O perfeccionista e a assustadora tela em branco

   

#ParaCegoVer
Charge de Robert Leighton, nela um artista se prepara para iniciar a pintura de uma tela em branco, na frente da tela tem um cordão de isolamento como aqueles que indicam que é uma pintura muito valiosa, uma obra prima, e que não poderá ser tocada. Uma mulher observa aquilo e questiona “Por que você se coloca sob tanta pressão?”.

Há mais de um mês eu fui convidado para virar colunista junto de meu melhor amigo para o Instituto Pró-Diversidade.
No dia fiquei bem animado, tive uma conversa de literalmente horas no google meet com Péricles, o presidente do Instituto, minha cabeça borbulhava em possíveis temas que eu poderia escrever, os olhos brilhavam vislumbrando as pessoas que os textos poderiam alcançar, que reações poderiam gerar.

Comecei a esboçar ideias em minha mente, pedi dicas ao Marcos, que já escreve no site na coluna Aleatorizando, e ele me orientou “escreva sobre algo que você poderia falar por horas, ou até dar uma palestra sobre” e como bom palestrinha que sou ainda mais ideias vieram a mente.

“Quero falar sobre filmes, quero falar sobre animações, quero falar sobre a população trans, quero xingar J.K. Rowling e seu bando de TERFs, quero falar sobre pânico moral, quero explicar conceitos básicos que até o pessoal do lado colorido da força parece ter dificuldade de entender, quero muito!” minha mente borbulhava. E de tanto querer abraçar o mundo, tanto vislumbrar o futuro efeito daquelas palavras, tanto idealizar o futuro texto como uma obra prima que eu deveria criar, o perfeccionismo se ativou em modo máximo.

Seria eu capaz de criar algo tão perfeito quanto o que eu queria criar?

E, junto com outras coisas que da vida que aconteceram, me vi travando, olhava a tela em branco onde era para nascer um texto e ficava travado, incapaz de apertar uma única tecla que fosse para digitar algo. Não por falta do que escrever, mas por querer algo tão perfeito que chegava ao ponto de eu não saber mais lidar com aquilo, previamente extenuado pelo nível de perfeição que eu queria alcançar, não confiar na minha própria capacidade de alcançar ela.

“Vou escrever quando eu decidir um tema muito bom” eu disse para mim mesmo, como se não tivesse uma infinidade de temas muito bons para falar. “Ou talvez escrever sobre algum filme, série ou anime que eu vi?” eu questionava em outro dia, mais inseguro, sentindo que no exato momento que eu cogitava transformar aquilo em texto instantaneamente dava branco em qualquer reflexão ou análise que eu tivesse feito sobre o que quer que eu tivesse assistido.

“Talvez eu pudesse pegar aquele textão da discussão da internet do outro dia?” Eu perguntava mais uma vez, sabendo que eu tinha escrito algo muito bom, mas me sentindo paralisado no momento em que copiava o texto para ensaiar editá-lo como coluna. E assim passou mais de um mês e tive de aceitar a realidade, o peso do perfeccionismo estava me paralisando e fazendo procrastinar, matando todos aqueles possíveis e belos futuros que eu tanto estava sonhando.

E não era novidade, lembrei sobre um antigo blog que escrevi na adolescência, fui ler meus textos antigos e isso era um assunto recorrente, essa paralisia causada pelo medo de o resultado não ser tão perfeito quanto o que eu havia idealizado.

Num dos texto, de 2010, eu escrevi:
“Há tantos assuntos! Música, cinema, sexo, fama, fatos estranhos, listas, questões filosóficas, inutilidades, reclamações, elogios, críticas, resenhas, análises, entre tantos e tantos outros que me faltam à mente agora. E meus dedos coçam na vontade de exteriorizar as idéias e palavras que voam em minha mente, mas que parecem se acanhar frente à possibilidade de serem mostrados ao mundo.”

É quase engraçado que 14 anos depois isto ainda seja um problema, pois não era para ser e, tendo noção que é um problema, não precisa mais ser. Hoje consigo organizar melhor as ideias (ou, ao menos, melhor do que quando era adolescente) e, pelo bem ou pelo mal, estou mais cansado do que era antes, cansado demais até para gastar tanta energia sendo um perfeccionista, às vezes só é necessário aceitar que é melhor feito do que perfeito, ou seguirei paralisado por minha vida inteira sonhando (e lamentando) pelas magníficas obras que eu estava assustado demais para concluir não atingirem minhas próprias expectativas.

Sendo assim, venho aqui confessar e expor minha imperfeição, pois a vezes a busca pela perfeição é a desculpa perfeita para não fazer, tamanho o receio de falhar. Fora que vai que mais alguém se sente assim, se conecta com esse sentimento e a gente começa a trocar dicas sobre como superar o perfeccionismo, né? Bora aprender juntos a ter coragem de sermos imperfeitos, brindar essas coisas que saem meio tortas, mas que alguém se esforçou de verdade para que se tornassem reais.
É assustador, mas algo me diz que pode ser divertido. 🙂

Respostas de 4

  1. Alegria imensa de poder ler você, meu querido amigo! Parabéns, obrigada pela reflexão!! Abraços fraternos!!!

  2. Minha mãe foi Perfeccionista e no primeiro sonho que tive com ela ao deixar de ser “terraquea” foi como atrelar a Perfeição a uma busca com viés infantil já que a Vida ensina que “Perfeito é Deus”! No sonho ela se reportava, viúva, no primeiro dia que entrou no galpão que funcionava a Oficina do meu pai: Não imaginava viver aquele momento, mais sempre teve como lema que a morte é a única certeza que temos durante a vida! Então, na sequência do sonho, ela se pos a abrir as janelas e deixar o sol entrar! A prole, afinal era grande (oito, todos com idades inferiores a quinze anos)! Então vivamos os dias, como apregoa o AA: “Um dia de cada vez”!

  3. Sim, seus abraços são quentinhos e você é definitivamente um homem doce, sensível,mas além de tudo visionário, uma inteligência que transcende o natural e passa para o fenomenal.
    Orgulho de você!!! Desejo muito sucesso!!!
    Te amo!!! Mamys (do coração)

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