Casa com cheiro de pitanga


Eu moro na Mooca desde sempre.
Antes dos prédios altos, antes das farmácias que pareciam padaria, antes das padarias que viraram estacionamento.
Quando eu era pequena, a rua era outra. As pessoas se conheciam pelo nome, as sacolas de feira passavam de mão em mão, e o cheiro de pão fresco se misturava com o som das novelas vindo das janelas abertas.

Hoje a rua tá cheia de placas.
Vende-se. Aluga-se. Constrói-se.

A Mooca virou promessa de investimento.
A terra que antes tinha quintal agora é cimento.
Um prédio atrás do outro. Fachadas de vidro espelhado tentando apagar as hortas de manjericão, as goteiras da caixa d’água, os nomes de cachorro escritos no portão.

E eu fico.
Eu e minha casa.

Minha casa que já viu tanta coisa — aniversário de irmã com guaraná quente, briga de irmão no portão, cheiro de roupa limpa, pranto engolido no travesseiro.
Minha casa que tem rachadura, barulho de assoalho, porta que não fecha direito, mas que me entende como ninguém.

Plantei uma pitangueira na frente.
Achava bonito ver as folhas vermelhas no outono, e as crianças da vizinhança pegando fruta direto do galho.
Hoje ninguém mais colhe pitanga.
Nem olha.

Outro dia a vizinha podou ela torta. Disse que sujava a calçada.
Tive vontade de abraçar o tronco e pedir desculpa à árvore.

Tenho medo.
Medo real, físico, de um dia abrir os olhos e minha casa não estar mais aqui.
De um trator chegar com sua boca de ferro e arrancar o que ainda resta da minha história.
De me tornarem “deslocada”, “resistente demais”, “ultrapassada”.

Mas o que ninguém entende é que eu não moro só em quatro paredes.
Eu moro nos ecos da minha infância, no jeito que a luz bate no quarto as quatro da tarde, no caminho entre a cama e a geladeira de madrugada.
Eu moro na pitangueira, eu moro na Mooca.

A cidade não para.
Ela cresce, se reinventa, devora, substitui.
Mas eu ainda estou aqui.

Talvez um dia eu vá embora.
Talvez por vontade, talvez por cansaço.
Mas enquanto eu puder, vou resistir com as raízes da minha árvore e a memória da minha rua.

Porque tem coisas que nem o concreto engole.

Foto de Emanuel Bento 

Uma resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *