Sem dúvida, viver é melhor que sonhar. Concordo completamente com Belchior, em sua célebre canção. Mas há momentos em que o sonho é tudo o que temos. O que fazer, numa hora dessas? Continuar sonhando, mas de qualquer forma, é necessário saber que sonho e realidade são distantes o suficiente para evitar certas coisas. Como levar uns tapas do pai, por exemplo. Seria bom se todas as crianças fossem espertas o suficiente perto dos próprios pais. Mas é exatamente perto deles que os infantes perdem a linha. Os pais têm um poder muito grande sobre seus filhos. Perto deles, mentir pode ser difícil. Para muitos, impossível, até. Embora os filhos se dediquem muito a tarefa de aprender a falsear a verdade para seus progenitores, outros aspectos da personalidade ficam sem atenção.
Vá lá. São crianças, na verdade. É impossível esperar delas outra coisa que não seja ser criança, errar, cair, sujar-se ou então sonhar com suas cabecinhas infantis. Em muitas dessas cabecinhas ainda não há responsabilidade, malícia ou mesmo qualquer outra forma de economia emocional do equilíbrio. Daí o sonho e a realidade podem se misturar à vontade. Cabem aos adultos responsáveis serem o juízo na cabecinha desses seres lindos e imaginativos. Para isso serve viver em sociedade, os maiores cuidando dos menores, ensinando-os tudo, inclusive o juízo.
Ao sonhar, no entanto, o adulto deve dar o exemplo. Vai que seus filhos aprendem a sonhar demais? Foi o que aconteceu numa dita feita, em que um pai, pobre, simplicíssimo, mas ainda assim dono de uma chácara, olhava as estrelas à noite, cansado da lida na roça, mirando o firmamento e falando sozinho:
— Ah, se eu tivesse uma égua… Minha vida seria mais fácil…
— Uma égua, meu pai? — pergunta seu filho atento aos devaneios paternos. Criança tem sempre o dom de estar no lugar certo, na hora errada ou vice-versa.
— Isso, meu filho. Olha só. Nós temos aqui um alqueire na nossa chacrinha de terra para arar. Se eu tivesse uma égua, não teria que pedir ao seu João para usar a dele. Ele cobra caro por isso. Ele sempre pede algo em troca. Se eu tivesse uma égua, eu poderia arar esse chão todinho de graça. O arado eu tenho ali mesmo. Você vinha me ajudar, a gente fazia isso tudo em pouco tempo. Durante a semana eu não posso, porque eu estou ocupado trabalhando para o seu João.
— É mesmo, né, pai? Quanto é que custa uma égua, pai?
— Mais que eu posso pagar, com certeza. Mas sonhar não custa nada. E com essa égua, eu ia colocar ela pra cruzar com um cavalo bom. Pensa. Ela pançuda, depois parindo, e amojando com o bichinho mamando…
— Mas ela prenha pode arar a terra pai?
— Uai, meu filho, se ela estivesse prenha, até uns três meses antes de parir eu tinha coragem de por ela para puxar o arado. É menos de um alqueire, na verdade. E eu iria sem pressa, sem forçar a bichinha. Logo ela paria e com o potrinho, a gente já teria dois animais. Aqui dá e sobra pra criar ela. Os dois. Ali perto do galinheiro a gente reforma e faz o estábulo…

Os olhos do menino brilhavam, refletindo as estrelas da Via Láctea em noite de Lua Nova. Já pensava no futuro da família, na felicidade. Na carroça. Comprariam a carroça, depois de muito sofrer e economizar. O pai, também imaginando, ainda nem tinha chegado na carroça, mas a mente da criança não tem freios. O menino já imaginava a si, o pai e a mãe indo à missa domingo na carroça, em vez de irem cada um nas suas bicicletas velhas. Seria um alento. Logo o potrinho seria um cavalo. Ou outra égua, também carroceira, também parideira. Eles seriam amigos. Ele e os animais. Nisso estava certo. Desde criança, sempre era o amigo de todos os animais, até mesmo das formigas que encontrava na cozinha… seriam os melhores amigos para sempre!
Imaginava-se brincando com os potros, os futuros. Embora a sua infância não viesse a durar para sempre, imaginava-se eternamente infantil do lado da família equina que viriam a ter ali na chácara. Quem sabe um dia seriam donos de um rebanho, um haras, sei lá. No momento, olhando a Via Láctea, imaginava-se subindo e descendo os morros da vizinhança no lombo de um deles, cavalgando no pelo, sem que o pai visse, olhando-os pastar em tardes modorrentas. Era a vida que havia pedido a Deus.
De repente, uma estrela cadente corta o céu… um desejo foi formulado. Era tudo o que queriam naquele momento. A égua. Olhou sorrindo para seu pai. Seu pai lhe sorriu com seus dentes amarelados, antigos de tanto trabalho e esforço. Era um momento ímpar, entre pai e filho. O menino, disperso naquele sonho, olhava o rosto do seu pai. Sua cabeça devia estar a calcular: horas de trabalho, atilhos de milho verde, arreios para a égua. A égua…
Então o menino verbalizou uma parte, agora pequena, minúscula, na verdade, imbuído daquele sonho que tomara de empréstimo naquele último quarto de hora:
— Pai, eu posso montar no potrinho?

Naquela época, qualquer desculpa servia para se disciplinar rigorosamente as crianças. Sem pestanejar, o pai avançou sobre o menino, dando-lhe um tapa na orelha. As estrelas mudaram rapidamente de céu. Atônito, o filho olhou para o pai. Ainda não tinha entendido direito o que causara aquele sopapo. Obviamente havia errado mais uma vez, naquele tempo em que criança se consertava no braço. E como gostavam de bater nas orelhas e vê-las vermelhas, quentes, a criança com a mão sobre elas, gemendo chorando.
Eram as crueldades de antanho, que ainda existem, mas sob novas formas criminalizadas de educação informal. Isso mesmo. Aquela que eu, você, quaisquer um de nossas idades recebeu sem que houvesse maiores preocupações com nossas orelhas. Virando-se para o filho irado, com suas razões próprias, o pai finalizando o sermão começado, de modo extremamente prático e concreto, na agressão:
— Cê tá doido, moleque! Não vê que desse jeito vai machucar o bichinho?
Por Alex Mendes
para sua coluna CECI NE PAS UN AUTEUR
Foto de capa: Imagem de Szilárd Szilágyi por Pixabay