Crônica sobre a palavra “obrigado”

Das minhas particularidades, digo que eu me perco em pesquisas etimológicas. Eu adoro ter o conhecimento do porquê de tal palavra ser daquele jeito. Uma das palavras que sempre me intrigou é “obrigado”, em sentido de gratidão.
O que eu descobri é que a origem deste significado é recente. Antes do século XIX, se usava “grato”, “agradecido” ou até  “que haja” nos textos documentados. Mas a língua falada é viva, e ela está em constante transformação.
A história que contam é que, no começo, se dizia: “fico-lhe obrigado a retribuir”. E, com o tempo, a palavra se tornou a que conhecemos hoje. A origem é, por si só, fascinante, mas ainda não é o motivo ao qual lhe prometi contar.
Quando eu era criança, foi-me ensinado a sempre atribuir meu gênero ao agradecer. “Obrigada” é dito por mulheres e “obrigado”, por homens.
As letras sempre me fascinaram. Então, sempre me cobrei para falar corretamente. Antes dos 10 anos eu já corrigia minha mãe: “é ‘eu trouxe’ e não ‘eu trussi’”.
As regras… elas precisavam ser seguidas, foi isso o que me ensinaram… “Você está proibido de brincar com as bonecas da sua irmã! Elas não são para meninos”… e eu não obedecia… não entendia o motivo daquilo. Não tinha lógica… lembro de como achava injusto eu ser menino. Eu queria ser menina!
Meus pais chegaram até esconder aquela que fora presente da nossa avó. Mas foi fácil descobrir que ela estava em uma caixa de sapatos em cima do guarda-roupa. Então era só fazer uma escalada usando as prateleiras como apoio. Meu plano era perfeito! Depois, eu esconderia onde ninguém a achasse e brincaria escondido.
Minha irmã nem ligava mais para aquele brinquedo. Ela nem iria notar. E tinha tudo para dar certo… o único problema é que, assim que a peguei, eu caí. Fiquei ali estatelado no chão enquanto gritava de dor com uma boneca na mão… doeu ainda mais por nunca mais ter a encontrado. Eu só queria brincar!
Nossa… me perdi em devaneios… onde estava mesmo? Ah, sim, “‘obrigado’ para meninos, ‘obrigada’ para meninas”. E eu ia dizer o porquê de eu gostar dessa palavra.
As palavras que flexionam gênero em nosso idioma não estão sob meu controle quando se referem a mim. Eu posso até pedir para que usem pronomes femininos ou neutros, mas a verdade é que nem todo mundo liga. E também tem os que ficam confusos. O motivo é que eu, até há pouco tempo, me escondia atrás de estereótipos de uma comunidade. O motivo é que eu não queria ter que encarar novamente olhares como os que eu vi naquele dia em que eu caí.
Mas com a palavra “obrigado”, é diferente. Ela vem de dentro. E quem diz é que decide o gênero em que vai ser dito. E eu amo isso!
E, se você me acompanhou até aqui, deixe-me te agradecer!
Obrigade! 🙂

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