Escrever é um dom, dizem. Eu não creio em dons, nem em inspiração. Eu creio na possibilidade real de se fazer as coisas a partir de um aprendizado. Como ele acontece é que pode variar tanto que nem sempre fica claro como é que acontece. Há sempre, no ser humano, a possibilidade de se aprender com algo. O filósofo francês Michel Foucault, numa de suas célebres conferências, pergunta: O que é um autor? Ao questionar esse tipo de coisa ele desvenda algo que já sabemos. O autor é um nada, um cisco. Como pessoa ele vale muito pouco. Como trabalhador menos ainda, é risível a gente imaginar que apenas algumas pessoas do mundo merecem a notoriedade ao se construírem como poetas, contadores de histórias, como personalidades ou pessoas por detrás de uma produção que, de certa forma, fica famosa. Quantos, na verdade, dominam o idioma num nível que podem produzir de maneira notória? Muitos, certamente, não tantos quanto a areia da praia ou as gotas do mar, mas um número muito grande de pessoas é capaz de escrever bem, sim. Essas pessoas são potencialmente autores.
Mas aqui cabe a piada do título dessa crônica. Ceci ne pas un auteur, a paródia do título da célebre pintura de René Magritte: Ceci ne pas une pipe (isto não é um cachimbo). Embora um cachimbo esteja pintado na tela, aquilo ali não é um objeto real, mas uma representação dele que, por si, tem outra identidade, porque posso chamá-la de pintura, desenho, gravura. Mas não é o objeto. Não posso colocar fumo em sua cavidade e acendê-lo, às baforadas. Não é um cachimbo. Assim como eu não sou um autor. Sou escritor, de fato, domino a técnica, possuo alguma habilidade. Tenho até um livro publicado. Mas sob meu signo, não está, de fato, uma obra, um estilo, parece que não me filio a nenhuma tendência, não respondo, por assim dizer a uma demanda de produção literária específica. Não sou popular, não produzo coisas vendáveis, consumíveis. Meu nome não estará em histórias que se tornarão filmes, séries, por exemplo. Não assino roteiros cinematográficos ou argumentos de quadrinhos. Então, o que eu sou? Um nada ainda menor do que o sujeito que assina obras importantes. Isso que vos escreve, leitores, não é exatamente, um autor, nesses termos específicos. Mas apenas um ser escrevente.

Assim sendo, eu convido vocês a continuarem a ler meus textos. Eles são meus. Eu que escolherei suas palavras, títulos e eventualmente as imagens que possam vir a acompanhá-los, mas eles não pertencem a mim. Nem mesmo ao site que os hospeda. Esses textos pertencem a uma massa discursiva, um rio de enunciados: palavras, ideias, dizeres cujas margens são comprimidas por saberes, poderes, condições sociais e econômicas. Eu, recusando gentilmente o título de autor desses textos, sou um ponto por onde eles passam e, de certa forma, logram aparecer aqui. Não tenho posse alguma sobre as palavras do meu idioma, não sou dono de nenhuma das ideias que eu penso serem minhas. Apesar de aparecerem, assim do nada, na minha cabeça, elas são pensamentos que eu aprendi a ter, vivendo em grupo, em sociedade. Assim como a língua que eu uso para escrever, falar, pensar, as ideias que eu finjo ter, são na verdade, parte de um todo comunitário a que eu tenho acesso vivendo em sociedade. Nada mais que isso. Não pode ser outra coisa que não isso mesmo.
Nesse ponto, eu não tenho vergonha alguma de dizer que não sou eu que escrevo, mas a cultura que escreve por mim, ela me escolhe como vetor de algumas palavras, muitas delas repetidas. Há de lê-las em outras escritas melhores que as minhas e como eu não inauguro nada de novo, não trago nenhuma novidade específica sobre nada que possa estar sendo dito ou feito aqui, as minhas palavras também seguem quase mudas. É preciso um esforço hercúleo para que elas saiam do limbo do lugar comum. Esse esforço, nem sempre eu sei ter, nem sempre eu posso realizar. Então ficamos aqui. Você, leitor, lendo um não-autor, um ser que some detrás do já dito, do sempre dito, do mais bem dito por outro sujeito que teve o privilégio de ocupar um dos poucos espaços em que um indivíduo pode aparecer e trazer novidades no uso da linguagem. Assim surgiram Machados, Clarices, Drummonds, Adélias, Rosas e outros tantos da nossa língua. Assim surgem aqueles autores de livros famosos lidos aos montes por crianças, adolescentes e adultos que amam fantasia, histórias de amor ou ainda mesmo aventuras sem fim. Mesmo que reconheçamos que um ou outro nesse grupo seja famoso, rico, poderoso por causa do que escrevem, mesmo sua posição de autor é oca, vazia em si. Se um deles morre, outro pode ocupar seu lugar e, eventualmente, ocupa. A gente nunca se cansa de ler a mesma coisa, pois o segredo da cultura é esse mesmo, é repetir a si mesma, é falar de si por meio desses sujeitos. E se um deles cessa a atividade de falar, escrever, produzir imagens, pensamentos, outro ocupa seu lugar.
Um dia desses, um colega me falou que Machado de Assis é inigualável, sua arte maravilhosa e ao explicar o porquê de seu sucesso, ele, invariavelmente toca no assunto da sua formação como pessoa: foi muito pobre, filho de uma pessoa escravizada, quase não teve instrução formal quando criança e sua enorme erudição se deveu à genialidade que ele tinha em si. “Mas”, disse eu num dado momento, “se ele não fizesse parte do universo cultural que o cercava, como ele iria se fazer entendido, lido? Como seu pensamento iria ser comunicado?” Meu amigo parou um pouco e pensou, depois, lucidamente, me perguntou de volta: “Então é sobre isso que está falando? Eu pensei que não concordava que ele era um gênio”. Eu disse que concordava, que aplaudia de pé sua genialidade, até. Mas não deixava de compreender que existe algo maior que os sujeitos que passa por todos eles e os une como o fio que une as contas de um rosário, todos guiados pela mesma linha. Essa linha é a cultura, é o pensamento que flui no tecido social e emerge aqui, ali e acolá. Alguns pontos em que surgem são ocupados por sujeitos privilegiados. Machado de Assis era um deles, genial, capacitado e muito talentoso, a ponto de seus predicados pessoais conseguirem romper com a ordem que o silenciava por ser mínimo, pobre, negro e fadado a uma suposta vida sem importância. Mas, por outro lado, muitos dos indivíduos que ocupam esses lugares de sujeitos que têm voz, imagem, figura, espaço, posição e autoridade para falar, recebem essas autorizações sem precisarem ser tão geniais. Eles são apenas privilegiados por um sistema de classes, por posses, por condições que não são todos que têm. Mesmo que tenham talento incontestável, muitos que escrevem, que aparecem nas telas pelo mundo, que dominam os meios de produção simbólica da cultura, esses sujeitos privilegiados, são assim porque ocupam um espaço que já está marcado, muitas vezes determinado. E quem manda nesse espaço é, em muitos casos, quem possui os meios de produção da cultura.
Por isso não sou um autor de verdade, porque, apesar de insistir muito em escrever, não me vejo rompendo a bolha do silenciamento imposto pelo lugar comum. Isso não é um autor. E o que é um autor, então? Não importando quem, que nome, que pessoa portadora de que documentos, estilo, palavras-chave… um autor é, na verdade, uma porta de acesso ao discurso. Não importa o formato, a espessura, o material de que essa porta é feita. Quando discutimos a pessoa que escreve, em si, estamos discutindo isso: a cor da porta, seu formato, se sua maçaneta é dourada ou prateada. O importante, no entanto, é que, para além dos detalhes. Toda porta se abre e se fecha. Isso é um autor.
Por Alex Mendes
para sua coluna CECI NE PAS UN AUTEUR