5 minutos de humanidade

Com o objetivo de separar personalidade de individualidade, em tempos
de trends dentro da internet (e fora dela também, tudo bom) que
homogenizam todos os influenciáveis, muito prazer, eu sou o TiwBras e esses
são os seus “5 minutos de humanidade” de hoje.

Mas, calma, como assim “separar personalidade de individualidade”? A
internet nunca foi sobre ‘ser’ e sim sobre ‘parecer’, e não demorou muito para
surgir, lá pra 2010, o termo “personalidades da internet”, ou, como eu gosto de
chamá-los, os proto influencers. Dentro desse conceito podemos chegar num
veredito de: se você parece algo ‘x’ ou ‘y’, você forma uma personalidade na
internet que influencia outras pessoas, logo, é essa ‘personalidade’ que eu me
proponho a separar da individualidade. Quero trazer um olhar mais humano
em meio a tanto filtro e trend que deixa todo mundo com a mesma cara, ou
com o mesmo discurso, ou ainda gostando todos das mesmas músicas. Nós
realmente rimos dos meme que repostamos? O que gostamos pra além dos 3
segundos daquela música chiclete da trend do momento?

Quem somos nós quando a tela do celular está desligada?

E não tem jeito melhor de começar essa coluna do que me apresentar de
fato. Meu nome é TiwBras e é claro que meu nome de registro não é esse.
Esse é um apelido que virou nome e hoje é bem raro alguém saber qual o tal
nome antigo (a não ser que você queira me fazer um pix, porque aí além de eu
te agradecer demais, você vai ver o nome antigo lá). Como toda boa criança
viada lá pelos idos dos anos 80, descobri e quão ruim era ser socialmente visto
como gay mesmo antes de ser o que ‘gay’ significava. Sim, sou uma
marykhona de 44 anos muito bem vividos, graças a cher e, como era de se
esperar, nesse pacote clichê de ter sido uma queer kid lá no mesozoico, fui
expulso de casa quando saí do armário, com 16 anos.

O ano era 1998, o bug do milênio cirandando os pesadelos de geral, e eu
tentando sobreviver sozinho. Pesado né? Pois é, essas histórias sempre são
pesadas e a minha não seria diferente.

Mas o que são limões na vida de um LGBTQIAPN+ senão apenas mais
um motivo para fazer uma caipirinha? Ou um mojito. Ou uma marinada de
frango.

Se aquilo era tudo o que eu tinha (ou seja, quase nada porque, né? Ser
expulso de casa morando no interior não te sobra muito pra onde correr),
então era com aquilo que eu iria fazer o meu grande mussyr. Já trabalhei de
atendente de balcão de padaria, cortador de sapato, auxiliar de uma banca de
capinha pra celular, jardineiro, garoto de programa, auxiliar financeiro, garçom,
bartender, faxineiro, auxiliar de figurinista. E sempre contando minhas
histórias. Contar histórias, desde antes de eu saber que existia a profissão, era
algo que me encantava. Eu sempre li muito, dos clássicos até aqueles soft
porn de Sabrina, Júlia, etc. E sempre quis colocar as minhas histórias no papel,
mas como fazer isso sendo eu um fudido? É aí que entra muitas pessoas e
instituições na minha vida e como eu transitava em espaços de cultura sem me
sentir pertencente. Escrever meus livros hoje, para mim, é um jeito de eu
fazer as pazes com meu eu adolescente-e-totalmente-perdido-na-vida, dizendo
para ele “hey, você estava certo em insistir em aprender aquelas coisas. Era o
mundo que não tinha evoluído suficiente para então existir o lugar certo para
você criar”. E estou falando da internet. Para outcast’s como eu, o mundo era
quadrado demais, limpo demais, heteronormativo demais. Precisou da internet
surgir para o nosso palco ser construído por nós mesmos e aqui residir, nos
expor, nos encontrar e criar nossa comunidade. Hoje eu sou um escritor
independente de literatura punk (steampunk e cyberpunk) e é aqui a minha
casa.

Mas, junto com a escrita, o que também me despertava a paixão pela
vida, e que me dava combustível para continuar tentando sobreviver, era a
costura. Só que aí eu preciso voltar para minha infância, porque essa história
de costura remonta um dos grandes traumas de ser uma queer kid numa
família desfuncional e tradicionalmente religiosa.

Só que essa história fica para a próxima. Por hoje seus 5 minutos de
humanidade foram servidos. Na próxima coluna eu te conto como eu passei de
uma criança que precisou aprender costurar sozinho e escondido de todos,
para um costureiro com uma marca própria de cuecas plus size (o mundo não
gira, meu amor, ele capota!)

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