Foto com o colunista Paulo André Lima contemplando o horizonte e o pôr do sol, refletindo sobre a terceiro ato. #paracegover

Terceiro Ato

No seu livro de memórias “Minha Vida Até Agora”, Jane Fonda defende a ideia de que a trajetória de uma vida pode ser entendida como uma peça de teatro e dividida em três grandes atos: o primeiro ato, que iria do nascimento até os 30 anos, seria um período de formação, no qual acumulamos vivências e experiências que determinam nosso jeito de estar no mundo; o segundo ato, dos 30 aos 60 anos, seria uma fase de busca e de construção; e o terceiro ato, que começaria aos 60 anos e se estenderia até nossa morte, conteria o clímax de nossas vidas e daria um novo sentido a tudo o que aconteceu nos atos anteriores, antes do inevitável desfecho. Num livro posterior, “O Melhor Momento”, Jane Fonda aprofunda essa noção e apresenta sugestões sobre como fazer do terceiro ato um período de realização e plenitude.

Naturalmente, a atriz não foi a primeira nem a última pessoa do mundo a apresentar uma visão positiva da velhice, pois é disso que se trata. Inúmeros autores de diversas áreas do conhecimento já refletiram sobre o que acontece ou pode acontecer conosco depois da maturidade, para além da progressiva deterioração do nosso organismo. É uma questão que adquire cada vez mais relevância, tendo em vista o crescente envelhecimento da população em muitos países e o aumento significativo da expectativa de vida a nível global (mesmo que saibamos que esse aumento não é homogêneo e que há populações, grupos e minorias cuja expectativa de vida permanece baixa – a desigualdade não se reflete apenas na renda, ela afeta as próprias condições de sobrevivência).

Eu gosto da perspectiva da Jane Fonda porque, em primeiro lugar, tenho uma imensa admiração por ela, como atriz e como pessoa. Além disso, acho interessante como ela ancora essa visão na experiência de vida dela, o que dá bastante concretude ao que ela diz.

De um modo geral, tendo a ver com ceticismo qualquer teoria que se pretenda universal e válida para todos, pois elas sempre tentam reduzir a multiplicidade das experiências e a querer fazê-las caber em caixinhas apertadas e geralmente incômodas. Vejo a individualidade como uma experiência sempre singular. Acredito que cada um de nós nasce com um campo de possibilidades não infinitas, mas cuja evolução não está pré-determinada. E ao longo da vida aprendemos a conhecer e a transformar esse campo de possibilidades em realidades concretas, dentro dos condicionamentos a que somos submetidos, o que inclui o nosso meio familiar mas também a situação socioeconômica, a classe social, a raça, o gênero e a orientação sexual, entre outros fatores. Na minha concepção, uma sociedade justa seria aquela que oferecesse condições para que todos pudessem explorar e desenvolver o seu campo singular de possibilidades, o que naturalmente inclui o acesso igualitário a recursos básicos como educação, saúde, alimentação, saneamento, cultura, exercício da cidadania, renda e trabalho digno, entre outros.

Por outro lado, interessam-me muito as diferentes formas como as pessoas buscam entender o processo de desenvolvimento da personalidade e refletir sobre possíveis sentidos para nossa presença no mundo, bem como sobre como viver a vida plenamente. É fascinante perceber os diferentes olhares que as pessoas lançam sobre a condição humana e, mesmo quando não se concorda inteiramente com determinado olhar, há sempre algo nessas ideias que pode alimentar a nossa própria reflexão sobre a nossa trajetória, as nossas possibilidades e os nossos condicionamentos. São ferramentas que podemos usar para a construção da nossa singularidade.

Eu li as memórias da Jane Fonda no mês em que completei 52 anos (novembro de 2016). Na ocasião, a ideia dos três atos ressoou em mim, possivelmente porque naquele momento eu atravessa concretamente um momento de transição (estava prestes a me mudar para Portugal) e de introspecção.

