O preço e o tempo de ser aceito

Sobreviver…

‪É o que eu tenho tentado fazer desde que minha mãe pediu pra eu escolher entre seguir o caminho de Deus (vulgo não ser gay) ou seguir meu caminho.

Antes de começar minha história, deixe eu me apresentar! Meu nome é Danilo, mas, por favor, me chame de Dan. Tenho 34 anos e muita coisa pra contar. Sou um otimista e às vezes até um pouco ingênuo. Tenho a tendência a ser gentil como as águas doces, mas também posso ser rancoroso e demorar a perdoar assim como muitas pessoas nascidas sob a constelação de Escorpião. Começo este espaço para contar um pouco sobre minha vida e compartilhar meus pensamentos. Então vamos lá!

Não nego os privilégios que tive em minha vida. Nunca tive luxos, mas tive uma boa educação e comida na mesa. Morava em bom bairro de Guarulhos (“aqui é Gopoúva. Não bem, não liguei”) e vim de uma família emergente e branca. Tudo o que um garoto inteligente e privilegiado precisaria para vencer na vida. Mas tudo mudou no momento que descobri que ser homossexual faria meus caminhos tomar outros rumos.

Talvez se eu fosse hétero e saísse de casa para casar eu ganharia fogão, geladeira e até teria seguido aquele conselho de família para convidar a tia rica pra ser madrinha. Talvez eu nem precisasse gastar com a casa e ganhasse toda minha mobília. Eu mesmo dei um depurador de ar para minha irmã e outro para meu irmão quando eles se casaram. Pergunta o que eu ganhei? Meu irmão chegou a “profetizar” que se eu não seguisse Deus eu morreria. Uma sentença que seria o começo da minha depressão. Minha irmã, anos depois, disse que eu teria que viver minha vida errada longe da família e ser correto entre eles. Respondi que não existe dois Danilos. Só um. E que ele era gay.

Sai de casa no dia 6 de janeiro de 2008.´Um dia depois de discutir com meu pai e ouvir coisas que prefiro não lembrar, um mês depois de minha mãe descobrir sobre minha orientação, duas semanas depois que meu irmão mais velho me sentenciou à morte em nome de Deus e cinco anos depois que meu outro irmão, também gay, se mudou para Londres com a “cara e o desespero”, como ele mesmo me disse. O fato do meu irmão Pio ser gay não foi suficiente para minha família aprender sobre compaixão, então a vida lhes deu uma segunda chance comigo.

Com meu salário de office boy eu aluguei uma edícula, fiz minha mala e sai à francesa. Na primeira semana de casa nova eu só tinha minhas roupas e um velho colchão que já estava lá. Minha amiga do trabalho levava uma marmita e aquilo era tudo que eu comeria naquele dia. Na segunda semana um primo foi meu anjo e esculhambou o meu pai dizendo que ele era um babaca por me deixar em necessidade. Nisso, meu pai teve um despertar de consciência e levou os móveis do meu quarto e os eletrodomésticos que eram da minha avó, falecida há poucos meses. E esse foi o meu primeiro recomeço.

Às vezes quando falo para amigos que já passei fome eles me olham como se eu estivesse dramatizando. Mas faça as contas: salário de R$600. Aluguel de R$200. Água e luz. Não sobra muito. Muitas vezes o que eu tinha era arroz e linguiça. Meu ex-patrão até me deu um pequeno aumento por ter se sensibilizado com minha história, mas logo após eu trocaria de empresa para viver o grande sonho de ser designer, e fui trabalhar numa editora, mas com um salário menor.

Nessa época só duas pessoas me ajudaram. O Cadu, amigo que tenho até hoje e está que comigo na foto acima, e um namorado que me ajudava muito mas ao mesmo tempo me cobrava com seu amor abusivo. Meus outros amigos falaram que estariam comigo “para o que der e vier”, mas no fim esse der e vier deveria ser apenas para casos de diversão.

Com tudo isso que aconteceu na minha vida (e outras coisas que contarei em outra oportunidade), eu não pude escolher empregos e tinha que me sujeitar ao que aparecesse e ser grato por não estar desempregado. Demorei para ter condições de fazer uma faculdade. Desenvolvi uma depressão que me acompanha até hoje. Demorei para entender que eu não era uma aberração e que a igreja que minha família segue não é a dona da verdade absoluta. Demorei até mesmo para amar a mim mesmo.

Talvez até por isso hoje eu agarro as oportunidades que a vida dá com toda a garra. Um dia talvez terei minha casa, meu gatinho e uma estabilidade financeira, mas por enquanto continuo a sobreviver…

Ah… hoje minha família é mais acolhedora. Eles respeitam eu e meu irmão e temos uma boa convivência. O tempo às vezes faz milagres! Contarei mais sobre esse processo ao longo das semanas.

