Passei dias tentando encontrar um “gatilho” de inspiração como no meu último texto. Fiquei naquela sensação irritante de ter algo na ponta da língua e nunca conseguir dizer. Então acabei soterrado pelas minhas próprias expectativas.
O bloqueio criativo também não ajudou. Eu queria escrever, criar, transformar algo em texto… mas nada parecia bom o bastante. Pensei em falar sobre aborto, pois foi um assunto que caiu muito no meu colo ultimamente, existência, feridas da criação religiosa em pessoas LGBT, até sobre meu processo de investigação de autismo (que só começa mês que vem). No fim, pensar demais virou um grande nada.
A boa notícia é que a mente deu uma refrescada. Voltei a desenhar, a sentir vontade de criar, e até comecei a imaginar uns prints para a POCCON do ano que vem (que Cher me proteja). E aí me deu vontade de compartilhar um pouco dos mundos e personagens que venho construindo. Vai que você se identifica com algo e a gente vira amigo.
“Mas por que eu iria querer saber disso? Quem é você na fila do pão?”
Eu sei lá. Estamos perdidos no mesmo tiroteio.
Enfim, vamos ao mais recente: Cevalo.
Sempre gostei daquela estética demoníaca: peles coloridas, chifres, olhos brilhantes. Então me perguntei como seria o meu demônio. Uma criatura que representasse quem eu sou.
E assim nasceu Cevalo.
Ele começou com visual de demônio popular: chifres, asas e cauda por causa das minhas cicatrizes cristãs. Depois ganhou pernas de bode e chifres curvados, inspirado nos sátiros, porque arte e caos fazem parte de mim. A essência dele veio dos Jinn, seres ligados à criatividade e à capacidade de criar — igual a gente quando resolve fazer arte às três da manhã.
E aí veio a parte sexual. Sempre foi algo muito presente pra mim, seja pelo tabu, pelo fascínio, ou pela minha clássica frase “vontade de chupar a alma pelo “canudo””. Então fiz dele meio íncubo. Ficou perfeito: criativo, apesar de comum, intenso e sedutor.
E aqui entra o detalhe do nome.
Cevalo vem de cavalo mesmo. Porque meu nome significa “amigo dos cavalos”.
Sim, é só isso.
E antes que alguém pense errado: não, não nesse sentido.
Ou… quer dizer… depende. Porque amigo de “cavalos” (no sentido mais dotado da coisa) eu também já fui, né? A gente vive, a gente escolhe mal e a gente conta a história depois com risada nervosa e lembranças de batalhas intensas.
Mas enfim. Cevalo = cavalo. É meu jeitinho de colocar um pedacinho de mim nele de forma literal e metafórica (e safada, porque claro que sim).
Depois de criar o Cevalo, veio a pergunta que abriu o universo:
“Se o meu demônio nasce de mim, como seriam os das outras pessoas?”
Isso virou o “mundo cognitivo”, nome provisório do lugar onde essas criaturas vivem. Reinos, cidades, ilhas flutuantes — tudo moldado pelas vivências humanas que deram origem a cada ser. Traumas, alegrias, amores, cultura, medos — tudo vira aparência e personalidade.
Eu tava achando tudo super original, até meu irmão soltar: “parece Sandman”.
Pesquisei e quase tive um treco achando que tava plagiando sem querer. Mas continuei, porque apesar de algumas bases familiares, minhas criaturas têm histórias muito particulares. Além do que, após as polêmicas do Neil Gaiman, fico feliz de não ter conhecido algo eu poderia ser apaixonado, para me decepcionar por conta de atitudes do autor.
Então aqui estou, apresentando um pedacinho do meu demônio pessoal, e espero que vocês gostem dele e acolham ele em seus sonhos molhados.
Deixo abaixo um conto pra você conhecer o Cevalo mais de perto.
Cevalo e a “ideia”
O chão do mundo cognitivo estalava sob os cascos de Cevalo, cada passo reverberando como uma nota dissonante em uma sinfonia que ninguém mais ouvia. Suas patas de bode deixavam marcas irregulares no solo, e suas asas de morcego se dobravam preguiçosamente, as pontas roxas capturando fragmentos de luz que não deveriam existir ali.
Sua pele avermelhada parecia absorver o próprio espaço ao redor, enquanto os olhos roxos brilhavam como estrelas distorcidas em um céu turbulento. A floresta não era apenas retorcida—ela reagia a ele, folhas tremulavam, galhos se dobravam, e sombras pareciam fugir para longe, incapazes de acompanhar seu caos pulsante.
