Autopoiese

por Alex Mendes

Li muito pouco de Humberto Maturana, mas o suficiente para aprender o que seja a autopoiese. Construir a mim mesmo nasce como uma tarefa diária dolorida e muitas vezes mais desafiadora do que parece ser. Mas é algo natural na vida. Ela, sozinha, se constrói a si mesma, replicando moléculas, criando proteínas, estruturas maiores, organelas, células, tecidos, sistemas e organismos. A vida é autopoiética, nascemos e, desde esse dia, nossas células produzem a si mesmas num ciclo que só encontra um fim no evento da morte. Mas no intervalo entre o momento em que nascemos e morremos, nós nos reconstruímos totalmente várias vezes, num processo que nos torna, ao mesmo tempo, dependentes de outras formas de vida, mas completamente autônomos delas. Parece que eu estou falando demais, mas não. Esse processo que o biólogo chileno que eu citei na primeira linha descreve é perfeito para explicar como tem sido o processo de viver, ser e continuar sendo um sujeito que se define como homem, cisgênero e gay, nesse mundo contemporâneo: uma constante reconstrução de mim mesmo que só vai cessar no dia de minha morte. A morte, claro, é mais que certa. O que resta é saber como fazer valer a pena até que isso aconteça, cedo ou tarde.

Ao me definir como homem cisgênero, não faço isso com o mesmo orgulho com que eu chamo a mim mesmo de gay. A consciência de si nesse estado não é um processo fácil e nem isento de sofrimento emocional. A princípio, eu prefiro não acreditar que exista, de fato uma identidade gay válida na sociedade. Há uma identidade de transgressão sexual profunda que pode ser expressa em várias práticas. Ser gay é uma delas. Não nascemos nem homens, nem mulheres. Não nascemos com sexo ou gênero, mas com corpos. Esses conceitos são inseridos depois, quando a linguagem começa a nos fazer sentido. É por meio dela que aprendemos associar a presença da genitália com um sexo, com um gênero e com toda uma série de práticas e discursos de identificação. Essas são as identidades válidas. No entanto, nem todos se encaixam nesses parâmetros culturais. O afrouxamento das identidades, a ampliação de seus domínios e as propostas de novas identidades, o vir-a-ser delas (a identidade gay seria uma, ou um conjunto amplo) nos mostram que a cultura jamais dará conta da capacidade humana em ser diversa ou em divergir. Nossa cultura ainda não deu conta de explicar o nosso potencial de forma satisfatória. Somos gays porque somos divergentes. E assim é com cada uma das letras da sigla da diversidade. Todos existem porque há uma possibilidade em existir, mesmo que seja a resistência.

E resistir é algo que só existe quanto tentam nos impor algo, quanto tentam nos interditar com alguma forma de poder. Lemos todos os dias que as formas de expressão sexual, as múltiplas e possíveis combinações entre seres que possuem sexo biológico não é algo fixo em nenhuma forma de vida. O sexo é fluido, líquido. Se um dia foi sólido, desmancha-se no ar por sublimação, parafraseando Marx. Embora a autopoiese de nossos corpos permita a reprodução entre seres de gametas compatíveis, a intromissão da cultura não mais limita a nossa multiplicação ao encontro entre um macho e uma fêmea. Nesse ínterim, não faz sentido sustentar argumentações sobre sexo, gênero ou qualquer coisa de modo profundo. Seria mais fácil admitir que sejamos todos, de certa forma, humanos, e tenhamos, para além da possibilidade de reproduzir, um corpo cheio de outras tantas possibilidades.

Por isso é dolorido me ver no espelho como homem e cisgênero. É a memória de dores que eu senti para ser como eu sou. Faltando pouco mais de sete meses para eu faça meus quarenta anos, ao me ver um instante pelo lado de fora, eu percebo que toda a consciência teórica que eu tenho nem sempre me tira do lugar em que eu fui posto, não totalmente. Embora isso seja possível para muitos que se libertam de maneira maravilhosa, intensa e exemplar. Mas eu sou diferente, resistente. Porque divergir é uma tarefa individual, embora aconteça coletivamente, nunca é do mesmo modo para cada insurgente.

