Acordo ofegante e assustado… tudo parecia tão real. A quitinete em que eu moro é bem pequena e, do colchão no chão onde eu durmo, dá pra ver a porta que dá para o corredor do prédio. Eu encaro a porta e me pergunto se está trancada. Loucura minha, eles não viriam até aqui, tão longe, pra me dizer que eu não posso me dar o luxo de descansar… de dizer, aos berros, como eu sou preguiçoso… de como eu sou o culpado pelos negócios irem mal… tal qual o sonho… tal qual a vida real.
Li em algum lugar que nossos sonhos são uma forma que a mente encontrou de nos alertar dos perigos noturnos. Isso foi muito útil para que nossos antepassados pré-históricos pudessem se proteger de predadores. Mas ali, onde eu estava, não havia perigo. Respiro fundo e volto a dormir.
Assim que acordo, inicio meu ritual da manhã: me levanto e coloco um pouco de água pra ferver na leiteira menor, vou ao banheiro, escovo os dentes e, quando volto pra cozinha, a água já está ideal para passar o café. Faço isso todos os dias desde que me mudei. Encarar pequenos afazeres como um ritual me ajuda a ter coragem de sair da cama.
Gosto do café puro e bem doce. Não costumo comer nada de manhã e também não gosto de ter que sair pra comprar pão logo que acordo. Ainda mais em tempos como os que estamos vivendo, em que eu posso, literalmente, morrer se contrair um tal vírus que está rondando por aí.
Depois que a cafeína faz efeito em meu corpo e, enfim, tenho vontade de viver, olho para o computador e penso em todos os trabalhos que preciso entregar. Eu só consegui me mudar pra Praia Grande, litoral de São Paulo, porque fechei um freela que me pagou adiantado. Tudo parecia correr bem, até o dia em que sentei para iniciar o trabalho.
Nesse dia, conforme o trabalho foi avançando, foi crescendo uma grande angústia no peito… e, ao contrário de um dia de trabalho normal, em que você fica aliviado a cada passo concluído, essa angústia foi se intensificando cada vez mais… quando eu notei, já estava sem ar… lágrimas percorriam meu rosto involuntariamente… meu coração batia mais forte… Eu não conseguia trabalhar, e depender disso pra viver não ajudava em nada.
Os sinais eram bem claros: eu estava com burnout. O termo havia se tornado popular nos últimos anos por causa do excesso de casos, resultado de um capitalismo sem freio e de uma geração que aprendeu que seria feliz se tivesse uma carreira consolidada. Burnout também é conhecido como Síndrome do Esgotamento Profissional. O nome já é autoexplicativo e, para mim, foi o resultado de anos trabalhando sem descanso e sob pressão. Não tem o que fazer: o simples fato de trabalhar se torna um gatilho para crises de ansiedade. Aliás, na verdade tem sim — e se chama acompanhamento profissional. Por sorte, consegui um psicólogo voluntário na ONG da qual passei a fazer parte.
De volta ao meu quarto, continuo encarando o computador, tentando encontrar forças para iniciar meus afazeres… e então desvio o olhar para a lixadeira que havia comprado para a reforma que me incumbi a fazer. Não penso duas vezes: hoje vamos lixar o chão de taco.
Essa reforma, que decidi fazer por conta própria, é uma forma de agradecer a generosidade de amigos que eu havia acabado de conhecer. Eles me abriram as portas de seu apartamento em um momento tão delicado da minha vida e me acolheram de uma forma que poucas pessoas fazem sem ter uma segunda intenção. É tão raro conhecer pessoas genuinamente altruístas. Me sinto afortunado por isso. Este pequeno apartamento onde estou é deles. Eles me emprestaram porque eu disse que estar perto do mar me ajudaria a lidar com tudo isso que estou passando. Então, a forma que encontrei de agradecer foi a de devolver o imóvel melhor do que me entregaram.
