foto de uma garoto se sentindo angustiada em frente à um notebook ligado à internet

Como não ser consumido pela internet!

Não sei vocês, mas eu não estou dando conta de me informar sobre a política no Brasil, mal consigo ver as dezenas de notificações que chegam nos grupos de Whatsapp e confesso que também não estou me atualizando sobre os dados da pandemia. Pode soar um pouco alienada, mas têm feito bem poupar à minha saúde mental dessa enxurrada de coisas calamitosas que vêm acontecendo.

A internet foi um dos grandes acontecimentos do nosso século. Hoje ela está na palma de nossas mãos e somos quase 100 milhões de pessoas conectadas nessa grande rede mundial. Mas como estamos usando essa tecnologia?

Está cada vez mais difícil se concentrar e fazer uma coisa por vez, ler um livro sem se distrair por exemplo. Vivemos a era em que temos acesso a tudo o que acontece a uma enorme velocidade. Recebemos estímulos ao ler tanta coisa que podem causar efeitos psicológicos no corpo e influenciar nossa capacidade de tomada de decisões. 

Acreditava-se que a facilidade em publicar e acessar informações faria da internet um instrumento de democratização de conhecimento e isso é verdade, até certo ponto ela trouxe uma pluralidade de vozes para debates relevantes na sociedade,  mas por outro lado, nem todo mundo está interessado em usá-la como uma ferramenta capaz de tornar o conhecimento acessível, ao contrário, a utilizam para produzir desinformação e discursos de ódio através das Fake News – que tem se mostrado tão eficiente em destruir reputações, influenciar eleições, e agora face à pandemia de Corona vírus, revelou seu potencial em oferecer risco à vida das pessoas. 

As Fake News transformaram a internet numa ferramenta de produção de ignorância, aproveitando-se de uma polarização na sociedade que levam as pessoas a buscarem por notícias que confirmem as suas crenças, afinal quem quer ouvir a verdade quando se pode ouvir que se está certo? 

Para além do enorme estrago causado pelas Fake News, aquilo que lemos nas redes sociais podem gerar gatilhos emocionais, afetando a nossa saúde psíquica. Sendo assim, como encontrar um caminho do meio entre continuar informado e manter a saúde mental? 

A plataforma Contente.vc fez uma investigação sobre o consumo de informação, intitulada “Detox digital”, onde constatou-se que o nosso problema não é a informação em si, mas o excesso de consumo dela. Essas informações não são processadas na velocidade que as consumimos, gerando angústias. Fazendo uma analogia desse consumo com a nossa dieta é como se tivéssemos comendo hambúrguer e batata frita em todas as refeições, ou seja, uma dieta alimentar pobre em nutrientes e que pode desencadear doenças! O mesmo acontece com a nossa “dieta de informação”.

Segundo o pesquisador e jornalista Tiago Dória, entrevistado neste estudo: “não temos um problema de informação, mas sim de atenção e tomada de decisões”.  Sempre houve mais informações do que somos capazes de processar e temos uma capacidade ilimitada de adquirir conhecimento, mas o erro está na forma que estamos consumindo essas informações, em excesso, muitas vezes estamos lendo a mesma coisa diversas vezes. A virada de chave está na capacidade de processar e analisar essas informações, e não na quantidade. 

Qual a influência que os aparelhos com telas exercem na nossa vida?

O estudo da Contente.vc também revelou alguns sintomas para sabermos como anda o nosso relacionamento com essas plataformas digitais, como:

  • Falta de fôlego: prender a respiração enquanto lê e escreve mensagens.
  • Fadiga de atenção: Quando o dia é totalmente interrompido por notícias, e-mails, redes sociais e não sobra tempo para fazer o que importa de verdade.
  • Senso de realidade distorcido: Quando uma ‘teoria de conspiração’ absurda faz sentido porque tem gente endossando, como por exemplo o discurso terraplanista.
  • Perda de lastro social: Quando você fica só no seu círculo de amigos, as famosas “bolhas”.

Além disso, alguma vez você já sentiu que estava perdendo algo? Essa sensação é muito comum: checarmos nossas redes sociais a cada 5 minutos, rolar horas o feed de notícias até que não tenha mais nenhuma novidade.

O nome desse sentimento é Fear of Missing Out, ou  FOMO, que traduzido para o português significa, medo de estar perdendo algo. Essa síndrome, diagnosticada pela primeira vez em 2000 pelo estrategista de marketing, Dan Herman e definida anos depois pelos psicólogos Andrew Przybylski e Patrick McGinnis se tornou uma nova fobia social, causada não pelas interações sociais, mas pelo nosso uso de plataformas e redes digitais.

O intuito desse texto não é o de vilanizar a internet já que ela nos possibilitou tantas coisas boas. A ideia aqui é jogar luz sobre essa angústia social, que é compreensível, afinal o nosso relacionamento com essa tecnologia ainda é muito jovem e imaturo, e ajudar a fomentar o debate sobre como iremos combater a FOMO.

Acredito que uma das formas seja abraçar as nossas limitações, não vamos conseguir ler todos os textos dos blogs que gostamos, nem conseguir acompanhar todos os episódios daquela série nova, muito menos ficar a par de todos os impropérios do governo, e tudo bem! Precisamos aprender a lidar com o nosso tempo de uma forma mais saudável de maneira que a forma com que a gente o gaste nos deixe satisfeitos.

Podemos começar seguindo menos pessoas, controlando o nosso consumo de redes sociais, filtrando as informações que chegam até nós. Eu pertenço a geração que já nasceu com a internet, é a minha principal fonte de informação, comunicação, entretenimento… e sei que não vamos conseguir mais viver sem essa “janela para o mundo”.  Fica aqui a minha contribuição para repensarmos nossas escolhas dentro da rede mundial e que possamos usar esses meios, mas sem deixar que eles nos usem, parafraseando uma letra do rapper Emicida

Para ver mais textos de Natália Barbosa, confira sua coluna Desassossegos.
Foto de Andrea Piacquadio no Pexels

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4 Replies to “Como não ser consumido pela internet!”

  1. Excelente texto Naty!!
    Informação não é conhecimento. É preciso aprender a analisar o que se recede, ser crítico, fundamental para nossa saúde mental.

  2. Texto essencial para esse momento. Eu sou do grupo que faz certos jejuns temporários, também, com fins de desintoxicação. E eu tento compreender as coisas sem impor uma lógica formal a tudo isso, conformar-me com o que dá. E continuar pensando estratégias de resistência.

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