Após a XXIII Parada Diversidade Sexual do Ceará, em Fortaleza, observei a pouca representatividade e presença dos ursos nas ruas. Afinal de contas, quem são? O que comem? Onde estão?
É preciso lembrar que essa subcultura do universo LGBTI+ não surgiu agora. Pelo contrário. É uma comunidade específica, com códigos, eventos, referências, consumo e hábitos próprios. O termo bear, de origem norte-americana, está relacionado aos pelos e a barba. Ou seja, tal como os ursos, os homens gordos, peludos e altos, geralmente com comportamentos contidos, masculinizados, representam uma quebra dos padrões da beleza gay da época.
A cultura ursina tem 45 anos, oficialmente! Foi em 1979 que a revista The Advocate publicou, pela primeira vez, descrições mais claras e precisas dessa subcultura, que já existia muito antes da publicação citada. Do ponto de vista sexual, os ursos se tornam atrativos para aqueles que procuram homens fortes, másculos, e, por isso, o estilo lenhador se tornou um fetiche. A cultura bear, por causa disso, está diretamente vinculada ao trabalhador braçal e operário, por isso, musculoso, o qual atrai a atenção de outros homens de padrão e comportamento semelhante. É também atribuído aos bears o fato de serem mais isolados, não eram tão presentes nas baladas gays, por não se identificarem com os rigorosos padrões estéticos dos homens gays do final da década de 1970: jovens, magros, poucos ou nenhum pelo, atléticos, e despreocupados em transitar tanto no universo masculino como feminino.
Nos anos 80 a cultura bear expandiu. Foi em São Francisco que a estética ursina se familiarizou com as motos e as roupas de couro. Dali surgiram os primeiros bares urbanos. Sim… bares… Os bears eram muito mais fáceis de serem encontrados em meio a churrascos, cervejas, com ambientes isolados e escuros – ou seja, em cavernas.
Foi somente em 1995 que Craig Byrnes criou a bandeira ursina. Ela tem 7 cores em 7 faixas, na seguinte ordem de aparência: marrom escuro, laranja, amarelo dourado, bronzeado, branco, cinza e preto. Aqui, há um ponto importante: as cores da bandeira ursina representam os diferentes tipos de pele e pelo de ursos! Ou seja, não foi projetada tendo em vista a diversidade étnica da pele humana. A meta era mostrar a diversidade de tipos de ursos, reforçando as características do grupo e qual perfil se identificavam: maduros, grisalhos, castanhos, pretos, filhotes… Ressalta-se aqui a importância do movimento ursino em ampliar visibilidade a favor dos homens maduros e grisalhos, em oposição aos padrões da juventude gay da época. Da mesma forma, como foi dito antes, questionar a gordofobia estabelecida nos mesmos moldes.
A bandeira tradicional do mundo gay, a bandeira do arco-íris, foi criada em São Francisco, em 1978, por Gilbert Barker, contendo as tradicionais 8 cores: rosa, representando sexualidade; laranja, saúde; amarelo, sol; verde, natureza; turquesa, magia e arte; índigo, harmonia e serenidade; e violeta, espírito. A bandeira originalmente representava ideias, não definia ou padronizava ninguém. Mas, essa decisão resultou em foco mais, principalmente, para a comunidade gay, surgindo a necessidade de abrigar mais amplamente a diversidade sexual existente.
Foi em 2018 que o designer norte-americano Daniel Quasar apresentou uma alternativa mais inclusiva, inserindo as cores branca, rosa e azul, para representar o orgulho trans, e as listras marrom e preta, para simbolizar a luta antirracista. A referida inclusão foi importante e necessária, principalmente pelo fato de fortalecer o extraordinário debate referente as interseccionalidades inerentes ao movimento LGBTQIAPN+. E não deveria ser diferente. Mas, ao circular em meio a gigantesca fauna LGBTI+ observo que as pessoas estão esquecendo, desconhecendo e apagando a bandeira ursina. Não devemos apagar nossas origens, lutas e conquistas. A nova bandeira pode cobrir e proteger a todxs nós! Contudo, é preciso dizer: em muitos sites, ao descreverem as cores da bandeira LGBTQIAPN+, a cultura ursina não é mencionada.
Verdade seja dita, a diversidade ursina tem se ampliado fortemente. A presença de homens pardos, negros e indígenas tem demonstrado a força da cultura bear, mas a mesma não pode ser esquecida. As cores dos ursos devem ser diariamente lembradas junto ao combate ao racismo. Ambas as conquistas e lutas precisam ganhar visibilidade. Então, proponho lembrar que as faixas marrom e preta representam os ursos e o movimento antirracista.
Respostas de 2
Importantíssima a sua reflexão. Precisamos entender que as identidades dentro do espectro LGBTQIAPN+ não surgiram num piquenique ao ar livre. Mas da luta e da contestação. O termo GAY é muito amplo e não só inclui muita coisa, como exclui e dificulta a existência dentro de um sistema cultural muito hostil à diversidade. Precisamos celebrar a cultura bear dentro desse sentido de resistência a um padrão branco, magro, elitista e desconfortavelmente acomodado da existência gay burguesa do final do século passado. Por abrir um espaço grande ao corpo real, para a aparência de trabalhador e a uma masculinidade que aparenta força, a cultura bear não faz concessões à heterossexualidade. Ao contrário. Ela a perverte de maneira produtiva, pois tira a figura do homem da normalidade imposta por essas relações de gênero. Também desnaturaliza o espaço de subjetividade gay dos anos de 1970. Exatamente como você falou. A identidade branca, magra, atlética e afeminada não era o foco do desejo de se ser, mas uma acomodação aos espaços permitidos pela heterossexualidade. Era onde eles colocavam os gays e pessoas trans para justificar não a sua aceitação, mas a continuidade de suas criticas e intolerâncias. Até hoje choca , transgride e incomoda quando um gay é o que ele quer ser e não apenas aquilo que querem que ele seja. No entanto, precisamos lutar por todos. Não importa a identidade. E a cultura bear existe para isso. Há lugares e possibilidades dentro do espectro gay e os bears surgiram da resistência pautada no desejo de ser, na verdade de si. Por isso refletir sobre a história dos bears nos dá motivos para combater preconceitos internos e externos com coragem. Precisamos enfatizar isso. Mais que mostrar os ursos como exemplo de diversidade contra padrões de beleza. Ursos não existem para serem a ala “feia” do mundo gay, mas para exemplificarem que, uma vez que o desejo nos libertar, outros poderão também questionar em prol de uma existência mais ética.
Sim… Importantes reflexões e ensinamentos. Um grande desafio da cultura Bear foi enfrentar o lugar imposto sobre os gays pela heterocisnormatividade. Da mesma forma, romper com a cultura burguesa que normatiza padrões, medidas e comportamentos é uma luta constante. Obrigado