá é resistência — e é ofensa para eles.
Ofendemos a sua mentira.
Ofendemos o seu ódio.
E, ao ofender, oferecemos como antídoto a liberdade, o deboche, o escárnio contra suas instituições que já não dizem mais nada a ninguém — que apenas contam mentiras lavadas de sangue e rancor.
Por isso, é preciso vir a chuva — para lavar o sangue e o rancor.
E a chuva pressagia o arco-íris.

Foto de capa por Rosemary Ketchum

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