Um lampejo apagado chamou sua atenção: uma mancha cinzenta encolhida entre as raízes de uma árvore esquecida. Era uma fada, ou pelo menos o que restava de uma ideia inacabada. Não havia brilho, nem definição. Apenas um esboço do que poderia ter sido, condenado ao esquecimento antes mesmo de existir por completo.
Cevalo se aproximou, o olhar intenso e curioso. Sua presença fazia o ar vibrar com uma tensão que ele mesmo não parecia controlar.
— Você está morrendo devagar — disse, sem intenção de ser cruel. A voz dele soou como uma lâmina arranhando vidro, mas havia um traço inesperado de compaixão escondido ali.
A criatura piscou, a voz fraca como um sussurro afogado. — Ninguém… lembra de mim… eu sou… um erro…
Cevalo agachou-se com um movimento fluido, as garras quase tocando o solo, mas parando no último instante. Ele a observou como quem analisa um reflexo distorcido de si mesmo.
— Ideias inacabadas são esquecidas mais rápido. — O canto da boca dele se ergueu em um meio sorriso, mas seu olhar tremia com uma inquietação difícil de conter. — E tudo acaba quando… esquecem de você.
A fada tentou se afastar, mas suas asas cinzentas começaram a se desfazer em poeira, fragmentos de algo que nunca havia sido realmente sólido. Uma fração de cor — um azul pálido — cintilou por um segundo antes de desaparecer.
— Por quê… você se importa?
Os olhos roxos de Cevalo se estreitaram, a instabilidade interior refletida em um leve estremecer de suas asas. Por um instante, a tensão em seu corpo parecia prestes a explodir, mas ele respirou fundo, o caos recuando como uma maré forçada a obedecer.
— Porque eu fui… um erro completo — respondeu, a voz baixa, carregada de uma frustração contida que não era dirigida a ela, mas a si mesmo.
Ele estendeu a mão, as garras pairando acima da fada. Um toque seria suficiente para acabar com o que restava dela ou, talvez, para mudar aquilo.
— Escolha um nome. Um nome pode ser a linha entre ser esquecido e se tornar real.
A fada fechou os olhos, as bordas de sua forma oscilando, quase sumindo por completo. Quando sua boca se abriu, foi apenas um sussurro frágil:
— Murat…
Cevalo não respondeu de imediato, mas o pó cinza que cobria as asas da criatura brilhou com um tom pálido de azul. Sua mão recuou lentamente, e ele se pôs de pé, sem olhar para trás.
— Então seja Murat, o fragmento de todas as ideias esquecidas.
O mundo ao redor deles ficou mais nítido por um breve momento. Era sempre assim para Cevalo: o caos se alinhava em pequenos momentos de clareza, onde os sons e os brilhos cegantes se organizavam em significados.
A presença de Cevalo não alimentava Murat de energia, mas de significado. Uma diferença sutil que poucos notariam, mas que mudava tudo. Ser era o suficiente.
— Continue… sendo. — Cevalo disse, se afastando.
Enquanto desaparecia na névoa, um som reverberou atrás dele. Não um chamado, mas um reconhecimento. Uma batida única que só ele ouvia no compasso quebrado do mundo.
Respostas de 4
Gostei muito da história. Me fez refletir sobre o conceito de Sombra, na Psicologia Analítica. Enfim, fiquei com a cabeça a mil, aqui. Gostaria de ler mais sobre as aventuras de Murat em descoberta/criação de si!
Cevalos, é só mais uma das criações maravilhosas desses artista que amo, admiro e desejo que cresça cada vez mais. Parabéns Liipolly❤️
Muito rico no vocabulário ao mesmo tempo simples e complexo e ainda cheio de empatia e compaixão. Uma voz que ecoa para que os surdos da vida ouçam. O meu demônio pode mais que eu, fortalecido entre o bem e o mal que sou.
O texto é incrível, traz nuances, filosofia e existência, não fica a desejar para nenhum escritor do gênero.
Acho que nunca parei pra pensar na ideia de como seria o meu demônio ou criatura em uma outra realidade que representasse o meu mais íntimo.
Seguindo nessa pegada Cevalo da coisa, um eu no mundo cognitivo, entendo que não tenho um nome formado, mas consigo criar em minha mente o começo de algo, talvez um ser sedutor que goste de brincar com a comida até o momento certo pro abate ou uma criatura que te hipnotize com detalhes, ações ou até pensamentos impuros e faça com que você q deseje e não viva sem ela.
Tudo muito raso e por enquanto é só o começo, talvez eu desenvolva essa ideia e crie algo interessante.
Um ótimo conto, parabéns!