Desço na estação Carandiru do metrô. Já faz mais de uma década desde que eu desembarcava aqui para pegar um ônibus que me levava ao meu apartamento sobreloja. Naquela época, mesmo com todas as dificuldades financeiras, eu era feliz. Era? Mas estou aqui por outro motivo: hoje é dia de circo! Melhor; hoje é dia de ver meu amigo fazendo o que mais ama: ser palhaço.
O Parque da Juventude fica ao lado da estação, no mesmo lugar onde outrora existiu o famoso (infame?) presídio Carandiru. Recentemente, a prefeitura de São Paulo inaugurou um circo fixo com apresentações realizadas por diversos grupos circenses.
No caminho para a estrutura de lona, vejo uma velha conhecida: a Biblioteca de São Paulo. Lembro de como fiquei ansioso por sua inauguração. “Falta muito pra abrir?” era dito quase como um mantra aos guardinhas do parque. Ali eu era feliz, pois ali eu estava entre-livros.* É curioso pensar que narrativas sempre fizeram parte da minha vida, mas a escrita criativa, em si, só fez sentido depois que uma pílula “mágica” – que repõe a dopamina que meu cérebro deveria produzir naturalmente – entrou em cena.
* Entre-livro. Adj. 1. Estado de satisfação plena por estar rodeado de livros.
Nossa! Daqui já consigo ver a lona! Estava tão envolto em meus devaneios que até me esqueci do que me trouxe aqui. O cheiro de pipoca me traz nostalgia. Faz muito tempo que não vou ao circo. Acredito que na última vez eu ainda era adolescente. Nós não deveríamos deixar de fazer coisas que gostamos só porque viramos adultos. Quando me aproximo da entrada, sou recepcionado por uma menina gentil e por um palhaço em perna de pau. Sou fascinado por essa arte equilibrista! Atravesso, então, as cortinas: Welcome to the greatest show!
Me sento na arquibancada que faz um meio círculo em volta do picadeiro. Estar ali pelo meu amigo artista somado a nostalgia inerente ao local me faz pensar em outros amigos que fizeram da arte sua forma de expressão. Eu acho um barato prestigiar quem eu amo. Ser fã da arte deles é uma forma de dizer: “estou aqui e me importo com você”. Além disso, a arte é onde muitas pessoas mostram sua verdadeira essência e, sendo assim, não dá pra desassociar o artista de sua arte. No meio dos meus pensamentos, concluo que isso seria um bom tema para minha escrita e começo a elaborar este texto em minha mente. Ainda seria metalinguagem pensar na crônica enquanto eu vivo a cena?
O mestre de cerimônias começa sua fala de abertura. Percebo que uma pessoa senta ao meu lado. Ao me virar, vejo meu amigo caracterizado de palhaço, num impulso tento cumprimentá-lo e ele se esquiva e solta um “oi” tímido, como se não me conhecesse. Espera! Esse não é o meu amigo… esse é o Palhaço! Ele me passa seu celular, discretamente. Fico estarrecido ao perceber que até sua linguagem corporal é diferente.
Em determinado momento, ele levanta e grita: “Começa o show logo! Tá ficando chato!”; “Tá acelerando demais, cara. Você faz alguma coisa?”; “Malabares”; “Então quer uma oportunidade, é isso?”; “Quero ir aí” – o pedido sai como uma criança pedindo para brincar; “Ele merece uma oportunidade, galera?”; “siiiiiiiiiim” – a arquibancada ecoa. E lá está ele no seu melhor palco: o picadeiro – mas não antes de seu primeiro tombo, de muitos.
O Palhaço começa seu número jogando ao ar apenas um malabar. Uma pessoa grita da arquibancada: “eu também quero fazer”. Ao mesmo tempo, a plateia pede para que fique “mais difícil”. O palhaço, demonstrando medo, lança os três malabares e, imediatamente, tapa os olhos com as mãos. O público vibra. Surge, então, o malabarista que tinha gritado há pouco. Ele inicia o seu show e o Palhaço se torna seu ajudante de palco. Eles são incríveis juntos.
Enquanto os malabares dançam, lembro de minha amiga que, ao cantar, segura o microfone como a Christina Aguilera, gesto que revela sua inspiração. Quando nos conhecemos, eu dava os primeiros passos como Designer. Então, fiz um site e a capa de sua demo. Meu jeito de dizer: “eu acredito em você”.
Na nossa turma, havia uma amiga que queria cantar igual a Clara Nunes. Ela ouvia suas músicas atentamente, memorizando cada respiro. Às vezes, ela cantava em happy hours com a Michelle… volto minha atenção para o circo… algumas lembranças nunca deixam de doer…
Depois que o malabarista termina sua apresentação, o MC pergunta se há mais algum artista na arquibancada. Uma garota se apresenta e o público agora precisa decidir se dá uma oportunidade a ela. A resposta vem em coro: “siiim!”. É impossível não pensar que, às vezes, tudo que um artista precisa é de uma oportunidade para dizer do que é feito. E é isso que faz esse (este?) texto ter tanta força! Assim se dá início às acrobacias no tecido – minha parte preferida do circo.
Enquanto viajo na performance, minha mente me leva ao véu usado na Dança do Ventre que, por sua vez, me lembra de uma amiga que fazia aula dessa arte. Em todo final de semestre, a escola em que ela era aluna preparava uma apresentação para a família e amigos. Eu fiz questão de ir a todas. Eu adorava quando ela vinha, toda animada, falando sobre ter superado suas dificuldades!
