A bipolaridade não é um fator específico de neurodiversidade, mas um transtorno psiquiátrico que requer cuidados médicos, entre eles tratamento com remédios, terapias e outros. Bipolares tendem a ser subdiagnosticados quando chegam a um médico, mas até chegar lá, a caminhada pode ser uma Via Dolorosa, que pode incluir, entre outras coisas, sério risco à vida de quem possui o transtorno.
Uma das coisas que dificultam o diagnóstico da bipolaridade, num primeiro momento, é a confusão entre bipolaridade e outros transtornos semelhantes. De semelhante forma, algumas características do transtorno podem se confundir com o comportamento humano normal, sendo difíceis de ser percebidos. Bipolares podem nunca entrar em surto de mania aguda, em que perdem completamente a noção da realidade. Mas ainda assim, podem ter comportamentos patológicos que se confundem com o comportamento ajustado em sociedade. Há pessoas verborrágicas, agitadas, bem-humoradas, com comportamento acintoso, ousado, dotados de grande energia. Nem sempre isso pode ser associado a um comportamento relativo ao adoecimento mental. Por isso, em alguns casos, o adoecimento precisa piorar muito para ser descoberto.
O idiota, desenho de Goya. Disponível em: Fundación Goya en Aragón.
A bipolaridade, ou os transtornos bipolares, não são uma característica benéfica que traz vantagens ao indivíduo que as possui. Ao contrário. Geralmente a condição produz enorme prejuízo social. O conceito de bipolaridade como espectro, por sua vez, não diminui a condição patológica dos que o possuem, mas apontam para uma diversidade de sintomas e comportamentos, todos a necessitar de uma visão medicalizada para se estabelecer.
No entanto, a ideia de que a bipolaridade existe e é um fator de diversidade caiu no gosto popular. O adjetivo “bipolar” passou à fala popular, aumentando a aplicação desse termo, como um novo e mais adequado sinônimo para “louco”, “louca” e seus derivados e congêneres. No entanto, a aplicabilidade de um conceito na fala popular não significa certeza, mas o contrário: aumenta as dúvidas quanto a real existência de um mal que se baseie profundamente na variação do humor das pessoas. Isso tem lá as suas consequências.
A bipolaridade ainda precisa de sintomas extremos ou um longo histórico de prejuízos emocionais e sociais para se estabelecer como real. Por outro lado, a vulgarização do termo indica que muitos comportamentos normalizados podem se confundir com a patologia. Isso, no entanto, não alivia nada para o sujeito que adoece. Desde o início, a bipolaridade é entendida como psicopatologia grave, sendo classificada, inicialmente como loucura, insanidade ou mesmo psicose.
O surgimento de antipsicóticos e medicamentos mais específicos, além de pesquisas na área da psiquiatria, humanizaram o tratamento e trouxeram qualidade de vida aos doentes desse transtorno. A compreensão do adoecimento mental como um resultado também de um processo de normalização forçada do comportamento humano mostra outros jogos de poder por detrás da compreensão da bipolaridade. Desde os primórdios da medicina moderna, há um esforço muito grande de normalização do comportamento humano, visado a melhor utilização das forças de trabalho no capitalismo. A relação entre produtividade e normalidade se enraizou na cultura e atravessa todos os discursos que constituem a humanidade. A bipolaridade, em suas especificidades, não condena o indivíduo a uma vida de exceção. Seu controle permite a entrada do corpo bipolar no regime dos usos para o trabalho e o prazer normalizado.
No entanto, sem tratamento, a bipolaridade produz inadequações drásticas porque torna o corpo improdutivo. Sem tratamento, o indivíduo bipolar corre grave risco de vida. O transtorno afetivo bipolar é um dos mais letais no campo da saúde mental. A taxa de autoextermínio entre bipolares pode ser de seis a sete vezes maior que na população em geral. Além dos perigos aparentes, o transtorno bipolar causa incapacidade, pois afeta o juízo, a concentração, o uso da linguagem e, em casos extremos, a coordenação motora e outros usos do corpo. O tratamento pode ser incapacitante, até certo ponto, pois requer repouso e, em alguns casos mais graves, hospitalização.
Se o corpo é improdutivo, ele vira exceção, precisa ser recategorizado, reconduzido à normalidade. Muito da saúde se trata de renormalizar, readaptar, reformatar. O tratamento da bipolaridade visa isso, acima de tudo. O remédio, não apenas salva vidas. Ele reconduz à vivência social. No entanto, a tarefa do bipolar em tratamento é maior do que estar com o corpo são. Muitos que melhoram com o uso da medicação têm uma tarefa muito grande: reconstruir-se, ressignificar-se, curar os traumas e sarar dos efeitos da depreciação social da qual todo doente mental sofre. Nesse processo, a recidiva do mal pode acontecer.
A pessoa com bipolaridade pode sofrer imensamente com os males próprios do transtorno e com seus impactos na vida em sociedade. Desse modo, além de passar pelo adoecimento, a pessoa ainda pode sofrer com o estigma, o preconceito e com o entrecruzamento entre a bipolaridade e outros transtornos e condições específicas. Dessa forma, a bipolaridade pode se apresentar em comorbidade com outros transtornos adquiridos ou intensificar dilemas, problemas, acentuar estados mentais de desconforto e inadequação.
Um olhar mais delicado sobre o espectro da bipolaridade mostra que muitos bipolares também são considerados “anormais” por mais de um motivo, o que pode sugerir que o adoecimento também pode ser adquirido, ou que o estigma da bipolaridade se marca mais sobre corpos que já seriam exceção mesmo se não apresentassem o transtorno.
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Acima de tudo, a bipolaridade é um problema a se enfrentar que dificulta a vida das pessoas de todos os gêneros e identidades, apresentando-se como um desafio tanto à normalidade e aos processos de normalização, quanto à compreensão humana sobre seus efeitos a curto, médio e longo prazo. A grande taxa de mortalidade do transtorno sugere, entre outras coisas, que os bipolares sofrem muito, ainda que em tratamento, e talvez já seja o momento de desencarcerar a bipolaridade dos crânios. Talvez já seja hora de se parar de determiná-la como um problema de neurônios e neurotransmissores, apenas e passar a compreender como a nossa cultura e sociedade a objetifica. O que há de intolerável no comportamento bipolar que ofende, agride ou desafia tanto a normalidade, a ponto de se retirá-la dos hospícios e a submeter a pesados tratamentos medicamentosos? Que alternativas poderiam surgir a isso? Fica a pergunta ainda sem muitas respostas além daquilo que a medicina mostra por suas práticas.
Por Alex Mendes
para sua coluna O Poder Que Queremos