A cerimônia de abertura das Olimpíadas de 2024 gerou uma significativa controvérsia ao ser comparada por alguns críticos à representação da Última Ceia. A performance, cujo intuito era celebrar a diversidade e a inclusão, foi considerada por setores conservadores como uma blasfêmia, acusando os organizadores de desrespeitar símbolos religiosos sagrados. Imagens e cenas da cerimônia mostraram uma mesa longa com atletas e dançarinos em posições que lembravam a famosa pintura de Leonardo da Vinci. Esse episódio levantou debates acalorados sobre liberdade artística, respeito às crenças religiosas e os limites da interpretação criativa em eventos de grande visibilidade global.
Essa não foi a primeira vez que uma representação artística gerou controvérsia. Em 1989, o carnavalesco Joãosinho Trinta, da Beija-Flor de Nilópolis, causou alvoroço com o desfile “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia”, ao apresentar Cristo como um mendigo em uma alegoria no Carnaval do Rio de Janeiro. A imagem, uma crítica contundente à desigualdade e marginalização, foi considerada ofensiva pela Igreja Católica e setores conservadores, que a acusaram de blasfêmia. Sob pressão, Joãosinho cobriu a figura com um plástico preto, mas deixou uma faixa com a mensagem: “Mesmo proibido, olhai por nós”. Esse gesto se tornou um símbolo de resistência artística e crítica social, destacando a tensão entre liberdade de expressão e sensibilidade religiosa, além da coragem de Joãosinho em abordar questões sociais no Carnaval.
Em 2020, a escola de samba Mangueira provocou polêmica com seu enredo “A Verdade Vos Fará Livre” no Carnaval carioca. O desfile incluiu uma alegoria que retratava Jesus como uma figura transgênero crucificada, abordando temas de preconceito e inclusão social. A intenção era provocar reflexão sobre aceitação e respeito à diversidade, mas a representação gerou reações intensas, tanto de apoio quanto de críticas, especialmente de grupos religiosos que consideraram a imagem ofensiva. A Mangueira defendeu a representação como um ato de resistência e promoção dos direitos humanos, ressaltando a tensão entre liberdade artística e sensibilidade religiosa, além de reforçar o papel do Carnaval em debater questões sociais cruciais.
A Última Ceia, a última refeição que Jesus Cristo compartilhou com seus doze apóstolos antes de sua crucificação, simboliza para o cristianismo a instituição da Eucaristia. Este ritual representa a comunhão dos fiéis com Cristo através do pão e do vinho, que simbolizam seu corpo e sangue. Esse evento marca a Nova Aliança e reafirma o sacrifício de Jesus pela salvação da humanidade, sendo central na fé cristã. A Última Ceia é relatada nos Evangelhos de Mateus (26:17-30), Marcos (14:12-26), Lucas (22:7-23) e é mencionada no Evangelho de João (13:1-30), que oferece um relato mais detalhado dos eventos e ensinamentos de Jesus durante a refeição.
A Última Ceia é lembrada em rituais cristãos até hoje, especialmente na missa católica e em cultos protestantes. Durante a celebração eucarística, o pão e o vinho são consagrados e consumidos pelos fiéis, simbolizando o corpo e o sangue de Cristo, conforme instituído por Jesus na Última Ceia. Este rito central, conhecido como Comunhão ou Santa Ceia, representa a união dos cristãos com Cristo e entre si, reforçando a memória do sacrifício de Jesus pela humanidade. Além disso, o ato de partilhar o pão e o vinho renova a aliança entre Deus e os fiéis, fundamentando a prática e a fé cristã.
Vários artistas renomados pintaram versões da Última Ceia além de Leonardo da Vinci. Andrea del Castagno (1447) criou uma das primeiras representações renascentistas da Última Ceia, localizada no refeitório de Sant’Apollonia em Florença. Domenico Ghirlandaio (1480) pintou a Última Ceia no refeitório da Igreja de Ognissanti, também em Florença. Pietro Perugino (1493-1496) criou uma versão no refeitório do Convento de Fuligno, em Florença. Tintoretto (1592-1594) pintou uma versão dramática e dinâmica da Última Ceia, localizada na Basílica de San Giorgio Maggiore, em Veneza. Salvador Dalí (1955), em sua versão surrealista intitulada “O Sacramento da Última Ceia”, exposta na Galeria Nacional de Arte em Washington, D.C., demonstram a influência duradoura e a importância do tema na história da arte.
