A gente pensa que sabe o que é amor, até cair na real. Não era amor, era Síndrome de Estocolmo.
Desde criança, eu aprendi que a gente deve amar o próximo. No entanto, o maior desafio sempre foi amar o próximo que estava mais próximo, a começar com meus progenitores. As sensações mais intensas que eu tinha quando era criança, pelo menos a partir dos meus cinco anos, eram a dor e a revolta causados pelos castigos físicos que eu sofri para ser educado no lar. Nasci em 1981, meu pai já me bateu, minha mãe também. Era assim que eles criavam crianças na minha comunidade. Eu nem sabia que odiava apanhar. Aprendi isso depois, fazendo terapia. Vinte anos depois do primeiro tapa, possivelmente.
Mas por que castigar? Porque a linguagem do amor passa pela compreensão distorcida de que precisamos sofrer para tudo na vida. Educar não é diferente. Educar com amor é ainda educar e, de acordo com Freud, todo ato educativo implica exatamente botar limites ao id. Ou seja, educar é barrar o princípio do prazer. Educar é necessário. A dor era também. Nasci sete anos antes da Constituição Federal e nove antes do ECA. Vitima do pátrio poder, eu apanhava de meus mais, não com frequência, mas sempre que eles julgaram ser necessário.
Mas e se eu não apanhasse, como seria? Seria exatamente como agora. Eu aprenderia sofrendo os horríveis constrangimentos de ter de enfrentar opiniões, consequências de minhas ações e, principalmente, o peso daquilo que eu sinto depois de ouvir isso. A dor física era mais fácil de administrar? Não. E, realmente, se eu precisasse apanhar toda vez que eu errasse, hoje em dia, talvez eu desistiria de viver. Apanhar dói muito.
Por isso doeu apanhar de meu ex-marido, mesmo ele alegando estar bêbado e não se lembrar do que fez. Por isso doeu quando ele fez isso supostamente sóbrio. Doeu também descobrir que, mesmo quando não batem, toda e qualquer expressão de amor que eu já recebi na minha vida veio de gente que me fez sentir dor e desconforto, ora fisico, ora psicológico.
Odeio amar por causa disso. Espero sarar todas essas feridas a tempo de poder amar sem dor. Se é que isso é possível. Todo mundo que ama, humilha e agride, pelo menos verbalmente. Não há linguagem de amor sem violência. Mesmo quando nós, LGBTQIAPN+ escolhemos a dedo nossa família, porque precisamos escolher pelo abandono de quem nos gera (não é meu caso).
Amar não é obrigatório por causa disso, mas conviver é imperativo, o ser humano é social e relacional. Wallon, francês, psicólogo e estudioso da pedagogia, afirma que somos geneticamente sociais, por isso não temos escolha. O antissocial é criminoso porque não há normalidade no isolamento e negação das regras da sociedade. Sem escolha, eu preciso me relacionar.

O único amar obrigatório é a si mesmo. Essa lei, no entanto, nos coloca num interessante jogo simbólico, cujo revés é exatamente buscar se conhecer, o cuidado de si, a ética do eu para depois se articular com um outro que é constitutivo da nossa mais básica percepção da realidade. E quando eu descubro que, mesmo me amando, o amor continua uma linguagem de violências mesmo que simbólicas, o que é o amor, senão uma violência desejada?
E se me amo, sou violento comigo mesmo?
Pensando bem, não.
Mas quando amo o outro, sim.
Enfim: só.
Por Alex Mendes
para sua coluna O Poder Que Queremos
Capa: Divulgação. Link para a imagem aqui. Aproveite para ler mais sobre essa síndrome.