Machismo estrutural: Uma pessoa segurando um celular com o perfil em algum aplicativo de pegação com a frase discreto e fora do meio

Discreto e fora do meio: o machismo estrutural

“Olá, não coloco meu nome nos aplicativos de pegação e no perfil tenho uma foto mostrando só um corpo sem cabeça. Não posso mostrar minha face pois o que diriam meus amigos se descobrissem que sou gay. Sou discreto e fora do meio. Procuro homens que não sejam afeminados, gosto de homem com jeito de homem”. Não precisa de muito esforço para encontrar um perfil como o que eu acabara de citar. São recorrentes em vários aplicativos destinados ao público gay. O machismo deslavado em um local que deveria ser seguro aos seus usuários.

E quando digo seguro, não digo apenas a segurança física, neste caso é a segurança psicológica que diz mais alto. Já parou para pensar como o outro lado se sente ao ler isso? Então vamos brincar de empatia. Se coloque no lugar de um gay que os trejeitos femininos fazem parte do seu ser assim como a cor natural do seu cabelo. Pensa como isso se torna ofensivo e agressivo para uma pessoa que só quer encontrar uma pessoa para uma transa ou algo mais.

O grande paradoxo desse tipo de discurso é machista e colabora para o um machismo estrutural que é o grande motivo de tal pessoa querer se camuflar “fora do meio”. Se torna um ciclo infinito de oprimido e opressor. Alguns pode até considerar o caminho mais fácil, mas ainda sim um caminho que o faz andar em círculos.

Esse é o tipo de discurso que nós, pessoas LGBTQIA+, devemos evitar. Ser um homem menos ou mais afeminado não me faz menos ser gay e nem me faz menos digno de respeito. Uma vez ouvi num shade a seguinte frase: “nossa, o Dan Barroso, promoter, ursão, popular, falando sobre RuPaul?”. Meu amor, desde quando o que eu assisto, ouço ou tenha interesse me faz ser menos digno?

Eu sei dos privilégios que tenho na vida e onde eles me faltam. E sei que não ser afeminado pode ser considerado um privilégio, pois é mais socialmente aceito, mas isso não quer dizer que vou colocar no meu perfil que não quero homem com jeito de homem dando força ao próprio machismo que me faz ser oprimido pela minha orientação sexual.

Entenda, coloco aqui o machismo como vilão pois é onde tudo começa. O homem cis e heterossexual se sente superior a mulher e a feminilidade. Logo, um homem feminino, um homem que se relaciona com outro homem, um homem que nasceu em corpo de mulher, uma mulher que nasceu num corpo de homem acaba sendo, em sua concepção, inferior. E, se é inferior, ele se sente no direito de discriminar, bater e até matar.

Por isso é importante que nós sigamos na contramão do machismo para que num futuro próximo possamos sonhar com o nosso direito de existir.

Por Dan Barroso
para a coluna C’est La Vie!

Acesse nossas redes e mantenha-se informado!

facebook instagram twitter linkedin WhatsApp

Foto de Terje Sollie no Pexels

5 Replies to “Discreto e fora do meio: o machismo estrutural”

  1. Maravilhoso esse texto. Obrigado por fazer nossas as suas palavras. Precisamos falar sobre o machismo e a crença em valores tradicionais e estranhos à homossexualidade no nosso meio.

  2. Sempre achei bizarro isso de as gays escreverem em apps que não gostam de “homens afeminados” (assim como lésbicas escreverem que não gostam de lésbicas “caminhoneiras”).
    Algumas pessoas podem se defender e falar que é “uma questão de gosto”, mas tem muito a ver com o que você escreveu mesmo, com não respeitar a existência do outro, de querer se sentir melhor em relação aos outros.

  3. Um amigo já comentou comigo sobre esse tema e acho muito importante falar sobre ele, o texto está ótimo e trouxe um exemplo fácil de percebermos o problema do machismo estrutural.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *