O CARDUME

Volto ao cardume. Esta é a imagem. A imagem de um cardume.


Qual é o retrato do mundo?

Como posso descrever o mundo? Será que realmente o mundo é aquela linda fotografia que aprendemos a admirar? Sabe, aquela fotografia do espaço, tirada pelos astronautas da missão Apollo 17, em 9 de dezembro de 1972? Aquela imagem linda e azul, de um ovo cósmico que parece uma pérola pulsante de vida nadando no oceano do espaço… Será essa a imagem do nosso mundo?


Gostaria que ela também fosse. Na verdade, gostaria que fosse a única imagem. Mas ela é distante, e quando aproximamos a nossa lente, percebo que, na verdade, o mundo é um cardume se debatendo em uma rede.


Imagine você que o mundo, na atualidade, pudesse ser descrito da seguinte forma:
Nós somos os peixes. O oceano em que nadamos é a vida — essa mesma na qual estamos submersos sem perceber. Em nós há uma voracidade por alimento que nos move, quase sempre sem sabermos como, que nos empurra para os locais de abundância, de proteção contra toda sorte de predadores potencialmente existenciais… O tempo, a vida, a morte…
Acima de nós, há barcos. Grandes barcos. Grandes e poderosos barcos com homens fortes. Criaturas preparadas com suas tecnologias.


Sem saber, nós, os peixes, nadamos para a rede — até então invisível. É uma isca, pois os homens lá em cima querem nos pescar. Querem nos tornar alimento. Nossos corpos, nossos desejos, nossos sonhos — nada disso importa para eles. Nem mesmo o nosso modo de vida lhes interessa. Na verdade, nosso modo de vida é produzido por eles, para seus próprios fins e lucros.


Então, de repente, nos percebemos imersos na grande rede que começa a ser puxada. Nós, os peixes, até então iludidos com a ideia de liberdade, começamos a nos esbarrar. E começamos, de repente, a acelerar. Década após década, acelerando. E sem perceber, passamos a acreditar que tudo isso era normal. Que este era o único caminho.


Vieram então outros peixes — mais fortes, mais velozes, mais bonitos e coloridos — nos dizer que era isso mesmo, que correr e se acotovelar era o certo, que ser veloz era o caminho. E nós tentamos…


E ainda teve peixe que disse que a rede era nossa amiga. Que ela nos protegeria. Que fora da rede não havia segurança. Que o oceano, até então nossa única certeza, era na verdade perigoso — e que a rede nos daria Deus, pátria e família.


Alguns peixes acreditaram na rede — e até forçaram outros a permanecerem dentro dela. Outros criaram fendas e saídas. Outros, assustados com a grandeza do oceano, depois de escaparem, voltaram. Voltaram convencidos — e convencendo outros — de que a rede era segura. Se amedrontaram com a possibilidade de liberdade que nunca haviam provado. Muitos simplesmente nasceram dentro da rede.


Mas a rede continuou sendo puxada para cima. Os homens continuaram a estreitá-la. Porque eles nos querem assim: encurralados.


Quando nos demos conta, estávamos todos nos debatendo. Saindo da água. Perdendo o fôlego. Agonizando.


Essa é a imagem que vejo quando percebo nosso atual modo de vida e de relações. Estamos nos debatendo para sobreviver dentro da rede. E, em algum momento, acabaremos dentro do barco pesqueiro — e ainda iremos nos perguntar:
Como foi mesmo que viemos parar aqui?

Foto de capa por adiprayogo liemena 

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