Os símbolos circulam no imaginário cultural, carregando significados profundos que transcendem épocas e lugares. Ao longo do tempo, esses símbolos são ressignificados, ganhando novos sentidos conforme são reinterpretados por diferentes culturas e contextos históricos. O que uma vez representou um conceito específico pode assumir novas conotações, refletindo mudanças sociais, políticas e religiosas. Por exemplo, a cruz, inicialmente um instrumento de execução, transformou-se no símbolo central do cristianismo, representando fé e redenção. Essa dinâmica mostra como os símbolos não são estáticos, mas vivos e mutáveis, moldados continuamente pela interação entre passado e presente, tradição e inovação.
Os símbolos no imaginário cultural, ressignificados ao longo do tempo, se relacionam com o conceito de Pathosformel[1] de Aby Warburg e com a teoria do inconsciente coletivo e dos arquétipos de Carl Jung[2]. Pathosformel refere-se a gestos emocionais recorrentes na arte, atravessando épocas e culturas, assim como os arquétipos junguianos, que são padrões universais presentes no inconsciente coletivo. Esses símbolos, como a cruz, evoluem em significado conforme são reinterpretados por diferentes contextos históricos, refletindo os arquétipos que ressoam com a experiência humana universal. Tanto Warburg quanto Jung mostram que certos motivos emocionais possuem uma carga simbólica duradoura, exemplificando a persistência e a transformação contínua dos significados simbólicos.
A cerimônia olímpica reutilizou o simbolismo da Última Ceia, um poderoso arquétipo cristão, reinterpretando-o em um novo contexto. Isso demonstra como os símbolos e gestos carregados de significado emocional podem ser adaptados para refletir as sensibilidades contemporâneas. A performance não apenas evocou a memória cultural do evento religioso, mas também o ressignificou, propondo uma nova leitura. Assim, conforme Warburg e Jung, a performance exemplifica a contínua transformação e adaptação dos símbolos no imaginário cultural, mantendo a essência emocional dos arquétipos enquanto respondem às novas realidades sociais e culturais.
A Última Ceia no Evangelho pode ser vista como uma ressignificação de rituais e práticas de culturas pagãs anteriores ao cristianismo. Por exemplo, banquetes sagrados em cultos extáticos, como os cultos de Dionísio e Mitra, populares no mundo greco-romano, envolviam banquetes rituais onde os participantes consumiam alimentos e bebidas que simbolizavam a divindade, criando uma união mística com o deus. No antigo Egito, durante as festividades de Osíris, as pessoas participavam de refeições sagradas que simbolizavam a morte e a ressurreição do deus, refletindo temas de renovação e vida eterna. Em muitas culturas, como a suméria e a mesopotâmica, o sacrifício de animais e a subsequente partilha da carne em um banquete religioso simbolizavam a união entre os deuses e os adoradores. Esses exemplos mostram como a Última Ceia pode ter incorporado e ressignificado elementos de práticas religiosas anteriores, adaptando-os ao contexto cristão para transmitir seus próprios significados teológicos e espirituais.[3]
A controversa apresentação, na realidade, teria utilizado obras que fazem referência ao banquete dos deuses do Olimpo, como o quadro “O Banquete dos Deuses” de Jan van Bijlert e “A Festa dos Deuses” do italiano Giovanni Bellini. Segundo o cerimonialista e diretor criativo Thomas Jolly, a “ideia era criar uma grande festa pagã ligada aos deuses do Olimpo”. Jolly explicou em uma entrevista ao canal francês BFM no último domingo (28/7) que “Dionísio aparece nessa mesa porque ele é o deus da festa, do vinho, e pai de Sequana, a deusa relacionada ao rio Sena”.[4]
A escolha de um rito pagão simbolizaria um retorno às raízes ancestrais da humanidade, destacando a conexão com a terra e os ciclos naturais. Inspirada na obra de Rafael, a performance poderia incorporar elementos estéticos e simbólicos do Renascimento, enfatizando a harmonia entre arte, natureza e espiritualidade. Esse enfoque contrastaria com uma narrativa cristã tradicional, propondo uma celebração universalista que abraça a pluralidade de crenças e tradições, promovendo um sentimento de união global através da diversidade cultural e religiosa.