No meu caso, creio que o meu primeiro ato começou a se encerrar no ano em que completei 30 anos, quando concluí o mestrado e comecei a me perguntar o que eu queria fazer da minha vida a seguir. Esse processo se completou aos 33 anos, quando eu deixei meu emprego de 13 anos no Centro de Documentação da Globo. Meu segundo ato começou em seguida, quando fui iniciado no candomblé em junho/julho de 1998. Dois anos depois, passei no concurso do Itamaraty, tomei posse como diplomata e me mudei para Brasília. Nesse período, conheci e comecei a namorar o homem que veio a se tornar meu marido, com quem comecei a ter uma vida em comum em 2001, quase um ano depois da minha mudança.

Desde que fiz 50 anos, em 2014, comecei a sentir algumas transformações se operando em mim. Talvez seja mais preciso dizer que comecei a sentir uma série de questões internas que vinham me assombrando desde o meu primeiro ato começarem a se desbloquear. Certamente o impacto de alguns fatos concretos, como a morte do meu pai, em 2013, meu casamento legal, em 2014, e minha consagração no cargo de pai de santo, no plano religioso, contribuiu para essa sensação. Na esfera profissional, atingi nesse período um patamar na minha progressão funcional que, sem ser o mais alto da carreira diplomática, é aquele onde me sinto satisfeito e realizado.

O fato é que, quando li as memórias da Jane Fonda, percebi que de alguma forma havia chegado o momento de começar a me preparar para o meu terceiro ato. Tenho consciência de que me restam ainda alguns anos até que essa fase se inicie efetivamente. Mas já começo a antever em que direção eu quero seguir daqui para a frente e creio que preciso começar a fazer os ajustes necessários para poder continuar a viagem. A iniciativa de escrever essa coluna faz parte desse processo e sou muito grato pela oportunidade que tem me oferecido de refletir sobre diversos temas importantes para mim.

A coluna de hoje é uma (não tão) breve introdução ao tema da proximidade da velhice, que espero desenvolver melhor no futuro. Sei que, para muitos homens gays como eu, a velhice é um fantasma assustador. Vejo muitos garotos na faixa dos 20 anos que falam da chegada dos 30 como de uma espécie de limite além do qual tudo começa a desmoronar, como se essa data marcasse o início do fim. Alguns parecem tão ansiosos com isso que nem parecem conseguir desfrutar plenamente das muitas alegrias de se ter 20 anos. Devo confessar que a minha vida ficou muito mais interessante depois dos 30, dos 40 e dos 50.

Tenho presente que a sociedade pode ser realmente cruel com os mais velhos. Entretanto, tive a sorte de ter tido até agora uma experiência sobretudo positiva do processo de envelhecimento e acredito que, por mais que os fatores externos tenham um peso determinante na nossa trajetória de vida, a maneira como lidamos com esses fatores também conta. Para mim, o que a idade tem me trazido é sobretudo a habilidade de ir progressivamente me livrando de todos os pesos que foram sendo colocados nas minhas costas ao longo dos anos. Aos 20 anos, eu era um magrinho pesado. Hoje, aos 55, sinto-me um gordinho cada vez mais leve.

A geração de homens gays que me antecedeu foi devastada, real e simbolicamente, pela tragédia da AIDS, que prejudicou e interrompeu um ciclo intergeracional de transmissão de experiências de vida. Ao chegar num estágio da minha trajetória ao qual muitos dos meus mais velhos não puderam chegar ou chegaram carregando cicatrizes profundas, sinto o desejo e, porque não, a responsabilidade de dar a minha contribuição para que esse ciclo possa ser fortalecido novamente.

Até a próxima!

PS1 – A fotografia que ilustra a coluna essa semana foi tirada pelo meu marido Eduardo.

PS2 – Para acompanhar essa coluna, escolhi duas canções de dois artistas que têm servido como faróis para mim ao longo de todos os meus atos: “O Homem Velho”, do Caetano Veloso (ouça no Spotifly), e “Cada Tempo em Seu Lugar”, do Gilberto Gil (ouça no Spotifly).

Para ver mais textos de Paulo André Lima, confira sua coluna Bons momentos e quem sabe algo mais

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