Altos altos e baixos baixíssimos: relatos de uma quarentenada

A minha vida tem girado em torno de expectativas: espero que as vacinas testadas em milhares de pessoas tenham a sua eficácia finalmente comprovada. Aguardo o momento em que poderei realizar os planos adiados pelo coronavírus. Ancorei a fé num porvir carregado de incertezas e que ainda me parece distante…

E o novo normal? Bem, o novo normal, aos meus olhos, é muito semelhante ao passado, no qual o egoísmo faz escola e o sofrimento alheio é apenas isso, sofrimento do outro. E daí que as pessoas estão morrendo? Vida que segue! Essa é a máxima que compramos após anos de incentivo a políticas neoliberais, que atravessam o tempo sobre gigantescas doses de individualismo.

Talvez não haja cura para a mazela do egoísmo e o coronavírus seja apenas mais um infortúnio que assola a humanidade, de tempos em tempos, a Sabedoria Superior, o Universo, Deus ou como preferirem chama-Lo, (aos que acreditam) nos prega essa peça, provocando uma ruptura brusca na vida “normal” dos seres humanos. Quem sabe numa tentativa de que possamos refletir sobre as nossas ações, nossos egos inflados e a não superioridade da nossa espécie frente aos outros milhões de seres que habitam esse planeta. Quiçá tudo isso seja para nos fazer lembrar da fragilidade da nossa condição humana que teimamos em esquecer.

Agora aqui estamos, quietos, isolados, (alguns nem tanto assim), tentando não sermos contaminados e sobreviver ao cotidiano, que convenhamos, não é matéria tão simples quanto parece. A distração das novelas foi substituída pelo bombardeamento de notícias que nos causam pânico. Mas não foi preciso desligar a TV, o governo brasileiro ‘cuidou’ para que não tivéssemos acesso, pelo menos não com facilidade, aos dados da pandemia.

Longe dos noticiários, buscamos migalhas de afetos nas telas de nossos aparelhos celulares. Textão novo. Tudo ficará bem! Curtidas… Comentários… doses de endorfina para suportar o tédio.

Sono afetado. Tivemos que abrir mão do controle (que acreditávamos ter) na marra. Viver um dia de cada vez é uma tarefa hercúlea para uma geração ansiosa como a nossa. Algumas pessoas meteram a cara no trabalho, ser produtivo é a forma que encontraram para esquecer todo o reboliço lá fora, outras mergulharam na negação, sentiram-se melhor ao fingir que os tempos apocalípticos não é tudo isso, na verdade, “ É só uma gripezinha! ”

Entre os dias entediantes, alguns pequenos acontecimentos quebram a monotonia… Uma lembrança que chega de forma inesperada pelos correios, chamadas de vídeos com os amigues, conseguir chegar ao final de um capítulo de um livro, maratonar aquela série infinita que a rotina de antes não permitia, ter tempo para cuidar e observar as plantinhas, um café da tarde com bolo recém-assado, varar a madrugada, sozinha, tendo como companhia um vinho e muitos devaneios… Basicamente, os meus antídotos antimonotonia (sem nenhuma garantia) da vida em isolamento!

Por Natália Barbosa
para sua coluna Desassossegos.

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