A percepção de blasfêmia em relação à performance artística das Olimpíadas de 2024 pode ser vista como resultado de um fundamentalismo cultural e religioso que literaliza os símbolos e ignora sua dinâmica evolutiva. Fundamentalismos tendem a fixar os significados simbólicos de forma rígida, não reconhecendo que os símbolos culturais são fluidos e sujeitos a ressignificações. A leitura fundamentalista vê a performance como uma profanação de maneira literal, sem levar em conta sua dimensão simbólica. A falta de imaginação e compreensão acerca da natureza simbólica impede de enxergar além das aparências. Esse comportamento é recorrente entre muitos religiosos que ainda interpretam os textos bíblicos de forma nítida, sem reconhecer seu caráter metafórico.
É muito provável que o fundamentalismo cultural e religioso, juntamente com a tendência à literalização, são expressões de um projeto político de poder que busca controlar e homogeneizar sociedades. Ao promover uma interpretação rígida e inflexível das tradições de símbolos e textos sagrados, esses movimentos impõem normas e valores específicos, silenciando a diversidade cultural e religiosa. Essa estratégia reforça estruturas de poder autoritárias, legitimando a exclusão de vozes dissidentes e oprimir grupos minoritários. Em essência, ao estreitar a compreensão e prática cultural e religiosa, o fundamentalismo serve como ferramenta de dominação e controle, consolidando o poder político sob a fachada de preservar a “pureza” cultural ou espiritual.
Carl Gustav Jung, em Resposta a Jó[5] , salienta que a ênfase literal na religião está aniquilando-a porque tudo está fora da esfera subjetiva. Jung critica a interpretação literal que não valoriza a experiência religiosa e limita a compreensão mais profunda. A polêmica aprofunda a diferença entre uma leitura literal e uma interpretação simbólica da fé. A acusação de blasfêmia reflete uma resistência a aceitar que símbolos culturais são dinâmicos, mudando conforme as sensibilidades e contextos históricos, e não permanecendo estáticos e literais.
A despeito de o desfile da Beija-Flor em 1989 ter se transformado em um símbolo de resistência artística e crítica social, destacando a tensão entre liberdade de expressão e sensibilidade religiosa, a vencedora do Carnaval do Rio de Janeiro naquele ano foi a Imperatriz Leopoldinense, com o samba-enredo “Liberdade, Liberdade, Abre as Asas sobre Nós!” composto por Niltinho Tristeza, Preto Jóia, Vicentinho e Jurandir. O desfile, assinado pelo carnavalesco Max Lopes e interpretado por Dominguinhos do Estácio, homenageava os cem anos do golpe (denominado pela história oficial de proclamação) republicano no Brasil e a abolição da escravidão, mencionando a Lei Áurea assinada pela Princesa Isabel.
O samba-enredo, embora um sucesso, enfrentou críticas por celebrar a história oficial e as elites, negligenciando a resistência popular. Essas críticas ressoam com a proposta de Walter Benjamin de “escovar a história a contrapelo“[6], que propõe uma leitura crítica destacando as vozes dos oprimidos e as lutas marginalizadas. Benjamin argumenta que é essencial resgatar as narrativas silenciadas pela historiografia oficial, promovendo uma visão inclusiva da história, reconhecendo as injustiças e os esforços de resistência dos grupos subalternizados.
Apesar da importância da crítica, que destaca a necessidade de olhar a história a partir dos subalternizados em busca de sua emancipação, o refrão do samba “Liberdade, Liberdade! Abra as Asas Sobre Nós. E que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz” revela a potência da beleza artística criativa, fruto da liberdade.