Concluindo: filhos heterossexuais também tem problemas com seus pais e suas famílias, entretanto, nenhuma pessoa é expulsa de casa por ser heterossexual e cis. Assim, alguns LGBT+ podem até ter alguns privilégios, mas quando se trata de família, via de regra, não contamos com o mesmo apoio que os nossos irmãos heterossexuais e cis.

E você? O que acha de tudo isso? Aconteceu algo semelhante com você? Compartilhe sua experiência.

Abraço de Urso!

16 Replies to “O preço e o tempo de ser aceito”

  1. Nossas histórias são sempre cheias de luta e dores. Mas ler seus textos faz sorrir. Isso traz leveza à massa pesada da vida, seu exemplo inspira.

  2. Dan, torço muito por ti, e como conversamos certa vez, somos descendentes de uma fortuna rígida que mexe muito com nossa cabeça. Somos sobreviventes. Sorte em tudo, querido!!!!

  3. Dan, vivi uma história parecida. Quando minha família descobriu minha homossexualidade não me puseram para fora de casa porque eu já morava fora há um tempo, mas me evitaram por um tempo. Dormi no chão em colchão inflável, trabalhava com fome pq o dinheiro não dava pra tudo. Conclusão, muitos de nós sofremos a incompreensão, por isso acho tão importante nos apoiarmos. Adorei seu artigo autobiográfico!

  4. Dan tudo bem ?! Por conversarmos bastante conhecia trechos dessa historia. Não sou muito bom na escrita mas se precisarem de mais pessoas me fala! Passei por “muitas e boas” na vida. Abraços e muitas saudades de todos vocês.

  5. Dan, como disse alguém em comentário acima, nunca imaginei sua historia, eu o via na eagle como alguém empoderado. Sempre digo que a realidade do outro pode ser bem diferente da nossa, e a minha foi muito diferente, minha mãe.me acolheu totalmente, meu pai também. Tive tanto apoio familiar que eu creio que foi isso que me manteve firme até hoje, minha mãe briga por minha causa, como ela diz “não importa se eu aceito ou não, importante é o respeito”. Quando vejo relatos assim eu vejo o quanto fui privilegiado,

  6. Oi Dan … bons tempos de Funchal não é mesmo… o intruso do aniversário. Adorei ler esse texto e saber um pouco mais de vc é suas dificuldades porq existem pessoas que precisam ler essas palavras e saber que são capazes…
    Por coincidência nessa segunda feira no meu Instagram vamos relatar uma história de um amigo gay que foi bem mais fácil que a sua. Se puder acompanhar será muito bom saber que existe pessoas que não foram não privilegiadas como ele foi … um super abraço Dan
    Junior Martins – @jreponto

    1. Vc e admirável Dan e um ser iluminado mas pra te falar a verdade vários de nós passamos por isso e temos que nos adaptar a tal disperso mas tenha certeza eu amo vc e te admiro de mais obrigado por ser este homem

  7. Dan, fiquei feliz em saber que voltou a escrever e vai compartilhar sua história. Acho que vai ajudar muita gente a não se sentir sozinha/ uma aberração.
    Continue escrevendo que a gente continua lendo e se emocionando! 😢
    Te amo! ❤️

  8. Quando a gente vê o outro é sempre pelo vidro. Foi assim a primeira vez que te vi, lá na antiga Eagle, perto da Frei Caneca . Não imaginava que um homem gay tão empoderado como vc tinha passado e ainda passa por tantas dificuldades, o que faz admirar-te ainda mais, não pelas dificuldades, mas pela sua capacidade de ser resiliente e ainda construir pontes de empatia, alteridade e encontro de narrativas. Sua história é um pouco da minha, e infelizmente de outros LGBT. Grato pelo texto, pela reflexão.

    1. Obrigado Sérgio!!! Minha luta é nossa luta. Expor minha história é uma chance de me conectar com outras pessoas que passam o mesmo que eu. Fico feliz que tenha entendido o sentido do texto 🙂

      1. Parabéns querido que texto incrível não tenha dúvidas que esse texto pode ajudar a muita gente . Já te admirava muito e agora sabendo mais de sua história te admiro mais ainda . De fato essa é uma luta de todos . Adorei !

    2. Conheço o Dan faz muito tempo, mas não sabia da sua história.
      Como é difícil o começar para os gays e esse relato nos mostra o quanto pode ser doloroso também.
      Fico feliz pelas suas conquistas e mesmo tendo sido árduo o seu caminho, isso te construiu e te fez essa pessoa tão querida e gentil que conheço.

  9. Parabéns, Dan!!! Lindo seu depoimento. Escolher ser quem a gente quer ser não é garantia de um caminho tranquilo, mas abre a possibilidade para a conquista de uma felicidade que nunca vai ser possível se a gente cede aos caprichos de outros!!! Beijos grandes

    1. É exatamente esta a questão… O caminho é mais difícil, mas ainda assim sou mais feliz se tivesse me reprimido e cedido às ambições da minha família. Obrigado pelo comentário!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *