CAFÉ DA MANHÃ LOGO CEDO

Por que é melhor tomar café da manhã logo cedo? Isso tudo tem a ver com o cortisol, insulina e outros hormônios do corpo. Recentemente, descobrimos que o equilíbrio hormonal é muito importante para o corpo humano. Mas tem algo que é mais importante do que o equilíbrio hormonal. É ter condições financeiras de tomar café da manhã todo dia. É ter tempo de acordar cedo, fazer uma refeição decente, socializar com a família ou com seus animais de estimação. É ter tempo de cuidar da casa, sair sem pressa, andar até o carro, ou ponto de transporte coletivo, ir ao trabalho ou continuar a rotina sem maiores problemas.

O corpo está preparado para metabolizar nutrientes de maneira mais eficiente entre sete e oito horas da manhã. Nessa hora, muitos já estão com as mãos ocupadas, sujas, calejadas, doendo. Eu, mesmo, nesse horário, já comecei a trabalhar. Meu café da manhã acontece antes das seis, pois moro longe do meu trabalho. Centenas, milhares como eu, às sete, já estão com o metabolismo ocupado e com a cabeça cheia de preocupações porque, ufa… viver custa isso tudo. Eu fico, depois de ter acesso a esse tipo de informação sobre a saúde, muito preocupado.

Depois de alguns minutos dentro do transporte coletivo, vendo o céu aos poucos se azular com a luz de um novo dia, eu chego a um terminal de ônibus. Lotado de trabalhadores, indo e vindo, o local está em reformas, todo retalhado, quebrado aqui e acolá. Tapumes, plataformas improvisadas, um deck de madeira para a gente usar como passarela e, logo ali: um, dois, três lugares diferentes vendem café da manhã aos trabalhadores. Garrafas térmicas enchem copos fumegantes de café, chá, acompanhados de leite, biscoitos, pães e outros quitutes doces e salgados. A maioria dos trabalhadores vai metabolizar seu desjejum na hora certa porque precisa daquela energia para trabalhar duro durante a manhã e a tarde. Alguns estenderão essa jornada à noite com jornadas duplas, triplas, como as mulheres mães e donas de casa.

Metabolizar na hora certa é mais que preciso para todos nós que precisamos do corpo para trabalhar. Mais importante que manter o nível correto de cortisol e insulina, mais interessante que manter o hormônio do estresse funcionando bem no corpo, mais importante que se quebrar o jejum noturno na hora certa, com certeza, é sofrer os efeitos benéficos de tudo isso. Portanto, mais do que necessário é acordar bem, ter o que comer, porque esse “de comer” de hoje foi o resultado de uma luta quase inglória que lutamos até ontem. E o amanhã está sendo conquistado agora. Parece poético, mas até certo ponto, isso é, de fato, bem trágico.

Vivemos sob a constante pressão de não conseguirmos aquilo que precisamos e, por mais que pareça ser positivo ver a fila grande de pessoas comprando sua primeira refeição do dia, tomada in itinere, é um pouco dramático se pensar que há problemas nisso. Muitos não têm tempo hábil para se dedicar ao ato de se alimentar corretamente em seus lares. Nisso eu me sinto um pouco privilegiado, pois acordo bem mais cedo para ter tempo de ir à cozinha e preparar minha primeira refeição. Já pensei em abdicar disso e, como muitos ali, comprar itens para comer, mas penso na minha saúde.

Faço questão de comer frutas, de tomar café fresco e de fazer isso sem pressa, mesmo que eu fique em pé na cozinha durante o processo. É uma questão de qualidade de vida e, de repente, eu me sinto privilegiado por fazer uma coisa tão corriqueira e normalizada. Há muita gente, no entanto, que está abaixo de mim e que, infelizmente, está abaixo até mesmo daquele que come correndo entre uma linha de ônibus e outra. Há quem não tenha o que comer.

Ter o que comer não deveria ser um privilégio. Também não deveria ser um privilégio ter esse tempo disponível, todos deveríamos ter a oportunidade diária de fazer nossas refeições num ambiente doméstico, pacífico e calmo. Mas isso é negado a muitos infelizmente, quando o essencial, o alimento, também o é. De qualquer forma, é preciso que o progresso material do mundo comece a criar em todos nós, também, a urgência maior por um progresso uniforme, para todos.

Imagem de Daniel Dan outsideclick por Pixabay

Os benefícios, os lucros do trabalho humano não podem se concentrar nas mãos de poucos e condenar uma imensa maioria ao trabalho estressante, que tira o tempo e o gosto pela vida. Por isso, é interessante que questionemos a jornada 6X1, os regimes de trabalho precarizado disfarçados de empreendedorismo e comecemos a exigir justiça para os que de fato sustentam o mundo. O esforço dos pequenos é que mantém os grandes de pé. Isso precisa ser revisto. A melhor forma, certamente, é se questionar, acima de tudo, os privilégios dos maiorais. Fazer isso com gentileza e de modo pacífico é um desafio. Um primeiro passo é garantir que os direitos, mesmo dentro de um sistema exploratório, não diminuam, não retrocedam um centímetro sequer.

Por Alex Mendes

para sua coluna CECI NE PAS UN AUTEUR

Foto de capa: Imagem de sara Alaa por Pixabay

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