Ana Paula Valadão, vamos refletir?

Em tempos de Valadão é bom andar ouvindo Rajadão. Digo isso, pois é preciso que todas, todes e todos nós façamos uma pausa para refletirmos o quão problemático é o discurso lgbtfóbico e sorofóbico da pastora Ana Paula Valadão, que tem sido exaustivamente compartilhado nas redes sociais.

O vídeo em que o discurso é proferido tem quase um minuto. A maneira sem qualquer cuidado que ela fala aquelas palavras representa bem a quem ela está endereçando essa mensagem, quase ainda em tom de defensiva:

“Muita gente acha que isso é normal. Isso não é normal. Deus criou o homem e a mulher e é assim que nós cremos. Qualquer opção sexual é escolha do livre arbítrio do ser humano. E qualquer escolha leva a consequências”. E ainda continua: “A Bíblia chama de qualquer opção contrária ao que Deus determinou, de pecado. E o pecado tem uma consequência que é a morte. Taí a Aids para mostrar que a união sexual entre dois homens causa uma enfermidade que leva à morte e contamina as mulheres, enfim… Não é o ideal de Deus.”

A pastora inicia apoiando-se na ideia do que é o “normal” e o que é “anormal”, quase como um eco cacofônico do século XIX em que a sexualidade humana torna-se objeto de interesse e estudos das ciências biológicas, médicas e psiquiátricas, e também onde vemos o nascimento da sexologia. As sociedades estavam no período da Revolução Industrial e a burguesia estava não só interessada em promover seu ideal higienista, como também estavam muito empenhadas em controlar, vigiar e punir, primeiro para que a massa trabalhadora trabalhasse cargas horárias de 16 horas por dia, com baixos salários e depois para que reproduzissem o modelo burguês e nuclear de família o Pai, a mãe e os filhos.

Toda produção científica a respeito da sexualidade e sua diversidade, como a homossexualidade, por exemplo, estavam presentes. Aliás, antes do advento da religião monoteísta judaico-cristã a homossexualidade existia, convivia e não pedia licença a nenhuma divindade estrangeira para viver e ser celebrada. Entretanto, é preciso considerar que as ciências nunca foram neutras, e logo ela tratou de encapsular a diversidade sexual para o campo do patológico, com isso, ao longo de décadas foi produzida uma extensa e complicada literatura para que pessoas como a Valadão pudessem usar a frase isso é normal ou não. Vale lembrar que há 30 anos a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirava a homossexualidade de suas patologias, o que colaborou para que o exercício profissional de psicólogos antiéticos, por exemplo, não mais causassem sofrimento na tentativa vã de uma suposta “cura gay”.

Ana Paula, ao proferir e se colocar naquilo que ela chama de “normal”, é complicadíssimo, pois o normal é tão fluído e insustentável quanto é o anormal. Por exemplo, no “tempo Bíblico” em que ela tanto parece querer viver certamente ela deveria ter no mínimo, escrito aquelas palavras para que seu marido discursasse sobre, já que ela por si não teria tanta voz. Aliás, se não fosse à emancipação feminina pelas feministas será que ela poderia ser pastora hoje, ocupar um palco, ser protagonista de seus discursos de ódio? É preciso refletir, pois o lugar em que Valadão se apóia é um local histórico, que ela e sua classe de religiosos, insistentemente negam, mas utilizam quando lhes interessam.

Em seguida a pastora parte do pressuposto, no mínimo etnocêntrico, que todos possuem a mesma cosmovisão que ela, ao dizer que “Deus criou o homem e a mulher…”. E com isso nos perguntamos, que Deus? Obviamente que é a divindade dela, mas que pelo arranhar de seu discurso quase soa “o Deus de todo mundo viu, até de você ateu!”.

Em seguida ela argumenta que é assim, que eles, os evangélicos como ela, crê. Até ai tudo bem. Tudo bem você ter sua fé, tudo bem você acreditar em um mundo limitante. Tudo bem. Também tenho a minha religião com valores e crenças que são divergentes de muita coisa por aí. Temos uma constituição que nos assegura a liberdade de crença religiosa, bem como a liberdade de expressão. Porém, é essa mesma a problemática que a fala dela se apóia perversamente, pois ela sabe disso tudo, ela sabe o poder que ocupa ali e como sua voz alcança pessoas crentes e não crentes e ela usa deliberadamente sem qualquer revisão. E eu pergunto: quantos pastores não têm usado a religião para promover o ódio revestido em amor de Jesus? Muitos! Será que liberdade religiosa pode ser usada desta maneira?

Valadão usa deliberadamente essa estratégia para promover seu ódio aos LGBTQIA+. Quando falo em discurso de ódio parto do pressuposto de que ela está se apoiando em duas instâncias: a discriminação e a externalidade, ou seja, no todo do seu discurso encontramos a discriminação social e religiosa em relação a determinados grupos, que ferem a nossa dignidade humana que é assegurada em nossa Constituição de 1988 (prevista no artigo 1º, inciso III da Constituição Federal, constitui um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito, inerente à República Federativa do Brasil).

Ana Paula Valadão, ao começar seu discurso incluindo grupos minoritários através de um ponto de vista extremamente lgbtfóbico e sorofóbico, ela está literalmente “cagando” para a Constituição e uma ética e dignidade humana em comum, demonstrando claramente que o que a norteia é uma falta geral de alteridade e empatia.

Valadão ainda se apóia num modelo de mundo universalmente cristão, mundo esse que demograficamente pode até ser alguma maioria, mas não é o todo. E mais, ela ainda passa a ideia de que o discurso dela, apoiado em um conhecimento religioso, não científico, carrega a verdade do que é o normal e o que é patológico. Percebe?

Ela ainda brinca perversamente com a ideia de liberdade, em um discurso bem neo-liberal de livre-arbítrio só faltando citar a meritocracia junto. Mas ela lembra que tem consequências essa liberdade, de qual liberdade ela está falando? Da “opção sexual alheia”, na qual de opção não têm nada, e as ciências biopsicossociais estão ai para dizer o quanto orientação sexual é o termo correto para se referir à diversidade sexual, na qual a heterossexualidade é apenas uma delas. Ela não está falando da liberdade de você ser pastora de outra igreja e matar seu marido, essa liberdade ai tudo bem, é passável, Deus regenera, mas a liberdade sexual é punível com o pecado!

E mais, esse pecado é a morte por uma doença, quase voltando lá no período medieval e suas pestes que eram usadas como uma propaganda religiosa sobre uma suposta punição divina. Será que algum religioso fervoroso diz que ao pegar covid-19 Deus deve ter punido ele de algo? Será que então, ela, ao colocar como punição pessoas acometidas pelo vírus HIV, legitima cada vez mais uma sociedade, e até um presidente da república publicamente dizer que pessoas soropositivas é um problema, uma “despesa”? Será que isso não explica o estigma sobre a doença que adoece muito mais que a doença em si? Será que ela não está legitimando a lgbtofobia diária se apoiando em uma ideologia do invisível que só ela e os crentes acessam e que nós meros mortais pecadores não acessamos? Afinal, se até esse Deus do amor incondicional é capaz de matar alguém que ama o mesmo sexo, por qual motivo então o pai de um LGBT se sente a vontade em matar seu/sua filho/filha, se não esse?

Percebe o quanto é problemático o discurso de Valadão e companhia?

Percebe que o discurso dela não é nada inocente e nem de uma pessoa que está alienada? Percebe que ela vive em uma sociedade em que o Levítico de sua Bíblia é conveniente a uma causa de ódio e não ao dogma que ela decidiu tão veementemente abraçar como religião? Percebe o quanto políticos conservadores sempre pautam suas agendas retrógradas a dignidade humana sobre a propaganda do medo da sexualidade? E eu deixo a pergunta: o que de fato faz parte da comunidade evangélica e cristã conservadora em geral, temer tanto assim a visibilidade e o empoderamento LGBT?

Para ver mais textos de Sérgio Lourenço, confira sua coluna Queer-se.
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4 Replies to “Ana Paula Valadão, vamos refletir?”

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