A liberdade, a beleza, a imaginação e a criatividade são asfixiadas pela visão fundamentalista que vê nas ressignificações culturais uma violação sagrada, não compreendendo a natureza mutável dos símbolos e a dinâmica dos processos culturais. A falta de compreensão acerca da natureza simbólica dos episódios impede os fundamentalistas de enxergar além das aparências.
O refrão “Liberdade, Liberdade! Abra as Asas Sobre Nós” da Imperatriz Leopoldinense ressignifica o conceito de liberdade ao incorporar tanto a celebração da história oficial quanto a aspiração por uma igualdade genuína. Esse refrão, assim como o desfile da Beija-Flor no mesmo ano, que também abordou temas históricos, reflete uma ressignificação cultural que adapta simbolismos tradicionais para novos contextos, destacando a importância da liberdade e igualdade na narrativa contemporânea.
Assim como a Última Ceia pode ser uma ressignificação cultural, a performance olímpica ressignificou a Última Ceia, adaptando seu simbolismo a um novo contexto contemporâneo. A performance apresentada na abertura dos Jogos Olímpicos de 2024 desperta a resistência criativa e a potência da imaginação.
“Liberdade, liberdade! Abre as asas sobre nós”
Jorge Miklos
Psicólogo e supervisor clínico na abordagem analítico-integrativa. Bacharel em história, ciências sociais e psicologia. Especialista em psicologia junguiana. Mestrado em ciências da religião e doutorado em comunicação. Docente de psicologia analítica, supervisor clínico, mediador de grupo de estudos no INSTITUTO FREEDOM (SP). Supervisor da Clínica Solidária do Instituto de Imaginário. Professor Convidado do CEJAA – Centro de Estudos Junguianos Analistas Associados (RJ). Membro Associado do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP). Habitante da 0CA JUNGUIANA. Autor dos livros: Ciber-Religião: a construção de vínculos religiosos na cibercultura (Ideias e Letras, 2012); Diálogos dos Deuses, Direitos dos Homens (Editora Plêiade, 2013); Cultura e Desenvolvimento Local: Ética e Comunicação Comunitária (Saraiva, 2015); Mediação de Conflitos (Expressa, 2020); Veredas do Sagrado: interfaces entre Imaginário, Ecologia e Religião (Humanitas, 2021), Emergências sistêmicas: civilizações transitórias em diálogos transculturais (Anita Garibaldi, 2022); Espíritos Utópicos: a regeneração do comum (2023) e de vários artigos publicados em periódicos científicos. Pesquisa a interface entre Psicologia Analítica e Complexos Culturais. Suas reflexões abordam questões contemporâneas como: mito, literatura, produção audiovisual, transpolítica, masculinidades, religião, vida digital.
Daniela e Moura Barbosa
Geógrafa e Especialista em Psicologia Analítica. Analista Junguiana.
[1] Warburg, Aby. The Renewal of Pagan Antiquity: Contributions to the Cultural History of the European Renaissance”. Getty Research Institute, 1999.
[2] JUNG, C. G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. (OC 11/6). Petrópolis: Vozes, 2014.
[3] HILLGARTH. J.N. Cristianismo e Paganismo: 350-750 A Conversão da Europa Ocidental. São Paulo: Madras, 2004.
[4] Fonte: https://www.metropoles.com/entretenimento/a-ultima-ceia-abertura-das-olimpiadas-faz-referencia-a-outras-obras. Acesso em 02.ago.2024.
[5] JUNG, C. G. Resposta a Jó. (OC 11/4). Petrópolis: Vozes, 1986.
[6] BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: LÖWY, Michael. Aviso de incêndio: uma leitura das teses “Sobre o conceito de história” de Walter Benjamin. São Paulo: Boitempo, 2005.
Uma resposta
Obrigada Miklos pela reflexão sobre um assunto que causa tanta polêmica. E não poderia ser diferente, uma vez que os símbolos são construídos e adquirem significado culturalmente. A insatisfação de grupos sociais em relação à leitura que outro grupo faz de um determinado símbolo pode ser muito saudável, se abrir caminho para o debate. Veremos.