Fui criado para ser homem, essa programação ainda vale na minha autopoiesis mental. Ela é que me faz escolher calças masculinas, no lugar de femininas, é ela também que orienta meu desejo para o masculino. Meus esforços diários de me compreender como homem e cisgênero já afrouxaram o perímetro rígido que foi construído ao meu redor, mas há muito ainda a se modificar, ainda há muito a abdicar-se. Minha descoberta de mim mesmo como esse ser sem identidade definida, na verdade, existindo num espaço de não-identidade foi dolorido. Eu havia nascido em 1981. Em 1987 fomos morar na cidade. Ao chegar nessa mesma rua em que moro agora, nessa mesma casa, há trinta e dois anos atrás, eu era um menino curioso, que aprendera a ler com a mãe, sozinho, aos três anos de idade. Logo fui identificado pelos garotos da rua como afeminado, gayzinho. Eu me senti na obrigação de tentar me masculinizar. Isso significava ficar perto dos garotos da casa ao lado. Não escapei do bullying. Eu demorei a entender que eu estava em posição de desvantagem, que todos os garotos tinham por honra e reputação serem masculinos e não se submeterem a uma posição sexual feminina que deveria ser a minha, porque eu era diferente. Pelo menos me disseram isso. Das piores formas possíveis, mas disseram. Passei anos lidando com isso, até que a adolescência me trouxe experiências menos traumáticas. Havia um perímetro de reconhecimento da sexualidade masculina que permitia entender aquilo tudo como normal. Ufa. Estava salvo. Eram apenas brincadeiras de meninos. Eu havia passado por coisas que todos passaram: a constante difamação do outro como gay, homossexual, como forma de intimidação.

Mas a minha certeza da masculinidade irrepreensível durou pouco. Descobri-me gay na controversa década de 1990. Não é a mesma década dos Club Kids de Nova Iorque. Porque eu morava no interior de Goiás. Era pelo menos meio século antes. Cristianismo, conservadorismo, machismo. Os três pilares da mentalidade goiana até hoje. Era inadmissível admitir-se gay, a não ser que eu desejasse ser expulso de casa, viver eternamente exposto ou separado, como os muitos gays que eu conhecia de vista. Dizer isso, de mim para mim não foi fácil. Na verdade, eu disse a um colega. Disse que estava arrependido e queria que Cristo me ajudasse a sair daquela situação. Claro que isso não ajudou. Não era uma questão que a religião resolveria. Nem sequer eu poderia tentar aquilo com a psicologia ou medicina. Mas sem um ambiente de aceitação, negar era a melhor alternativa.

Nesse ponto, entra a autopoiesis mental. Eu precisava sobreviver. Assim como minhas células passavam dia e noite se alimentando, multiplicando, nascendo e morrendo infinitamente para que eu não me desmanchasse em pó antes da hora, meus pensamentos não pararam um minuto de funcionar para que meu ego não dissolvesse. Era muito estresse. Mesmo que não possa afirmar que meus episódios de adoecimento mental, a partir da adolescência, tenham acontecido por causa desse estresse e negação, é impossível imaginar que também não tenham acontecido por causa deles. De catorze aos vinte anos eu sofri um processo dolorido ao manifestar crises de mania aguda, ter depressão, buscar a cura gay em Cristo e tentar me manter coeso, eu mesmo. Além disso, eu tinha de criar sonhos, estudar para ter uma profissão, desejar amar e ter uma família.

Foram muitas derrotas. Pelo menos duas ou três em cada um desses planos da minha existência. Para me reorganizar, no entanto, eu precisei do outro. Como todo sistema autopoiético, apesar de autônomo, eu dependia de fatores externos para viver. Sem minha família, eu jamais teria conseguido vencer essas etapas. Melhorar de minhas crises de bipolaridade e reconstruir meu ego em pedaços. Primeiro, eu me permiti voltar ao estágio em que eu estava, antes de explodir. Eu passei a viver minha sexualidade. Passei a permitir a mim mesmo tocar outro corpo, experimentar as sensações advindas disso. Anos depois eu me senti na obrigação de me assumir gay. Havia um compromisso com outro rapaz que eu queria viver em família. E por fim, eu me permiti existir em um estado de liberdade que eu não conhecia.

