A foto mostra a sombra de Paulo André Lima em um lago de águas cristalinas e em movimento assim como nossas ilusões. #pracegover

Ilusões Perdidas

Apesar do título, esta não é uma coluna nostálgica, melancólica, triste ou amargurada. Muito pelo contrário. Da última vez, mencionei como, com a idade, consegui lentamente desvencilhar-me de muitos pesos que havia carregado ao longo da vida e como hoje me sinto mais leve do que me sentia aos 20 anos. Pois bem, as tais ilusões eram uma parte importante desse fardo pesado que eu costumava levar nas costas.  Tê-las “perdido” foi um alívio mais do que um sofrimento. Mesmo que a princípio não tenha parecido assim.

Iludir-se é perceber a realidade de forma distorcida e acreditar em coisas que não existem ou são impossíveis, com base nessa percepção deformada. Segundo o dicionário, o contrário da ilusão é a desilusão, que acontece quando descobrimos que aquilo que percebíamos ou em que acreditávamos não corresponde à realidade. E, dependendo da intensidade com que acreditamos naquilo e da importância que aquilo tem para nós, nosso mundo desmorona.

Todos já passamos por isso em alguma medida. E certamente não é nada agradável.

Pelo que observei em mim e nos outros, quando ocorre uma desilusão é muito comum nós nos culparmos por termos acreditado em algo que não merecia nenhum crédito. Muitas vezes, nos tornamos desconfiados e passamos a duvidar de tudo e de todos, para não fazer papel de bobo outra vez. A raiva que sentimos de nós projeta-se num rancor generalizado dirigido ao mundo. Que homem gay, por exemplo, já não disse ou ouviu alguém dizer: “viado não presta”, “o meio gay é podre”, e coisas do gênero, depois de viver uma desilusão amorosa?

Eu gostaria de sugerir uma outra abordagem. Suspeito que os mais desconfiados dirão que é mais uma ilusão. Que seja. Tem funcionado para mim.

Na minha opinião, boa parte das ilusões que criamos e alimentamos nascem das expectativas que temos em relação à vida e do nosso desejo de atender a expectativas que os outros depositam em nós e que muitas vezes assumimos como nossas. E é aí que reside o problema. Quando nos desiludimos, afirmamos a nossa incapacidade de corresponder ao que os outros e nós mesmos esperamos de nós.

Há uma cena em “Dor e Glória”, o filme mais recente de Pedro Almodóvar, que me marcou profundamente. Salvador, o protagonista vivido por Antonio Banderas, conversa com sua mãe, já idosa, e a certa altura pede-lhe desculpas por nunca ter conseguido ser quem ela esperava que ele fosse.  Quando vi o filme pela primeira vez, minha mãe estava ao meu lado no cinema, e foi difícil segurar o choro. Que homem gay não passou parte de sua vida assombrado pela certeza de que jamais realizaria plenamente as expectativas dos seus pais, mesmo quando o tempo se encarregou de aparar arestas e promover o pleno entendimento e inclusão na sua família de origem, como foi o meu caso?

Mesmo sem nunca ter sido ou ter me sentido rejeitado pelos meus pais em função da minha orientação sexual (e sei que já posso me considerar uma pessoa de sorte por isso), durante muitos anos carreguei o peso da expectativa frustrada de não ter saído exatamente como planejado ou desejado. E o processo de deixar essa expectativa definitivamente para trás foi demorado e penoso. Mas acredito ter conseguido. Sem pedir desculpas, como fez o personagem de Almodóvar. Sem culpar tampouco. Meus pais foram tão vítimas das expectativas sociais que pesam sobre todos nós há séculos quanto eu. E, na verdade, tiveram muito menos ferramentas para lidar com elas e com sua frustração do que eu tive. Visto dessa perspectiva, acho até que eles foram bem longe na sua aceitação e no seu acolhimento da minha diferença, e sou grato por isso. Como diz o Gilberto Gil naquela linda canção, “não há o que perdoar, por isso mesmo é que há de haver mais compaixão”.

O que vale para a orientação sexual vale para todo o resto. Desde que nascemos, somos bombardeados de expectativas sobre o que devemos ser, como devemos nos comportar, o que devemos desejar e almejar. Internalizamos essas expectativas sem nos questionar (sem termos condições de nos questionar) se elas correspondem ao que nós pressentimos (sem saber ainda verbalizar) como sendo o nosso campo de possibilidades, a nossa singularidade contida na tal semente que, mal começa a germinar, já recebe um modelo de árvore pronta ao qual ela deve se adequar. E não é fácil fazer a triagem entre o que herdamos como expectativa da família e da sociedade e o que é o nosso desejo e o nosso impulso singulares. Creio que passamos boa parte da juventude e da vida adulta às voltas com essa tensão que se apresenta em todas as dimensões das nossas vidas, do desenho do nosso corpo à nossa trajetória profissional.

Para mim, a maturidade e a proximidade da velhice trouxeram a oportunidade de lidar com isso de outra maneira. Depois dos 50 anos, percebi que não somente estava finalmente me desfazendo das expectativas que os outros (e eu mesmo) faziam e fazem ao meu respeito, como estava deixando para trás a própria ideia de expectativa. Percebi que, ao invés de perseguir ideais sempre inatingíveis e de avaliar minha vida em função do quanto eu estava perto ou distante desses ideais, minha atenção agora estava mais voltada para viver plenamente as possibilidades de cada momento. E que isso tornava tudo muito mais leve.

Não quero com isso defender uma resignação apática ao que a vida oferece. Continuo tendo sonhos e aspirações, e continuo sendo capaz de me indignar com tudo que me parece inaceitável no mundo em que vivemos e de querer fazer algo para transformar o que me parece injusto. Para além das expectativas, há estruturas sociais que dão forma e sustentam o modo como vemos o mundo, e essas estruturas precisam ser combatidas e transformadas. Mas, pelo menos na esfera pessoal, prefiro hoje pensar no futuro em termos de horizonte. Eu sei em qual direção quero navegar daqui para a frente e sei em que direções não quero navegar. Não sei quão longe conseguirei chegar nessa navegação e isso tem cada vez menos importância. Não sinto necessidade de provar mais nada para ninguém, especialmente para mim mesmo.

Evidentemente isso não me deixa imune a contratempos e decepções. Elas continuam acontecendo, como sempre aconteceram e acontecerão. Porém, hoje em dia não tomo mais os revezes da sorte pessoalmente. As coisas dão errado às vezes, inclusive em função de ações equivocadas minhas. Errar é humano. Vamos em frente. Não tenho mais tempo nem paciência para amarguras e dramas desnecessários. Sempre há uma nova rodada, e outra depois. A cada uma, vou conhecendo melhor meus recursos e possibilidades e aprendendo a estar no mundo e, dentro do possível, fazer alguma diferença. Nem que seja apenas divertindo as pessoas ou fazendo-as pensar um pouco ou talvez se emocionar.

Nesse contexto, não creio que o contrário da ilusão seja a desilusão, e sim a lucidez. A lucidez de perceber que as expectativas e as ilusões que elas estimulam engessam o fluxo da vida e podem acabar bloqueando a expansão da nossa singularidade. A lucidez de deixá-las ficarem perdidas no passado, para poder viver o presente e o futuro de forma mais plena.

Até a próxima!

PS1 – Devo muito dessas ideias à leitura do filósofo francês François Jullien, cuja obra tenho lido e relido ao longo dos anos, e com a qual me identifico em muitos aspectos, embora sem o mesmo grau de erudição e sofisticação conceitual e filosófica.

PS2 – A coluna dessa semana é dedicada à memória do meu tio Paulo, que faleceu em 24 de julho. Já o mencionei nesse espaço, mas não cheguei a dizer o quanto sua presença na minha vida foi essencial para que eu me tornasse a pessoa que sou hoje, em todos os sentidos. Entre muitas coisas, o convívio com o Paulo ajudou a formar parte importante do meu gosto musical e da minha curiosidade em relação à música. Para ele, escolhi duas canções especiais: “Fé Cega, Faca Amolada”, do disco Minas, do Milton Nascimento, que ouvi pela primeira vez na casa dele; e “Só as Mães São Felizes”, do último show do Cazuza, que nós vimos juntos no Canecão, no Rio de Janeiro, e que foi muito importante para nós, por tudo o que significou naquele momento e pelo que nos dizia sobre nossas vidas e sobre o que nos unia.

Por Paulo André Lima para a coluna Bons momentos e quem sabe algo mais

2 Replies to “Ilusões Perdidas”

  1. Paulo, parabéns pela lucidez não amargurada do seu texto. De alguma forma me vi representado, e estas reflexões me atingem hoje ao chegar perto dos 50 anos. A maturidade nos traz a perspectiva de olharmos para os fatos da vida com o olhar da experiência, o que nos ajuda a refletir com mais isenção.

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