Foto de uma corda simbolizando o quanto os amores abusivos nos amarram #pracegover

Meus amores abusivos

Eu tive alguns amores na vida, alguns foram melhores e outros piores. Alguns duraram muito tempo e se tornaram relacionamentos, outros vieram e foram com a mesma velocidade. Alguns deles marcaram pela intensidade, outros se tornaram amores abusivos.

Meu ultimo relacionamento foi bem breve, começou nas primeiras hora deste ano, tinha gostinho de esperança que 2020 seria um ano incrível. Foi um namoro leve, sem cobranças, sem joguinhos e com aquele tempero de paixão à primeira vista, mas não durou muito, ainda assim durou o suficiente para me ensinar uma lição. A lição de que amores devem vir para nos fazerem bem!

O problema é que alguns amores acabam sendo abusivos, não são exclusivamente ruins, se fossem seriam mais fáceis de superar. Eles são agridoces, são bons boa parte do tempo. E é aí que mora o perigo, pois quando você baixa a guarda começa o veneno. E o veneno nesses tipos de amores é sorrateiro… chega aos poucos… te machuca… te dá o tempo suficiente para sarar… então te machuca de novo… cria um padrão e recomeça em ciclos… tudo lentamente… Quando você percebe já está tão envolvido que fica difícil simplesmente voltar atrás.

Então criamos as desculpas para nós mesmos: “hoje ele está de mal humor”, “nem sempre ele é assim”, “mas teve aquela vez que passamos um dia lindo”, “é o defeito dele” ou “ele está cansado”. E a cada desculpa que a gente dá, uma parte nossa morre.

Comecei meu primeiro namoro alguns meses após meu primeiro beijo. Meu castelo de cristal, o primeiro amor correspondido. De um lado, ele me ajudou na minha fase de maior vulnerabilidade. Serei eternamente grato. Mas, ao mesmo tempo, por esta mesma vulnerabilidade, a relação se tornou uma forma de ter controle sobre mim. Seus ciúmes eram extremo. Nossos trabalhos era bem próximo, então diversas vezes ele ia me espiar no trabalho para saber se estava conversando com um certo ursinho. Uma vez voltando do trabalho eu puxei assunto com esse colega e minutos depois ele apareceu, como se estivesse apenas esperando a deixa.

Então, tentei terminar pela primeira vez. E veio a primeira promessa de mudança. Ah, essas promessas. Elas são tão efêmeras quanto um castelo de areia. Elas fazem parte de um jogo de manipulação que só estão ali por um objetivo: te controlar. Foram quatro anos entre brigas e términos. E quanto mais o tempo passava, mais as brigas ficavam intensas. Sofria intensamente a cada término e era a pessoa mais feliz a cada recomeço. E a dependência emocional ficava mais forte e complicada. Quando finalmente terminamos após quatro longos anos, entrei em tristeza profunda, mas me forcei a sair e comecei a frequentar os pontos “bears” da cidade.

Não demorou muito já estava namorando novamente. Para quem via eu e meu novo namorado no Facebook, pensavam que nós éramos um casal perfeito. Eu estava apaixonado! Viajávamos juntos, íamos em restaurantes, passeio. Vivemos muito bem os dois primeiros anos e, então, sem explicação, paramos de nos tocar. Quis abrir o relacionamento e ouvi um não. Então pouco a pouco fui descobrindo traições. Fui incapaz de largar mão daquele amor, então abri o relacionamento por conta própria.

Se tem uma coisa de que me arrependo foi de ter envolvido outras pessoas neste relacionamento. Sei que magoei muitas pessoas incríveis. Pessoas com as quais eu poderia ter construído algo maravilhoso. Minha incapacidade de seguir em frente envolveu pessoas que não tinham nada a ver com isso e me fez incapaz de ser feliz.

Gostaria de poder contar mais sobre como foram esses oito anos. Mas ainda me faltam palavras e a ferida ainda não cicatrizou totalmente. O que posso dizer é que vivi uma esperança falsa de que os dois primeiros anos voltariam, mas não voltou. Já éramos outras versões de nós mesmos e a única coisa que sabíamos fazer era machucar um ao outro. Eu posso até me defender dizendo que muito o que fiz foi reagindo ao descaso de um que outro dia foi meu amor, mas alguns dirão que são apenas desculpas. O fato é que eu devolvi o tapa, então fiz de novo. E então apanhei novamente. E num ciclo segui. O relacionamento ficou tão complicado que se tornou abusivo para os dois lados.

No fundo eu sei que queria ir embora, que queria deixar aquele situação que só me feria. Mas ainda não consigo responder o por que eu fiquei. Mas consigo explicar o que me ajudou a partir: concluí que as partes boas e ruim eram duas faces de uma mesma moeda, para ter uma eu tinha que ter a outra. E eu não queria mais ser tão infeliz no amor.

Neste momento, ao escrever este texto, quatro meses após abandonar o mesmo ambiente de trabalho e nove meses após terminar definitivamente, consigo para e analisar tudo de uma forma mais tranquila. Consigo separar o que foi mentira, o que foi manipulação e o que foi possessão, apesar dos momentos bons que também existiram. Em meio a tantos abandonos o verso “Mas eu não ficaria bem na sua estante” ecoou em minha mente. Demorei para dar um passo a frente pois deixei de acreditar em minha força, mas sei que hoje estou melhor fora dessa relação.

Se você está em um relacionamento abusivo, sofrendo abusos ou, mesmo, como o abusador, procure ajuda. Converse com um amigo, um terapeuta, uma mãe, um psicólogo, assistente social e, até mesmo, a polícia se precisar. Vale lembrar que a Lei Maria da Penha se aplica para todos. Analise o que está acontecendo. Ninguém merece passar a vida sofrendo, seja forte e acredite em si mesmo.

Deixo aqui um link para uma belíssima cena da minissérie Aruanas, da TV Globo, falando sobre amores abusivos: https://globoplay.globo.com/v/8631155.

Por Dan Barroso para a coluna C’est la Vie!

4 Replies to “Meus amores abusivos”

  1. Dan segue na tarefa de traduzir seu mundo e suas experiências em palavras que nos ajudam a pensar nossas vidas. Toda solidariedade a ele e à sua decisão de terminar uma relação abusiva. Estive numa por quase onze anos e vivi exatamente essas coisas que você descreve. Parece que eu estava escrevendo o texto, com uma diferença apenas. Sofri isso tudo com uma pessoa só. Obrigado por sua confissão, eu me sinto representado e é como se me ouvissem também.

  2. Ah, Dan!
    Tão bom ver você crescendo. A gente vai vivendo, refletindo e aprendendo o que nos faz bem, né? E, por mais doloroso que seja, vai cortando pessoas e situações que nos machucam. Ao mesmo tempo, virando o espelho pra reconhecer que nem sempre somos anjos também.
    Nessa parte amorosa, não tem jeito, só não se machuca quem não se arrisca… Ou quem tem a sorte de encontrar logo de cara um porto seguro.

    1. Obrigado amiga. Acho que a parte de reconhecer nossos erros a principal parte de crescer como pessoa. Eu me machuquei e revidei. O melhor teria sido me afastar quando não dava mais. ☺️

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *