O Oscar e suas ironias

Tivemos, dia 02 de março, mais uma edição do Oscar e esta entrou para a história brasileira, pois conquistamos pela primeira vez um Oscar, com a premiação de melhor filme internacional para “Ainda Estou Aqui”. Mas também foi uma premiação cheia de polêmicas, principalmente relacionada ao filme “Emília Perez”. Essas questões estão sendo amplamente discutidas, mas eu gostaria de levantar um outro ponto interessante.

 

Antes de tudo, vamos levantar uns pressupostos importantes para a discussão. Política é um termo que carrega em si diversos significados. O mais comum é tudo relacionado ao Estado, uma organização formal de organização de um país como tal. Mas existem outros usos, como a forma que um chefe ou líder age a partir de seu poder ou toda ação que ocorre no coletivo que interfere na organização social e nos discursos coletivos. E é nesse último conceito que eu falei que nos interessa. Não é só um deputado ou presidente que faz política de modo mais amplo. Quando uma emissora de TV decide apresentar uma informação de uma maneira ou outra – Como por exemplo dedicando um bom tempo dos seus principais jornais para falar de um assunto, com direito a um fundo personalizado com um cano esgoto saindo dinheiro – ele está agindo de forma política. Quando uma igreja fala sobre as relações sociais fora dela – como com quem as pessoas deveriam se relacionar e quais são proibidas – ela está sendo totalmente política. E quando você cria toda uma indústria de entretenimento que vende uma percepção sobre seu país para o mundo, criando a ilusão de país super desenvolvido na qual as pessoas sonham irem para lá, é político para um caralho. 

 

E o Oscar está nessa lógica política. Pensa só: são especialistas que dizem para o povo qual filme merece mais reconhecimento que o outro, a partir da percepção que só eles podem ter e que isso vai levar prestígio para o resto do mundo sobre essas obras. Os filmes premiados são e serão vistos como de notável relevância,na qual nem todos vão gostar ou entender, porque essas pessoas não são cultas o suficiente para isso. E assim, poucos filmes tidos como populares vão ganhar muito espaço no Oscar. E eles têm visões do que se deve criticar e do que não. (Eles, por exemplo, gostam muito de falar sobre racismo, mas depende, só vale se for numa perspectiva branca sobre o racismo, né Green Book).

 

Mas como as decisões não são tomadas por uma pessoa somente e nem são isentas de influências externas, vai sempre existir certas ironias no que ocorre. E eu vou pontuar duas delas que eu percebi nessa última premiação. A primeira é algo que está ocorrendo nos últimos anos. Como eu disse, é evidente como o Oscar privilegia a cultura norte-americana, em detrimento de outras. Eles são uma premiação dos EUA que quer se passar por uma internacional. Mas acaba que culturas emergentes de outros países estão cada vez mais surgindo a contragosto e conquistando prêmios grandes. “Parasita” foi um filme que deixa isso claro, mas também podemos apontar as animações ganhadoras dos dois últimos anos “O Menino e a Garça” do Japão, e “Flow” da Letônia,que ganhou seu primeiro Oscar assim como nós. 

 

E aí temos “Emília Perez”. Um filme Francês, que conta uma história que se passa no “México” e que tem um elenco repleto de atores norte-americanos sendo indicado a 13 categorias. E isso parece ser um certo recado: “Já que vamos fazer essa tal de inclusão, que seja por meio da nossa visão e não de quem precisa ser incluído. A gente consegue contar sua história melhor que sua gente”. E esse filme para levantar uma bandeira de falsa inclusão perde. E perde feio. Das 13 indicações, levou duas. Uma totalmente questionável, que é a de melhor canção original com uma música que é o puro suco de vergonha alheia. A outra, de melhor atriz coadjuvante, veio com um discurso da Zoe Saldaña tentando puxar sua imagem como imigrante que conquistou seu sonho americano com aquele Oscar.

 

E a maior derrota que “Emília Perez” teve foi justamente pelo nosso grande filme “Ainda Estou Aqui” Que aí sim foi uma verdadeira representação do cinema latino, tanto que os próprios mexicanos comemoram essa vitória. E ainda trás um ponto mais profundo: Nós ganhamos com uma história sobre a ditadura militar, que foi financiada pelos Estados Unidos, assim como a guerra em Gaza, retratada no filme documentário “No Other Land”, que falou justamente sobre o lado da palestina que normalmente é escondido pela mídia norte-americana. E assim o Oscar, que vendeu e ainda vende o sonho americano no mundo, acabou tendo que dar espaço para duas obras que mostram que eles não financiam só sonhos, mas sim guerras e sofrimento. E vamos lembrar que “Ainda Estou Aqui” só pode ser contado por causa da Dilma e sua Comissão da Verdade e que ela sofreu impeachment num desenrolar político que foi financiado novamente pelos Estados Unidos, a lava a Jato. Esse conflito político atual acaba tendo esses desdobramentos interessantes dentro do Oscar, mesmo a contragosto de algumas pessoas lá. 

 

Por fim, viva a cultura e a vida latinoamericana!!! 

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