Foi quando eu vi o quanto eu era encarcerado num espaço entre o masculino e o feminino. Ou ainda pior. O quanto a masculinidade me espremia em mim mesmo, já que em mim havia e sempre houve pouca identificação com o feminino. Pelo menos não o suficiente para transitar entre as construções artificiais de gênero que eram válidas. Nessa de me descobrir, a década de 1990 se acabou, os anos 2000 já estavam chegando ao fim. Mas o peso da cultura local ainda é grande sobre os meus ombros. Não existe, ainda, uma identidade gay fixa à qual eu ou qualquer um possa se agarrar. Nem em Goiás, nem em lugar algum do mundo. Há dezenas, centenas de identidades gays, ou seja: nenhuma. O rótulo indica que somos transgressores, não que tenhamos o suficiente em comum para sermos identificados. Que não vivemos na mesma economia do uso do corpo e dos prazeres que os não-gays. Quanto mais as coisas se tornam plurais, mais eu enxergo a minha identidade como cicatrizes cheias de queloides, irreversíveis, angustiantes. Identificar-se como homem e cisgênero pode ser confortável para muitos, mas para mim é possuir cicatrizes profundas de uma guerra inglória, que ainda está longe de se ganhar.

Nessa semana, lembrar das guerras pelo direito de ser que nos trouxeram ao Dia do Orgulho LGBT é importante.É reconhecer que em mim, há vinte e tantos anos, pelo menos, houve uma microbatalha de Stonewall, que aconteceu num dos becos de minha mente e corpo. Não que eu queira comparar em importância as nossas lutas internas com as lutas sociais em que nós, corpos, somos chamados a lutar. Nunca. Mas a minha individuação aconteceu num ambiente em que as pessoas tinham menos liberdade que os transgressores daquele conflito. Essa é a realidade da vivência da homossexualidade em 1990, no interior de Goiás. Um estado de repressão anterior ao modo em que gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans viviam em Nova Iorque, trinta anos antes. Enquanto em Big Apple os Club Kids misturavam liberdade, prazer, drogas e sangue numa viagem profunda aos limites da ausência de imposições e interdições, no Brasil, em Goiás, garotos como eu se confessavam gays a seus amigos, temendo represálias, dores, expulsões de suas próprias casas e até mesmo o inferno, numa mistura de intolerância religiosa com pouca compreensão do que é, de fato, ser gente em todo o espectro de diversidade. Empurrado à margem de minha própria história por causa do adoecimento mental, sem apoio familiar, provavelmente eu teria perecido. Mas isso não aconteceu. Poderia ter acontecido, milhares de vidas se perdem por causa de conflitos de orientação sexual e identidade de gênero.

A capacidade que a vida tem de se construir a si mesma e cumprir um ciclo só é possível porque há oxigênio, alimento, água entrando nos organismos. A autopoiesis do corpo, no entanto, é possível quando há um alimento. Amor. Para desfrutar dele, no entanto, as máquinas caminhantes e desejantes, produzidos pelo sistema capitalista que nos monta e nos põe a desejar, precisam se tornar corpos. Corpos sem órgãos, como diria Deleuze, capazes de exercer sua potencialidade, desterritorializado da masculinidade tóxica, padronizada. Talvez isso me represente melhor agora. A forma externa desse corpo masculino que se lhes mostra não é mais que forma, por mais que ainda haja um apego, é uma forma vazada, pela qual o que é ruim passa e se torna uma máquina desejante que pode se conectar a outras por contiguidade. Assim eu me penso e me construo, me refaço em minhas células até que seus sistemas se apaguem. Mas até lá, pleno, belo, orgulhoso de ser como eu sou. Gay.

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