No palco, o MC diz que vai dar uma volta e passa o holofote para o Palhaço. Agora é só ele e o picadeiro, seu momento de brilhar. Coisa que ele faz com maestria, pedindo para os presentes cantar uma música simples, que, na verdade, se torna um trava-línguas. É inevitável errar. É inevitável rir de si mesmo. Rir de si mesmo é um ato libertador.
A cantoria faz minha mente divagar para aquele sobrado onde eu comandava um karaokê. Lembro do menino tímido que foi aplaudido com fulgor depois de sua interpretação de um hit da Dua Lipa. Anos depois, ele lançou um álbum autoral que declamava: “Dentro d’água a gente não chora”. E isso fez muito sentido para o menino que foi morar perto do mar porque queria parar de chorar.
A trapezista então é suspensa numa argola para realizar suas acrobacias. Enquanto isso, o Palhaço fica ali ao lado com os braços esticados para caso ela precise de ajuda. Quando eu precisei de alguém de braços abertos para voltar a acreditar, eu conheci a menina que escrevia sobre o mar. Ela me fez ter esperança de que ainda há pessoas que valem a pena no mundo. Então, todas as segundas, religiosamente, enquanto eu tomava meu primeiro café, fazia a leitura de seu novo texto em sua coluna.
Chegou a vez da contorcionista. Ao lado, o Palhaço, tenta a imitar, enquanto faz suas caras e bocas, abismado com o que vê. Uma vez, meu amigo me disse que a palhaçaria é uma expressão política. Eu entendi isso quando o Palhaço, logo após a contorcionista, teve a oportunidade de uma segunda chance com os malabares. Ele não só a agarrou, como fez uma belíssima apresentação!
O show continua com uma dupla trapezistas. A tensão entre eles me traz de volta aquele pensamento que mais cedo eu evitei. Sabe quando você fica um tempo sem ver um amigo e até se esquece dele, mas quando o reencontra parece que não passou um dia sequer? O luto para mim é mais ou menos assim. A dádiva disso é que eu esqueço das pessoas que partiram… mas o outro lado da moeda é que o sentimento da perda nunca passa.
Quando penso na Michele, eu não penso com aquela saudade de quem já se foi há tantos anos. Eu sinto como se ela tivesse partido recentemente. Dói.
A Michele era incrível! Ela tocava, o que? Uns quinze instrumentos? Era autodidata e tinha ouvido absoluto. Ela fazia parte de uma banda chamada Alfamaré, que buscava por uma oportunidade, mas que só chegaram a lançar uma única demo com oito músicas – das quais eu até decorei. Ela não era a vocalista, dizia que gostava de ser a segunda voz. Mas eu adorava a ouvir cantando com sua voz rouca. Ela era como uma irmã para mim…
O MC pede por uma pessoa que saiba plantar bananeiras, e um novo artista surge da plateia. Enquanto ele se equilibra em apenas um dos braços eu me recordo de uma vez em que a banda da Micha ia tocar em um bar na zona norte de São Paulo. Brinquei dizendo que só iria se ela cantasse “1º de Julho” pra mim e ela aceitou prontamente. Na véspera, eu não estava bem e liguei para ela para avisar que eu não iria. Assim que ela atendeu, me disse que a minha música já estava ensaiada. O que eu poderia fazer? Eu fui.
No dia do show, na hora do intervalo, ela ficou dedilhando no violão enquanto ouvia algo em seu mp3 player. Quando a banda voltou, ela disse: “Olha, eu tenho um grande amigo que veio me ver hoje e ele havia me dito que só viria se eu cantasse uma tal música. Aí, ontem eu falei que a música estava ensaiadíssima, para que ele não me desse cano. A verdade é que eu acabei de tirar a música aqui no intervalo”. Ela ouviu por vinte minutos, e tocou e cantou perfeitamente! Eu sempre lembro dela quando ouço essa música.
A DJ agora está cantando, ela arrasa. Está rolando um break dance no picadeiro. Eu me culpei por muito tempo por não ter conseguido estar do lado da Micha nos seus últimos anos de vida. Na época, eu trabalhava num bar e não tinha tempo para nada… mas o tempo não espera… e ela não pôde.
Durante a pandemia, consegui fazer as pazes comigo. Em uma epifania, senti que ela falava comigo. Então, entendi que fui o melhor amigo que pude ser. Fui o seu fã número 1! Hoje percebo o quanto isso deve ter sido importante pra ela! Quando a saudade aperta, tenho em nossa história um lugar para me confortar.
Assim que o show termina, os artistas circenses são aplaudidos em pé por sua plateia. Há quem diga que o artista vive pelo aplauso. Se isso é verdade, é possível que o primeiro aplauso venha dos amigos.
Respostas de 3
Lindo texto! ❤️❤️❤️
Que texto lindo. Tenha certeza de que o Pepe e o artista que o interpreta estão muito felizes ao ler tudo isso, e saber que a arte chegou e ficou muito bem acolhida no seu coração e ativou lembranças bonitas. Obrigado por tanto. <3
Seu fofo! Fico feliz que tenha gostado da homenagem. Você é o palhaço Pepe me inspiram 🙂