Muitas vezes me pego pensando no amor não anunciado, mas amplamente demonstrado. Desculpe, deixe-me retificar: penso mais na falta dele. Quantas vezes a minha queixa era de me fazer presente e me esforçar até quando quem precisava de cuidados era eu. Queria poder dizer que vejo isso somente em mim, mas não. No tiktok (muito jovial) apareceu uma trend de “ser amada em voz alta”, achei fofo, até por todas as demonstrações não serem verbais.
Não posso negar que sou muito amada, em atos e palavras, mas acredito frequentemente em ser especialista em reconhecer a ação do desamor e contraditoriamente ela vinha acompanhada de algum indicativo de carinho. Era um “eu posso cuidar de você doente, mas você vai ter que vir aqui” e lá ia eu me deslocar doente para outra cidade. Era um “ok você morar aqui, mas o que é seu não fica no banheiro, na cozinha ou na sala, é seu quarto ou nada”. E tudo isso não era anunciado em palavras, mas era o que os atos demonstravam, o amor pode até existir nesses espaços, mas eu jamais seria a maior beneficiada.
Enfim, não estou aqui para demonizar as pessoas e seus atos, não é por eu ter visto como algo ruim que apaga o que foi feito de bom, como eu disse, há o contraditório nas relações, a equação não é tão simples, tão preto no branco. Mas ainda assim, há a indagação: será que era para eu estar aqui? Isso é o que é reservado para mim?
E viver constantemente me questionando se tudo que eu merecia era um desamor disfarçado ou se eu estava exigindo, quase me fez acreditar que a culpa era minha, que eu sempre fui terrível e me amar era custoso, quase um sacrifício. Sinceramente, ainda bem que sou e estou sempre cercada de bons amigos, que se preocupam comigo, que desejam meu bem e que demonstram constantemente que não é um fardo me amar, na verdade, me mostram o quão fácil e divertido é poder estar em minha companhia, movendo mundos para se fazer presentes. É com eles que eu me sinto amada em voz alta, no apoio, nas trocas, nos segredos, no dia-a-dia. É saber que a pessoa decidiu viajar por horas para passar um tempo com você ou que te respondeu no whatsapp mesmo odiando todas as redes sociais.
Amar é dolorido, não por maltratar, mas por você se preocupar com um outro que quase nunca se pode proteger. E a preocupação dói. Dói não ter notícias. Se a presença é doce, a ausência amarga e não saber se o amargor vai passar é preocupante ou minimamente angustiante. Amar é um risco, um risco gostoso de se viver. E se relacionar, seja com parceiros românticos, amigos ou família, não é tão simples quanto gostaríamos. Vai ter um risco, um esforço, mas, mais que isso, vai ter um desejo de manutenção. Amar em voz alta ou em silêncio pede um requinte de interpretação e comunicação que nem sempre estaremos afiados para ter (no texto inteiro me incluí, mas aqui me incluo ainda mais). Que possamos estar em relações que as dores e amores possam resultar em memórias positivas e em afeto de fato.
Trilha Sonora de Inspiração do Texto
Meu bem querer – Djavan
Quem tem um amigo tem tudo – Emicida (part Zeca Pagodinho)
Roupa branca – Sued Nunes
Encontros e Despedidas – Maria Rita
DtMF – Bad Bunny
Quando a gira girou – Zeca Pagodinho
Love Community – Cristal (part Drik Barbosa)
Coisas Bonitas – Mc Tha
Acalanto – Luedji Luna
Bigger – Beyoncé
Villan – Stella Jang
This Hell – Rina Sawayama
I was made for lovin’ you – Kiss
Amigos – Velho Cerrado
Felicidade – Seu Jorge