Enquanto vou passando a lixadeira no taco, vou observando aquela “casca” escura sendo substituída por uma textura de madeira quase nova. A satisfação é quase imediata. Então, digo pra mim mesmo que é como se eu estivesse fazendo uma faxina na minha mente… e, de certa forma, estou. Durante o processo, entro num estado muito próximo do que eu acho que é a meditação, algo que nunca consegui fazer, e fico divagando sobre minha vida. Aquilo me faz bem. É terapêutico. Depois de algumas horas, me sinto ao mesmo tempo exausto – fisicamente – e renovado – mentalmente. Decido que é hora de parar. Limpo a sujeira causada pela restauração e sinto uma grande satisfação em ver o quanto eu evoluí… além de ter bastante material para a sessão de terapia. Hora de tomar banho, estou coberto de poeira!
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Quando anoitece, começo a me preparar para uma reunião com o tal amigo benfeitor… Desde que o conheci, me tornei voluntário em sua ONG, ajudando com minhas habilidades em Design. A reunião de hoje seria sobre um livro que vamos publicar com contos natalinos. Ele já tinha publicado alguns livros de forma independente, e eu o estava ajudando a estruturar sua parte editorial com todo o know-how que adquiri trabalhando por anos no mercado editorial.
A reunião começa em um aplicativo de vídeo, da mesma forma que várias reuniões estavam sendo realizadas ao redor do mundo devido ao lockdown. A conversa acontece entre o diretor da ONG e mais um amigo que eu trouxe para se voluntariar. Começamos com um bate-papo. Em épocas como estas, sempre paramos um pouco para saber como o outro está lidando com o mundo e o isolamento. Depois, começamos a falar sobre os projetos editoriais e tudo flui bem no começo… até que percebo que aquilo vai acontecer de novo. É incrível como a gente consegue prever uma crise de ansiedade e, ao mesmo tempo, não consegue evitá-la. A conversa avança e eu já não consigo absorver o que é dito… às vezes concordo ou dou uma risada amarela, torcendo para que faça sentido… a angústia vai aumentando… então vai se tornando insuportável ficar ali… eu já nem sei mais o que está sendo dito, apenas sorrio e tento me mostrar interessado. Então eu lembro do meu terapeuta… lembro dele falar de algumas técnicas para lidar com a ansiedade: “quando a crise começar, pare tudo que está fazendo e mude o foco. Procure por algo que te traga conforto”. Tento encontrar uma forma de dizer que não estou bem… mas um nó na garganta me impede de falar qualquer coisa… será que tenho forças pra explicar o que está acontecendo? Sorria… eu preciso fazer alguma coisa… eu preciso agir… eu preciso sair daqui! — Eu preciso desligar! — digo, enfim… Eles me olham sem entender, e sinto como se eu tivesse feito algo muito grave… mas não consigo pensar nas consequências agora… eu não consigo pensar… a angústia só aumenta e já começo a sentir meu ar faltar… meu coração está acelerado? Eu sinto que, se eu ficar neste apartamento, vou morrer… visto minha máscara, pego minha chave e saio. Minha mente entra em colapso. Eu preciso me acalmar… eu vou morrer? Não, não existe perigo iminente… se acalma… e se… e se eu contrair o vírus? Eu tenho comorbidades… eu posso morrer… eu vou morrer! Não! Não vou! Eu preciso me acalmar… estou sem ar… não consigo respirar… respirar… respirar é só um ritmo… ritmo… como aquela música: “Aguente firme, mais uma vez com sentimento. Tente mais uma vez, respirar é só um ritmo. Diga isso em sua mente até que você saiba que as palavras estão certas… É por isso que lutamos.” Noto que já é possível ouvir a maresia… isso sempre me acalma… o mar me acalma… o mar… como cheguei aqui?
Alcanço a orla já mais calmo… está frio e a praia está vazia… um alívio. Tiro meus chinelos e caminho com eles na mão, para que eu possa sentir a areia nos pés… a cada passo em direção ao mar, fico mais calmo… então sinto a primeira marola em meus pés… está bem fria, mas agora eu consigo respirar… mais calmo…
Respiro fundo…
Ouço a música da sinfonia que a quebra das ondas orquestra.
Sinto a água correndo pelos meus pés…
Sinto a onda levando toda a angústia que habita em mim…
Quase magicamente…
Sinto paz…