Nove horas da noite, pego minha sacola retornável de hipermercado cheia de roupas sujas para lavar, e lá vou eu para a lavanderia comunitária no sétimo andar do edifício retrofitado no centro histórico da capital. Da lava e seca, é só disso que eu preciso. Ao todo setenta e cinco minutos, os quais eu bem posso passar aguardando em meu estúdio de vinte e cinco metros quadrados no terceiro andar enquanto as máquinas fazem o seu ciclo. Simples, fácil e prático. Como tudo que o mundo moderno promete. Maravilha!
Simples, fácil e prático… então, por quê eu gasto mais noventa minutos nessa noite? São três lavadoras e três secadoras que prometem entregar as roupas limpas, perfumadas e secas a ponto de nem precisar passar para desamarrotar. Mas, dou de cara com duas lavadoras e secadoras quebradas. Em manutenção diz uma voz eletrônica que sai das máquinas em um acorde monótono e desinteressado. Mas, até aí tudo bem, não fosse outro morador do prédio com duas sacolas de roupas para lavar e secar ter chegado antes de mim. Por questão de minutos, de sair uns instantes antes do estúdio, chamar o elevador mais rápido, estar no andar mais próximo da lavanderia… E, graças a esta concatenação de fatores lá vou eu ter de esperar. Eu bem que poderia voltar para o conforto do meu estúdio para aguardar até que meu vizinho terminasse sua lavagem e secagem. Mas, surge a dúvida que leva à incerteza e à insegurança, coisas bem típicas da minha personalidade. E, se eu perder a minha vez caso mais alguém suba até lá e tome meu lugar na fila? Olho para minha sacola de roupas e penso que até posso deixar para outro dia. Não, nem pensar! Uma vez decidido eu tenho que fazer. Sempre foi assim e assim sempre será, se pus na cabeça tem que ser feito. Coisas de quem tem TEA. Então, vou esperar, aguardando as duas lavagens e secagens do meu vizinho. E, não é que neste meio tempo realmente aparece um terceiro morador que, provavelmente, pensando como eu, resolve esperar sua vez. São meus temores que confirmam sempre ou são meus pensamentos que os atraem?
E lá estamos nós, três homens, às nove da noite de um domingo em uma lavanderia aguardando sua vez para lavar e secar nossas camisas, calças, cuecas e meias e tudo o mais que precisar de ser limpo – menos a língua e as consciências -, enquanto na noite da cidade seus bares estão lotados de outros homens dando os seus últimos suspiros entre copos e garrafas, antes do início de mais uma semana de trabalho e agitação.
De mim eu sei tudo. Mas, e quanto aqueles dois outros homens donos-de-casa? Quem são, o que fazem…? Por enquanto, só sei onde moram. Como um bom gay que sou, a primeira pergunta que passa pela minha cabeça é: eles são gays também? Gay é assim (ou só eu sou assim?), desejoso de que o mundo todo seja homossexualizado? Passo então a observar gestos, falas, olhares. Qualquer coisa que os possa denunciar. Tem quem diga que um boi cheira o outro, mas aqueles não cheiram nada. Pelo menos nenhuma pista os denuncia. Mas, enfim, a esperança é a última que morre, não é mesmo?
Ao som monótono das roupas chacoalhadas pela água de sabão e da rotação monótona da secadora o que nos resta a fazer senão prosear. Os próximos longos minutos servem para nos conhecermos um pouco mais, saber dos nossos trabalhos, dos locais onde comer nas redondezas, onde comprar camiseta e calças por um preço abaixo dos praticados pelas lojas dos shopping centers, de como usar o celular para rotear o sinal da internet para assistir a tv e etc e etc.
Nessas conversas sempre tem aquele que é mais falante. No nosso caso este é o Gerson, que trabalha com segurança da informação e pega helicópteros para ir até plataformas de petróleo em alto mar e que prefere morar no centro da cidade que nos bairros e que usa duas linhas de metrô para chegar ao trabalho, mas em dias de muita confusão prefere um táxi que segue rápido pela faixa de ônibus sem ser multado. Já o Décio, que também deu suas opiniões lá e cá, é bem mais jovem e contido que eu e Gerson. Tem um trabalho mais pé no chão, é policial, e sabe dos estrangeiros que fazem ponto nos bares e botecos da região central como se fossem pessoas bem apessoadas, mas que na verdade são traficantes procurados pela Interpol. Seria então uma farda o que eu entrevejo em suas mãos prestes a cair dentro da máquina? E não posso deixar de lado meus pensamentos fetichistas, com homens em fardas, com o Décio de farda cinza azulada da polícia da capital. Bonito ele, com sobrancelhas bem feitas, corte de cabelo bem cuidado. Este com certeza leva mais jeito de ser da irmandade que o Gerson, que, apesar de não usar aliança, não aparenta nada que o comprometa. Bem, sendo assim, só com as dúvidas e nada de certezas, o que resta a fazer, senão continuar com o papo hetero de homens perdidos em afazeres domésticos?
E os minutos passam, as roupas lavam e secam, as minhas dúvidas, vontades e fantasias continuam, silenciosas. Quem sabe, tudo possa se repetir algum dia desses e nos reencontremos casualmente na lavanderia do sétimo andar. Afinal, esse mundo é pequeno. E entre idas e vindas e entre conversas algo mais possa se revelar.
Respostas de 2
Quero mais. Quero o desenrolar desse encontro
Que bom que você gostou. Pode espetar, virão outros.