Engana-se quem pensa que as polêmicas da Marvel de “destruir a sua infância” e mexer com seus personagens favoritos são algo recente. Em 2012, a editora ousou alterar um dos maiores símbolos heterotop do seu panteão: aquele que é o melhor no que faz… Logan, o bom e velho Wolverine.
A saga teve início em Astonishing X-Men #44, quando Ciclope, ainda abalado pela cisão dos X-Men após Schism, foi transportado para uma dimensão paralela por uma versão alternativa da Tempestade. Lá, ele encontrou variações de velhos aliados, como Wolverine (James Howlett), Emma Frost (Emmeline Summers-Frost) e Noturno (Kurt Waggoner), que eram prisioneiros de um sádico Charles Xavier e serviam como fonte de energia para manter aquele planeta vivo. Com a ajuda de Ciclope, eles derrotaram Xavier e retornaram às suas realidades. Essa saga, chamada Exalted, durou até a edição #47.
Após a derrota de Xavier, a história prosseguiu no título X-Treme X-Men (2012), que não chegou a ser publicado no Brasil. Nessa fase, Howlett e seus companheiros, acompanhados por Cristal (Alison Blaire) da Terra 616, passaram a viajar por diferentes dimensões para derrotar outras versões corrompidas de Xavier — numa premissa muito parecida com a antiga série Exiles.
Foi em uma dessas edições que Cristal questionou Howlett, ao notar o quanto ele ficou embasbacado ao encontrar um Hércules de outra dimensão. Howlett então revelou que, em sua realidade, havia sido amante do semideus, e que até mesmo o metal Adamantine em seus ossos teria sido presente de Hércules. O casal chegou a se reunir durante as edições de X-Treme X-Men, reacendendo seu romance enquanto enfrentavam ameaças multiversais.
O roteirista Greg Pak, responsável pelas duas séries, explicou em entrevista ao portal Bear Nerd que a ideia surgiu da liberdade criativa proporcionada pelas realidades alternativas:
“Eu nunca havia visto um personagem gay nos quadrinhos mainstream que fosse exatamente como Howlett”, contou Pak. “Já que estávamos falando de universos paralelos, pensei: por que não? E Hércules foi perfeito como interesse amoroso, porque já havíamos sugerido aspectos homoeróticos nos mitos gregos.”
Pak destacou ainda que a história fugia de estereótipos ao retratar dois personagens maduros e de porte “ursino”, quebrando a figura do casal gay frágil e reforçando a representatividade dentro da cultura nerd.
Outro destaque foi a versão alternativa de Ciclope apresentada no mesmo arco. Diferentemente do líder tradicional dos X-Men, essa contraparte era um ex-escravizado negro, que havia lutado contra os Confederados em uma realidade inspirada na Guerra Civil americana, antes de se unir ao grupo liderado por Howlett.
O casal Howlett/Hércules foi bem recebido por parte do público LGBT e por fãs nerds, segundo Pak, que relatou comentários positivos e até fanarts de leitores apaixonados pelos personagens. Embora não tenha havido um grande alarde na época, a proposta ganhou reconhecimento como uma das primeiras representações de um casal “ursino” nos quadrinhos de super-heróis.
Na reta final da publicação, a equipe participou do crossover X-Termination, que também não foi lançado no Brasil — o que foi até um alívio, já que a saga foi considerada ruim, encerrando de forma apressada e sofrível a trajetória desses personagens, servindo basicamente para eliminá-los do universo Marvel.




