Não jogue fora

Como é do meu feitio sempre vou ao banheiro para fazer o número dois levando o celular comigo. Antigamente levava um livro. A tecnologia permitiu que as coisas ficassem mais interessantes.

Em uma dessas visitas ao banheiro aproveitei o tempo que estava lá para dar uma olhada no Instagram. Dei de cara com uma postagem do Edson Cordeiro. Para quem não sabe ele é um cantor lírico que fez um certo sucesso algumas décadas atrás. Apareceu em vários programas de televisão cantando com sua voz extremamente aguda, bem ao estilo dos castrate italianos. Uma voz maravilhosa, sublime e angelical! Acho que ele nem está mais morando no Brasil.

Em sua postagem ele comentava sobre uma abordagem no mínimo criminosa da qual foi vítima andando na rua com seu namorado. Segundo ele contou, estava passeando com o namorado – pelo que deu para entender, estrangeiro – quando um carro parou próximo ao casal (sim, casal, pessoas LGBTQIA+ também formam casais), o passageiro desceu o vidro e gritou bem alto: boiola! Continuando, ele disse que o namorado não sabia, até então, o significado daquela palavra em portugues, e que ele teve que apresentá-la ou companheiro daquela forma tão desagradável.

Escutei a postagem atentamente, com um crescente sentimento de indignação e revolta. Verdadeiramente pasmado com a gratuidade da agressividade e ódio de certas pessoas, se assim eu posso chamá-las.

Com estes pensamentos terminei o que estava fazendo, levantei-me do vaso sanitário e dei tchau para a minha “obra”, dando a descarga. Não é assim que as mamães e papais ensinam as criancinhas a fazer quando terminam suas necessidades no banheiro? Dei tchau para ela como gostaria de ter dado tchau para aquele agressor.

Juntando o que eu havia acabado de fazer no banheiro e acabado de escutar no perfil do artista no Instagram cheguei à seguinte conclusão. Nós temos o péssimo hábito de nos livrar de tudo que nos incomoda. Quanto ao resultado de nossas necessidades fisiológicas até que tudo bem. Estamos falando de uma questão de higiene, uma necessidade sanitária para preservar a saúde da população. Mas, o problema é que algumas pessoas fazem a mesma coisa com outros seres humanos também, porque os consideram lixo. Livramo-nos de tudo que nos incomoda, que não queremos ver, que consideramos sujo, lixo, emporcalhado. Pomos para fora o lixo de nossa casa e o despejamos nas ruas mesmo sem saber se o caminhão da coleta irá passar naquele dia para retirá-lo. Vem as chuvas de verão,entopem os bueiros e alagam as casas. Tiramos o que nos desagrada e não serve, o que sobrou de perto de nós e o colocamos longe, do lado de fora. Como se o planeta também não fosse uma casa para todos nós.

Mas tem quem não só jogue fora, ponha para longe dos olhos e ignore o lixo, mas também faz o mesmo com quem considera como lixo, em consequência de um ponto de vista torto, mesquinho, preconceituoso e desumano – e aqui não farei uso do adjetivo animalesco -, pois os animais não agem assim. Eles são muito mais humanos do que nós, muitas vezes.

É isto que estes seres humanos desprovidos de razão, sentimento e respeito ao outro fazem quando agridem um homossexual, matam um transexual, se indignam tanto com a possibilidade de outra pessoa ser fuida ou bissexual, sem medo de gostar de homens e mulheres. Eles, simplesmente eliminam, “jogam fora”, tiram da frente dos olhos e “sanitizam” o mundo da forma que consideram melhor, somente porque se acham melhores, maiores, perfeitos, brancos, héteros, ricos, “diferenciados”.

Eu tentei acreditar que em uma cidade como São Paulo as coisas são diferentes. Porque somos uma metrópole, porque somos um caldeirão cultural, uma efervescência de raças, de cores, de opções. Mas, quando ouço algo assim, como esta narrativa de uma pessoa que tem que admitir que já passou por coisas piores, que aprendeu a ser forte e tudo o mais que uma pessoa LGBTQIA+ tem que aprender a ser para viver, para sobreviver eu realmente fico sem chão. Fico descrente. Fico inseguro.

E o pior de tudo é que parece que as coisas só andam para trás. Não só aqui em São Paulo, ou no Brasil, mas no mundo todo! Eu sou de uma época e de um lugar onde ser gay, assumir-se gay era algo inconcebível. Os poucos que tiveram a coragem de fazê-lo viviam marginalizados na sociedade! E deixo aqui o meu reconhecimento e gratidão por eles terem lutado e sofrido tanto para abrir o caminho para quem sobreviveu e vive hoje em dia. Se as crianças e jovens hoje em dia podem se assumir, ser aceitos e se manifestar é graças a estes mártires modernos.

Mas, se eles ainda estivessem vivos estariam tão tristes! Pois, apesar de, nas últimas décadas, os espaços terem sido abertos, leis criadas e direitos das minorias fortalecidos e nós nos sentirmos mais livres, mais respeitados e seguros; parece que tudo não passou de uma camada fina de açúcar cristalizado, facilmente quebrável.

Gostaria de ter como terminar com pensamentos positivos, bem gays, no sentido literal da palavra inglesa, mas infelizmente não é possível fazê-lo. O que posso fazer é continuar honrando aqueles que vieram antes de mim, sendo eu mesmo. Sendo o que sou, escutando os xingamentos, os olhares enviesados, e, apesar disso, continuar andando nas calçadas na esperança de, pelo menos, estar abrindo o caminho para outros que vierem depois de mim.

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