ANATOMIA DE UM ENGANO

muitos se ofendem por serem passados por outros. no meu caso, fico bravo quando o outro, que sabe quem sou, não me vê. apenas vê a si mesmo. quando sou passado por outro que mal conheço que me confunde com outro, acho engraçado e me divirto. chego a gargalhar, mesmo sabendo da indiscrição que é a gargalhada.

hoje, indo ao super, uma fulana me chamou de Rodrigo, me estendeu a mão e ainda me perguntou como vai minha mãe, Fátima. eu disse: vai bem, muito bem. após eu recolher minha mão de volta para junto de meu corpo, ela disse: você é o Rodrigo, não é? eu fiz que sim com a cabeça. e ela sorriu satisfeita, discreta, quase tímida, titubeante. e continuou no engano: você é filho da Fátima, né? quase que pedindo para que eu dissipasse sua dúvida. eu, não fui cruel, falso, nem nada. não quis tirar do rosto da fulana o sorriso, nem a incerteza. quantas dúvidas não são melhores do que as certezas? e depois, seu dissesse que não era o Rodrigo, nem que minha mãe não se chama Fátima, duas coisas terríveis aconteceriam. ou três.

a primeira, não estaria escrevendo essa crônica, que diz mais do outro do que de mim. a segunda, a fulana poderia ser acometida por saudades imensas de Rodrigo e Fátima. assim eu os fiz próximos dela outra vez. e a terceira é que se desfizesse a dúvida dificilmente gargalharia como fiz ao chegar em minha casa, me olhar no espelho e me certificar de não ser Rodrigo.

Foto de capa por Leeloo The First

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